DIALÉTICA DAS TRAÇAS

A primeira se aproximou da lombada em couro da Odisseia, de Homero, e resolveu argumentar: — Se eu der fim a esta Odisseia, traça irmã, daremos cabo do sofrimento de Penélope? A outra, mais experiente devido ao comer dos tomos, tirou a vista do exemplar de Eneida, de Virgílio, devolvendo: — Se assim fosse, jovem […]

Confidências a Nirton Venâncio

Tudo foi tão de repente diante dos meus olhos que não houve tempo para retornar ao corpo do menino que brincava na calçada. Estamos aqui em terras distantes, nas quais os olhos se embaçam com o sereno da saudade, Nirton. De Crateús para Santana, meia légua de desterro; um sem-número de horizontes sem atrativos. — […]

Meus projetos literários

— Quais os seus mais novos projetos literários, Clauder Arcanjo? Essa provocação do Companheiro Acácio me tirou o prumo do dia. Não o respondi de imediato, pois sempre suspeito dos questionamentos inopinados do Companheiro. Quando não têm um quê de troça, têm um mar de ironia. Nesse caso, caro leitor, o melhor a fazer é […]

Confidências a Angela Gutiérrez

Nas mãos vazias da menina, plumagem mágica de ignoto pássaro nascia e no espelho de seus olhos se esvanecia. Há magia nas palavras da eterna menina. Eterna por não perder sua plumagem de pássaro, a sempre renascer em cada sonho, em cada poema, em cada cristal-estrofe ofertado, em telúricas epifanias do verbo. “A eterna menina […]

Confidências a Akhmátova

Na janela, o álamo murmura: “Teu rei já não é mais deste mundo”. Hoje, não quero falar de álamo, não há álamos no meu sertão. Existem espinhos ferinos; os mais cruéis são aqueles, Anna, que despontam no tronco das línguas dos próximos, fingidos, a nos murmurarem palavras de consolo, enquanto, inocentes, somos alvos dos seus […]

Confidências a Paul Celan

Todos os poetas são judeus. (Marina Tsvetáieva) ERA TERRA DENTRO DELES, e cavavam. Há mais do que terra dentro de nós, e cavamos cada vez mais. Em busca do centro de tudo. Dos dias, das noites e dos segredos não revelados, enterrados. Cavavam e cavavam, assim se passavam seus dias, suas noites. Não louvavam a […]

Confidências a Matilde Campilho

Um homem leva a mão ao peito e repete quatro vezes o nome do seu irmão. Enquanto isso, Matilde, eu levo a mão à obra e repito sete vezes o teu nome como se fosse em flecha-canção. *** Nu, de braços abertos, António ajoelha-se na frente de um baobá. Eu, a esperar o cheiro de […]

Confidências a Rosa

Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa. O senhor concedendo, eu digo: para pensar longe, sou cão mestre — o senhor solte em minha frente uma ideia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos, amém! Nesses desmundos, entre nonadas e inferências, eu afirmo, Guimarães Rosa (se é […]

Confidências ao gato Nabuco

— O que tanto o incomoda, Nabuco? Mal concluí tal indagação, o bichano subiu sobre a escrivaninha e passou a apontar-me, com a patinha esquerda, a página de um livro. — Shif… zhshif… miau… miauuu! — Calma, Nabuco, lerei, calma! — respondi. De imediato, trouxe o tomo para o facho de luz do abajur e […]

Companheiro Acácio e o pardal

— Companheiro Acácio, que tristeza! Acácio calado estava, sorumbático ainda mais ficou. Bem sei que quando ele se encontrava naqueles dias, era prosa perdida se me arvorasse a seu confidente. Aliás, Acácio detesta os enxeridos, os fuxiqueiros, ou os curiosos trajados de amigos confiáveis. Fui à cozinha e, lá, preparei um café coado para nós […]

Pedro de Bergerac

— Companheiro Acácio, não o sabia conquistador! Se vou direto a esta sentença exclamativa, caro leitor, é porque tinha Acácio como alguém tímido. Apreciador da beleza feminina, claro, mas destituído daquilo… Como poderei descrever? Daquilo que encanta as mulheres. Várias vezes o flagrei falando entredentes, como se declarasse uma paixão acachapante, porém a timidez o […]