Pedro de Bergerac

— Companheiro Acácio, não o sabia conquistador!

Se vou direto a esta sentença exclamativa, caro leitor, é porque tinha Acácio como alguém tímido. Apreciador da beleza feminina, claro, mas destituído daquilo… Como poderei descrever? Daquilo que encanta as mulheres.

Várias vezes o flagrei falando entredentes, como se declarasse uma paixão acachapante, porém a timidez o jogava numa reserva de silêncio abissal.

E qual não foi o meu espanto quando o encontrei, semana passada, final de tarde, em uma conversa de enamorados com uma bela dama. Esta, rendida ao dom-juanismo acaciano, ria de tudo que ele lhe soprava aos ouvidos.

À noite, quando saí de casa em busca de fazer um lanche, eis que flagro o Companheiro com outra diva. Desta feita uma jovem escultural, com olhares de Helena sem Tróia.

E foi nesse exato momento, leitor amigo, que a exclamação que abre esta crônica escapou dos meus lábios.

Acácio, de início, não deu pela minha presença. Personificava aquele seu jeito pernóstico ao não reconhecer a presença de um amigo. Com pouco mais, ajustando a gola de sua camisa, ele deixou escapar uma desprezível saudação monossilábica:

— Oi.

A Helena sem Tróia nem reparou em mim, continuou com o olhar fixo nos lábios sussurrantes do galanteador. Sim, do Acácio. Aquele filho de uma mãe! Desculpe-me pela perda de controle; no entanto, você há de convir, leitor, que isso não são modos de se tratar um amigo de longas datas.

Refeito do aborrecimento, passei a refletir: há algo de estranho nesse reinado acaciano.

Segui os passos do Companheiro Acácio dias a fio, até que — “Bingo!” — o que antes era mistério se fez clara e maravilhosa revelação.

Vou direto à minha ação sherlockiana. Acácio descobriu um jovem, a quem ele de pronto intitulou de Pedro de Bergerac, que lhe fornecia divinos motes: uns em versos, outros em prosa. Com eles de cor, saía às ruas e deles se aproveitava para galanteios.

A primeira “vítima”, segundo meus levantamentos, foi uma universitária cativa dos mistérios da Física. Acácio conquistou-a com um testemunho singular:

— Minha vida sem você é uma grandeza escalar: sem direção e sentido.

Minutos depois, os dois arrulhavam amores mil. A noite ofertou-lhes um céu estrelado, e a jovem cobria Acácio de beijos calientes.

Logo no dia seguinte Acácio voltou a visitar nosso Pedro de Bergerac, desta feita rogando-lhe um mote matemático.

— O pai dela é um euclidiano de carteirinha; a mãe tem dois porta-retratos na cabeceira — um com Arquimedes e outro com Eratóstenes de Cirene — e como hábito solucionar questões de trigonometria, Pedro. E ela, que lindo!, declarou às amigas que implorava aos céus por um pretendente amante dos números.

Pedro sentou-se à escrivaninha e, segundo pude levantar, escreveu na velocidade da luz: “Meu amor por você é como o pi, irracional e sem fim!”.

Acácio leu e releu, teatralizando perante Pedro, a fim de decorar o trecho, bem como articulá-lo no tom e no ritmo exatos.

Dois dias depois, a admiradora dos mistérios matemáticos entregava-se às garras acacianas, jurando-lhe amor eterno.

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E você, caro leitor, pensa que Companheiro Acácio parou por aí?

Qual nada! Descoberto aquele rico filão, Acácio queria matar o atraso. Até que, ontem, ele deparou-se com uma senhorita de nome Roxana. Cabelos longos, cadência de princesa, pele macia, formas torneadas. “Que princesa!”, escapuliu dos lábios do novo Casanova.

Passou a seguir os passos de Roxana, só se aquietou quando “achou-lhe o ponto fraco”. Era uma ardente estudiosa das leis do Universo.

Sabedor disso, Acácio mais do que depressa correu para a residência de Pedro de Bergerac.

— Pedro, agora capriche! Seu nome é Roxana. De uma beleza indescritível, ela é uma fã da astrofísica e coisa que o valha. No seu quarto, disseram-me, biografias dos grandes estudiosos dessa disciplina, além de um telescópio para observar o movimento dos astros. Meu Deus, uma estrela entre estrelas!

Pedro disse-lhe que, em tal caso, precisaria de um tempo adicional.

— Mas… eu pensei sair daqui hoje já com um mote para cortejá-la.

Pedro alegou que, em se tratando de estrelas, astros, constelações, buracos negros… a coisa era muito mais complicada.

Acácio saiu dali decepcionado, o coração a bater desesperado por Roxana.

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Hoje, final da tarde, tive que conter Acácio, pois ele queria partir para a briga com Pedro.

Briga?! Sim, caro leitor, Pedro resolveu ele mesmo conquistar Roxana. Saiu cedo de casa e, quando ela deixava o prédio, saudou-a:

— Eu sabia que Kepler estava certo! Afinal de contas, Roxana, você está sempre no foco dos meus pensamentos, e a órbita da minha existência completa um eterno giro em torno de você. A todo instante, querida, essa distância entre nós varre a mesma área de desejo e solidão que me assola. Independente do corpo celeste nesse eterno vazio que eu me sinta, o quadrado do período que passo longe de você é diretamente proporcional ao cubo da minha distância à felicidade!

Ela caiu nos braços de Pedro de Bergerac para, em seguida, passarem a desfilar pela cidade, em arroubos de enamorados.

— Essa carinha de anjo de Pedro, Clauder Arcanjo, nunca me enganou.

Quanto ao Companheiro Acácio, leitor curioso, ele simplesmente voltou à sua habitual condição de péssimo conquistador, a se lamentar:

— Se eu tivesse eloquência e frases…

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Autor das obras Licânia, Novenário de espinhos, Uma garça no asfalto, Cambono, O Fantasma de Licânia, entre outras.

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