Confidências a Rosa

Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa. O senhor concedendo, eu digo: para pensar longe, sou cão mestre — o senhor solte em minha frente uma ideia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos, amém!

Nesses desmundos, entre nonadas e inferências, eu afirmo, Guimarães Rosa (se é que você me permite a presunção do dedo da afirmação), que o bicho-homem anda imbricado com o cão caolho. Ou seja, pensa torto, rastreia um nadico de nada e já faz carreira com um discurso ligeiro, raso e pouco, porém com o arroto da certeza. Desses, eu quero distância, arreio o burro e meto léguas entre eles e eu.

Viver é muito perigoso… Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar. Esses homens!

No caminhar da vida, certos companheiros valem a poeira alumiada que a vida nos faz de fole. Conversa macia e certeira, às vezes tramada num despautério de sabença primaveril, tão grande é o florear da narrativa.

Moço!: Deus é paciência. O contrário, é o diabo. Se gasteja.

Sim, confesso, perante Deus e o demônio rabudo, que levei tempo para meter as fuças no seu dizedor incomum. Hoje, não careço mais de explicações. Sento-me, paciente, e me entrego ao rio que nasce nas Gerais e se encaminha para a foz do desconhecido. Ler Rosa é, antes de tudo, perigoso para os agastados.

O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado!

Vixe, Maria! O sertão, pelo jeito, não é coisa nem pasto para principiante. Quem tentou imitá-lo, Guimarães, se engasgou, em brevidade, com a própria gosma ou o capiau tresvariou no perdido ajuizamento literário, “brejão engolidor”. Ao fim e na foz, um remendo malfeito, pois não se copia o luarado inimitável. “Pelejar por exato, dá erro contra a gente. Não se queira. Viver é muito perigoso…”
Amor vem de amor. Digo. Em Diadorim, penso também — mas Diadorim é a minha neblina…
— Shifzzz… miau… mi-au…
— Calma, Nabuco. Que a trama aqui é de quem engrossou o lombo no tocar a vida na sina sertaneja. Seu rastro é de bichano da cidade, no relume da mansidão. Se houver em seu mundo gatinha neblinada, você, então, deamore felinamente morrerá. Amar é cheiroso.
Aqui não se tem convívio que instruir. Sertão. Sabe o senhor: sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar. Viver é muito perigoso…
— Miau… miau… Shifzz… mi… au.
Não precisa de se aboletar apenas no testemunho daqueles que conquistaram os instantes no tiro e na quicé, Nabuco. Como anunciou Riobaldo: “Olhe: Deus come escondido, e o diabo sai por toda parte lambendo o prato…”. Em gerais, o mundo é formoso. “No sertão, até enterro simples é festa.”

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Deixa o mundo dar seus giros! Estou de costas guardadas, a poder de minhas rezas. Ahã. Deamar, deamo… Relembro Diadorim. Minha mulher que não me ouça. Moço: toda saudade é uma espécie de velhice.
De permeio, bem sei, que: “Como no recesso do mato, ali intrim, toda luz verdeja”, esboço meu sorriso alumioso, quando, espiritado, fico falando e refalando, cantando e propagando os seus achados-criações. Se pura invencione ou artes de um descobridor? Prefiro nisso nem fechar um coberto. “O senhor deve de ficar prevenido: esse povo diverte por demais com a baboseira, dum traque de jumento formam tufão de ventania.”
Grato, filho de Cordisburgo, por seu rosear bem treliçado, o cabra mergulha no mundo, veredeando, que Deus é como um suspiro bom de presença por riba de tudo. Por entre seu verbo alumiado, “relimpo de tudo”, só se colhe bons e regrossos haveres. “Ar que dá açôite de movimento…”.
Confiança — o senhor sabe — não se tira das coisas feitas ou perfeitas: ela rodeia é o quente da pessoa.
Ficarei por aqui. “Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância.” Não é o caso do mestre João Guimarães Rosa, ser tão grande: veredas. Nunca fui de “sungar segredo”. “Travessia.”

Obs.: trechos em itálico e entre aspas extraídos da obra Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa (Companhia das Letras).

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Autor das obras Licânia, Novenário de espinhos, Uma garça no asfalto, Cambono, O Fantasma de Licânia, entre outras.

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