Confidências ao gato Nabuco

— O que tanto o incomoda, Nabuco?
Mal concluí tal indagação, o bichano subiu sobre a escrivaninha e passou a apontar-me, com a patinha esquerda, a página de um livro.
— Shif… zhshif… miau… miauuu!
— Calma, Nabuco, lerei, calma! — respondi. De imediato, trouxe o tomo para o facho de luz do abajur e comecei, de início em voz baixa:
— “Quando uma alucinação se faz coletiva…
— Shifz… shfit! Miau.
— Sim, quer que eu leia em voz alta, em melhor entonação?! Tudo bem, Nabuco, vamos assim: “Quando uma alucinação se faz coletiva torna-se popular, social, deixa de ser alucinação para converter-se numa realidade, em algo que está fora de cada um dos que a compartem.” — reli e, em seguida, verifiquei o título da obra: Vida de Dom Quixote e Sancho, de Miguel de Unamuno.
Nabuco aguardava os meus comentários. Levantei-me da cadeira e resolvi servir-me do café na copa. Ao retornar, folheei o pequeno tomo e me enveredei pelas sendas unamunianas. Fui despertado pelas unhadas de Nabuco.
— Lá ele!?… — protestei.
O pequeno felino, incomodado, como se me pedisse atenção. Arrepiou-se de todo e passou a lamber a capa de outra obra. Desta feita, o meu velho exemplar de Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa. Ao tê-lo em meus braços, percebi que havia dentro dele um marcador; ao abrir, uma passagem grifada a lápis: “Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa. O senhor concedendo, eu digo: para pensar longe, sou cão mestre — o senhor solte em minha frente uma ideia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos, amém!”.
— Shifzzz… miau… mi-au…
— Sim, entendo-o. Não tem sido fácil para você, Nabuco, perdido neste mundão de tantas ideias rasas. E todo mundo a aplaudir o rasteiro, em vez de louvar, e bendizer, o que se mete a nos revelar o mais difícil, aquilo que não se encontra à beira do caminho. Nonadas, tudo se apresenta como nonadas — disse e reparei que o meu animal de estimação se enrolava em seu silêncio arguto.
Lá fora um vozerio de festa, uma gritaria só.
Reparei noutra passagem de Rosa e declamei-a; desta feita em alta voz:
— “Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia. Mesmo fui muito tolo! Hoje em dia, não me queixo de nenhuma coisa. Não tiro sombras dos buracos.”
Eu e Nabuco, calados, a tão só mirar um ao outro, a confessar nossas incredulidades. O verbo não nos bastava, certas coisas não se traduzem, se sentem.
— Miau… miau… Shifzz.
— Gostou do que eu pensei, Nabuco? Ou apenas do que recolhi de Grande sertão? Você me compreende, sempre a traduzir e desvelar os meus pensamentos. Enfim, entre nós não caberia, nunca, a caixa-forte do segredo — declarei, enquanto lhe fazia um carinho entre os olhos atentos.
— Shiff… miau, miau… Shifzliz… miau, miau.
— Quer que eu recite algo para você. E esta noite está para recitais, amigo? — indaguei-lhe.
Nabuco esticou-se, encostando a cabeça sobre o Livro do desassossego, de Fernando Pessoa. Entendi de pronto a sua mensagem.
— Você, Nabuco, sempre a considerar a prosa de Pessoa como a mais refinada Poesia. Respeito a sua opinião. Então, vejamos: “Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. Não sei onde ela me levará, porque não sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. (…) Sento-me à porta e embebedo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.”

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A madrugada se manifestou, com os seus sortilégios, e não demos por sua chegada. De vez em quando, um grito lá fora, bem distante. Nada, contudo, que atrapalhasse as confidências ao gato Nabuco (ou dele para mim?).
Ao reparar que ele dormira, cobri-o com um manto de algodão fino e fiz aos Céus uma prece ligeira:
— Grato, Senhor, pela existência de tão fiel Companheiro.
Na entrada do quarto, tive a sensação de ouvir algo na sala.
— Boa noite, Nabuco.
— Miau…!
— O que tanto o incomoda, Nabuco?

* Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia de Letras do Brasil (ALB) e de outras entidades culturais.
[email protected]

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Autor das obras Licânia, Novenário de espinhos, Uma garça no asfalto, Cambono, O Fantasma de Licânia, entre outras.

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