Confidências a Matilde Campilho

Um homem leva a mão ao peito e repete quatro vezes o nome do seu irmão.
Enquanto isso, Matilde, eu levo a mão à obra e repito sete vezes o teu nome como se fosse em flecha-canção.

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Nu, de braços abertos, António ajoelha-se na frente de um baobá.
Eu, a esperar o cheiro de mato de minha província, que só se anuncia nas primeiras chuvas, ajoelho-me, Antonio que sou, frente à tua prosa poética, Campilho, palavra de além-mar.

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No banho, enquanto se lava, Maria Luísa esfrega sem querer um sinal de nascença do tamanho de um caroço de azeitona.
Sim, acredita, ainda há pouco, Matilde, um médico extraiu de minha cabeça um sinal de nascença do tamanho do sinete do meu pai. Herdara dele sublime marca. No banho, esfrego, Matilde, esse vazio que ficou, e Zequinha, meu bem-querer, renasce ainda mais, caroço em mim.

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Um equilibrista estica uma corda de aço entre uma árvore e outra.
Na manhã estranha, a tua prosa campeia e estica um verbo, mescla de algodão e aço, entre um silêncio e outro, Matilde.

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Uma labareda de fogo passa entre uma metade e outra do corpo de um carneiro.
— Shifzzz… mi-au… mi-au… fzzz…
— Releia e complete, Nabuco. Toda história é uma flecha que une o nada ao vazio que vai à frente. Se você, amigo bichano, não preenche esse vazio, incompletude entre duas metades ígneas, nunca conseguirá decifrar o corpo todo.

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Quinze mulheres de Corinto tentam organizar-se decentemente para formar um coro.
— Miau… miau… Shi…fzz… mi… au.
Não precisa se apressar, ainda há tempo para você, gato Nabuco, se organizar e, juntos, apreciarmos, em festa, o recital das dezoito mulheres de Licânia.

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Uma mulher de camisa púrpura cruza sozinha a estrada.
Nabuco e eu rezamos pela mulher que passa por nós, imaginando a falta do filho enterrado há pouco. Semente na terra, a tornar tão sozinha a sua púrpura estrada.

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Um general, tremendo de frio, atravessa a cordilheira dos Andes com um exército de homens gelados e corajosos caminhando atrás de si.
Eu, soldado raso, sofrendo de calor extremo, atravesso a várzea do Acaraú com um exército de sonhos, quentes e corajosos, caminhando sempre à frente de mim.

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Um cachecol branco de caxemira está enrolado num cabide há pelo menos oito meses.
Se entrarmos no nono mês, Matilde, tu nascerás, virginal e macia, no meu sonho brejeiro.

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Um homem segura outro homem pelos colarinhos e encosta-o à parede, no alto. Depois põe-no no chão, fixa os olhos nos olhos dele, cospe-lhe na cara e deixa-o partir.
— Miau… mi… au…
Sim, Nabuco, um filho não consegue punir o seu próprio pai, mesmo diante da descoberta viva das suas terríveis mazelas.

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Bandos de morcegos giram em volta de uma laranjeira na costa algarvia.
No campanário da Matriz de Sant’Anna, um velho morcego, preso ao seu inútil silêncio, sonha com os voos, hoje impossíveis, em volta das carnaubeiras licanienses.

***

Carmen ajeita um pouco para a direita o abacaxi falso que há mais de duas horas carrega sobre a cabeça.
Na esquina da rua Mateus Mendes, frente à Praça do Poeta, o menino Antonio já lambe os beiços, a saborear, antecipadamente, o suco de abacaxi de Dona Carmen.

***

Uma rosa-albardeira desponta ao sol.
E as histórias nunca findarão, até aquelas mais desajeitadas encontrarão um ouvinte atencioso.
Espero, Matilde, que haja outros, assim como tu, que ainda saibam me contar e ouvir.

Obs.: trechos em itálico extraídos da obra Flecha, de Matilde Campilho (São Paulo: Editora 34, 2022).

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Autor das obras Licânia, Novenário de espinhos, Uma garça no asfalto, Cambono, O Fantasma de Licânia, entre outras.

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