Meus projetos literários

— Quais os seus mais novos projetos literários, Clauder Arcanjo?

Essa provocação do Companheiro Acácio me tirou o prumo do dia. Não o respondi de imediato, pois sempre suspeito dos questionamentos inopinados do Companheiro. Quando não têm um quê de troça, têm um mar de ironia.

Nesse caso, caro leitor, o melhor a fazer é pensar, repensar, pesar, sopesar, meditar e aprofundar a análise; e nunca, mas nunca mesmo, cair na besteira de responder logo com aquilo que me vem à mente, de primeira. “Acácio não é flor que se cheire!”, bem me alertou a amiga Mellina.

No final da tarde, depois de muitas idas e vindas mentais, arrisquei uma resposta:
— Ando a pensar numa peça de teatro, ou quem sabe um livro infantil.

Companheiro me olhou de alto a baixo, coçou seu bigodinho bem aparado, ajustou os óculos, fungou um pouco, antes de se pronunciar:
— Em Licânia, amigo, não há inspiração para um bardo, muito menos para um novo irmão Andersen.

Disse e saiu do ambiente, fingindo compromissos com a Lua. Esta já despontava altaneira e merencória, mesmo restando um pouco da luz vespertina.
— Volte aqui, seu desgraçado! — gritei, à porta, perdendo as estribeiras.

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Na madrugada sonhei com Hamlet, “Ser ou não ser, eis a questão!”. Acordei, tomei um copo d’água e tentei dormir novamente. Pouco depois fui desperto por Calderón de La Barca: “A vida é um sonho”. Rolei na cama, tal qual deitado num proscênio repleto de infaustos pensamentos. Inquieto, a mente tumultuada e povoada por uma turba das mais díspares dos palcos mundo afora, atravessei a madrugada numa estreia infinda.

Ao me levantar, maldormido, minha esposa inquiriu-me:
— Seu reino por uma cama?
Entrei no banheiro, tranquei a porta, não sem antes protestar, como um Júlio César traído:
— Até tu, Biscuí?!

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Hoje cruzei com o salafrário do Companheiro Acácio. Trazia um sorriso lírico que, confesso, me desarmou:
— Está a rir de que, seu…
Antes que eu pronunciasse o primeiro impropério, ele me conduziu para dentro de uma cafeteria próxima, fez-me sentar a uma mesa mais ao fundo. Em seguida tirou o chapéu, pigarreou, soprando-me, em vestes de segredo:
— Ao longo da tua carreira de aprendiz de escrevinhador, Arcanjo, muitos erros foram cometidos. Alguns, como me sinto parceiro de tuas criações, até hoje são espinhos cravados fundo n’alma deste provinciano amante da grande literatura. Como me confiaste teus novos projetos, permite-me, a exigirem novas linguagens, outras formas e conteúdos bem singulares, quero ser teu conselheiro. E…

— Meu conselheiro, Acácio?!… Você vai ser companheiro na p…
— Contém-te, Clauder Arcanjo, tu estás em local público e tua habilidade para Nelson Rodrigues é bem pequena. No máximo, um naco de “bonitinho, mas ordinário” — devolveu-me Acácio, em seguida retirou da bolsa alguns rabiscos e apontamentos.
Resolvi ouvi-lo. Algo no seu discurso poderia me atrair.

— Não é fácil chegar ao público do teatro, muitos se perdem na abertura das cortinas. E, crê-me, é ainda bem mais difícil tocar o leitor infantil. Que de besta e tolo não tem nada. Alcançar as profundezas do universo lúdico e lá cravar uma mensagem especial é digno dos grandes. Se formos olhar para a tradição literária, filho de Licânia, são vários os casos dos escritores de escol que viraram objeto de escárnio da criançada quando quiseram, na literatura infantil, pôr os pés (ou as mãos, sei lá?).

Intrigado com tal abordagem, resolvi contra-atacar. “A melhor defesa é o ataque”, ensinara-me Cidão das Goiabeiras, treinador do Esporte Clube Licaniense. Isso após o primeiro tempo do jogo, quando nosso time já sofria uma goleada descomunal para o Guarani da Princesa do Norte:
— Vejamos: poder de concisão, sempre fui elogiado por desvelar seus segredos. Capacidade de fabulação, são muitos os que me festejam por dominar tal atributo literário. Superação e abstração, Companheiro, têm sido sempre os meus pontos fortes. Resta-me apenas…
Acácio elevou a mão direita, fazendo-me calar, enquanto completava:
— Se não conceberes a primeira cena com a tinta da humildade, Arcanjo, o desfecho de teus projetos literários será: na ribalta, homéricas vaias; na literatura infantil, a zombaria inimaginável dos infantes.
E Acácio me deixou sozinho no cenário, à semelhança de uma persona na coxia, com a máscara de tolo e o figurino tragicômico de um bobo da corte. “Todos nós nascemos loucos. Alguns permanecem”, e lá fiquei, desde então, a noite toda Esperando Godot.

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Autor das obras Licânia, Novenário de espinhos, Uma garça no asfalto, Cambono, O Fantasma de Licânia, entre outras.

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Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Autor das obras Licânia, Novenário de espinhos, Uma garça no asfalto, Cambono, O Fantasma de Licânia, entre outras.