ESPELHOS

No espelho a vida é
só repetição,
eco sem surpresa,
luz sem comunhão.

Há fome lá fora,
há ruas, há rostos,
mas o espelho prefere
afetação do próprio gozo.

Como um planeta sem sol,
ledo e cego,
orbita o próprio umbigo
pensando ser graça.

Constrói catedrais
com vitrais do próprio retrato,
ajoelha-se diante da própria voz
e responde amém.

Enquanto isso,
a vida — indisciplinada —
bate à porta
e insiste em entrar.

O outro lá fora
é tropeço da certeza,
ferida que não pede aplauso,
mas compaixão.

Milagre é sempre excesso,
que transborda do centro,
que vem de fora,
que não foi escrito.

O outro não é conceito,
é acontecimento,
é presença,
não é discurso.

Toda vez que o eu se cala
para escutar alguém,
o mundo — finalmente —
se torna possível.

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