Assistindo à Edição 2025 do Baile do Menino Deus, emerge ao coração e à mente uma força estranha, fruto da imensa alegria do encontro com a torrente cultural contida na cuidadosa expressão artística produzida pelos profissionais daquele auto de Natal, cujo marco temporal inicial foi o ano de 1983.
No assistir ao Baile, sempre me reencontro com o meu nome e sobrenome, com minhas territorialidade, temporalidade e relacionalidade seminais, brotadas em Recife, no Bairro de Casa-Forte, à rua Rita de Souza, número 224, onde nasci e iniciei minha jornada existencial durante meus primeiros 12 anos de vida, aprendendo a ouvir, a olhar e a falar, a ter de agir ao fazer escolhas diante das circunstâncias que se me apresentavam.
Como acentua o escritor espanhol do século XX, José Ortega y Gasset, nossa vida é, em todo instante e antes de tudo, consciência do que nos é possível. Se em cada momento não tivéssemos em nossa frente mais de uma possibilidade, não haveria sentido chamá-la assim. Seria apenas pura necessidade.
O mundo é o repertório de nossas possibilidades vitais. O mundo, ou a nossa vida possível, é sempre mais que nosso destino ou vida efetiva. Vida é vida possível, decidir entre possibilidades. Circunstância e decisão são dois elementos radicais de que se compõe a vida.
Nossa trajetória existencial não está absolutamente predeterminada. O mundo é sempre este e agora, mas ao apresentar-nos mais de uma trajetória, força-nos a escolher. Viver é sentir-se forçado a exercer a liberdade com a consequente responsabilidade de decidir. Nossa atividade de decisão não descansa um instante sequer.
Ortega y Gasset destaca que tudo isto vale também para a vida em coletividade. Nela há, primeiro, um horizonte de possibilidades, e logo, uma resolução que escolhe e decide o modo efetivo da existência coletiva. Essa resolução emanará do caráter que a sociedade tiver e da correlação de força dominante nela.
Portanto, para desafios radicais é necessário um saber radical. E isto não é uma questão secundária, mas central, principalmente para a vida coletiva. O autor lembra em sua obra “A Rebelião das Massas”, que o tempo presente assiste ao gigantesco espetáculo de inumeráveis vidas humanas que marcham perdidas pelo labirinto de si mesmas por não terem uma causa relevante a que se entregar. Entregue a si mesma, cada vida fica em si mesma, vazia, sem ter o que fazer. Fica perdida ao se encontrar sozinha consigo mesma, pois o egoísmo é labiríntico.
Viver é ir na direção de algo, é caminhar para uma meta. A meta não é o caminhar, não é a vida, mas é algo a serviço dela, e que por isso mesmo está além dela. Todavia, ao se fazer a opção de andar só para dentro de si, egoisticamente, não se avança, não se vai a parte alguma, dá-se voltas e voltas num mesmo lugar. Isso é o labirinto, um caminho que não leva a nada, que se perde em si mesmo, por não passar de um caminho para o próprio egoísmo.
Tal egoísmo faz surgir o homem medíocre, porque sua alma se fechou em si mesmo. Perdeu o sentido da audição, desenvolvendo ideias rasas e taxativas, acarretando como consequência a produção da barbárie e da violência, ou seja, a ausência de normas e de apelação ao possível. Um homem que não quer dar razões nem quer ter razão.
Esse homem é previamente esvaziado de sua própria história, sem entranhas de passado e por isso mesmo dócil aos modismos e discursos extremistas. Mais que um homem, é só uma carapaça de homem, constituído por ídolos do mercado; carece de uma identidade, de uma intimidade sua, inalienável, de um eu que não se possa revogar. Desta forma, está disponível para fingir ser qualquer coisa. Crê que só tem direitos e não crê em obrigações. Incapaz de entender que haja vocações particulares, mensagens especiais e missões diferenciadas. Estúpido por não perceber que viver é conviver.
Neste sentido, Ortega y Gasset diagnostica uma transformação estrutural nas sociedades modernas com o surgimento daquilo que denominou como “homem-massa”, que não é definido pela classe social, mas por sua atitude espiritual.
O “homem-massa” recusa à complexidade da vida; despreza o saber especializado; desdenha de qualquer forma de excelência; tem a convicção de que sua opinião tem força de verdade e vale mais do que qualquer outra; cultiva a certeza de possuir direitos ilimitados (direito a tudo) sem o correspondente dever de responsabilidade; é hostil a mediações institucionais visando impor suas pulsões e fervores aos outros; despreza a cultura; desconfia da ciência; faz do ressentimento sua identidade e metodologia de ação política, acarretando um rebaixamento do nível civilizacional, rejeitando toda forma de transcendência, dever, disciplina e autocrítica.
Em nosso livro “Religião em tempos de bolsofascismo” (Dialética, 2024), dialogamos com o conceito “homem-massa” de Ortega y Gasset, expressão de uma patologia cultural da modernidade, radicalizando tal diagnóstico quando inserimos a religião como campo decisivo da disputa política, ao defendermos a tese de que o bolsofascismo brasileiro não apenas instrumentaliza as massas, mas sacraliza o autoritarismo.
No Brasil contemporâneo, o “homem-massa” torna-se, por meio do bolsofascismo, o “fiel-massa”, moralmente mobilizado, biblicamente simplificado e politicamente agressivo, expressão de um colapso ético-teológico no qual a fé deixa de ser a crítica do poder (“Ai de vós, ricos!”) passando a ser sua liturgia, por meio de uma linguagem simbólica poderosa, produtora de afetos, organizadora de identidades e legitimadora da violência. A religião é usada como um dispositivo de subjetivação autoritária. O bolsofascismo não invade a religião de fora, mas emerge de dentro, por meio das lideranças religiosas com sua autoridade, seus rituais e suas doutrinações.
O eixo forte da tese apresentada em “Religião em tempos de bolsofascismo” reside na concepção do bolsfascismo não apenas como um equívoco político, mas como uma heresia ética e teológica, configurando-se não apenas como antidemocrático, mas como anticristão, expresso claramente na naturalização da violência como “vontade de Deus”; na ideia de “guerra espiritual” como legitimação da exclusão; no messianismo político, ao identificar no líder deste movimento um Enviado e Ungido de Deus; na teologia da prosperidade que legitima a produção e ampliação estrutural de desigualdades.
Ao mesmo tempo, o livro critica o silêncio cúmplice de igrejas e movimentos religiosos diante da barbárie em ação, por medo do conflito, encarnando uma neutralidade falsa, fundada em espiritualidades sem corpo e sem história, as quais optaram pela conciliação em vez da profecia.
Por fim, no livro se evidencia que o bolsofascismo não sobrevive apenas pela sua produção estrutural de fake news, propagação do ódio e uso de armas, mas de forma, não menos importante, porque encontrou altares, púlpitos, cânticos, ritos, padres e freiras, pastores e pastoras, e uma teologia que absolve a exclusão e a violência. Pois, quando a religião deixa de defender a vida concreta ao desmascarar os horrores do tempo presente, não é mais fé, passa a ser ideologia armada.
Respostas de 3
Texto não é pra qualquer um. Imaginem um neopentecostal lendo isso. Se é que eles sabem ler…
Muito esclarecedor faz uma crítica ás religiões que alimentam o ódio e a violência e, assim, ficam refém de uma falta ideologia de ser cristão sem Cristo.
Um rico texto