Velhice é praça onde o tempo se diverte, por HELIANA QUERINO

Parece que a “esperança de vida” pode ser um dos maiores indicadores para medir a qualidade de vida em um país. A longevidade é considerada, universalmente, algo muito desejável e, compõe um elemento para comparar países e épocas. Invariavelmente, as estatísticas mostram que nos países ricos, as pessoas vivem por mais tempo do que nos países pobres, e no Brasil quase chegamos aos 80 anos em Santa Catarina e 71, no Maranhão. No Afeganistão, essa média é de até 50 anos, na Suécia, 84.

É claro que em todos os lugares sabemos da existência de pessoas muito, muito “velhinhas”, alí com seus noventa e muitos anos – no sertão brasileiro, nas montanhas do Cáucaso, na Itália. O ambiente saudável do campo ajuda a viver por muitas décadas. Se a vida em média é mais duradoura nos países ricos, é devido às baixas taxas de mortalidade infantil ou perdas na adolescência, por falta de curas médicas, falta de higiene, criminalidade, etc. Assim, poderíamos acreditar que a riqueza produz vidas longas e seria uma razão suplementar a quem faz de tudo para enriquecer!

Pensando bem, essa verdade pode ser um pouco mais complicada?

A “riqueza” da qual tanto se fala é uma riqueza monetária, da renda média, não uma riqueza “humana”, das relações sociais, da harmonia com a natureza e o ambiente.

E do mesmo modo, esta expectativa de vida é puramente biológica, sem mensurar o seu conteúdo. Se uma pessoa vive em más condições, come mal (excesso de açúcar, sal, gorduras saturadas… veneno,  respira ar poluído), está sempre estressada e ansiosa, ou frequentemente doente, mas tem muito dinheiro ou vive num país onde a saúde pública é privilegiada, pode sobreviver por muito tempo “reparando” os males, cada vez que o corpo exigir.

Será esta longevidade, necessariamente, um índice de progresso?

Em 1940, a expectativa de vida no Brasil era de 45 anos, agora é de 76 anos.

Não sei se é certo atribuir somente aos milagres da ciência!

A longevidade é um dos argumentos mais citados para demonstrar os benefícios de tal progresso. E em meio a tantas desventuras nesse mundo,  pelo menos, a expectativa de vida não pára de crescer, em todos os países e todas as classes sociais. E isso não é o essencial?

Existe uma espera mundial para esse número aumentar ainda mais. Alguns cientistas até afirmam ser  possível, o homem viver, biologicamente, até 120 anos, e garantem, um dia chegaremos lá. Enquanto outros têm sonhos ainda mais ousados: os ditos, “transumanistas” – movimento iniciado na Califórnia – imagine só, ultrapassar todos os limites humanos e poder chegar à imortalidade, ou quase (Imortalismo, uma ideologia moral baseada na crença do que é possível e desejável, defende a investigação e o desenvolvimento, para assegurar a realização da extensão da vida radical e imortalidade tecnológica).

Sim, parece óbvio: desde sempre, o homem deseja viver o máximo possível, afastar de si, a morte, e até sonha com a imortalidade física.

É certo que o assunto é um pouco estranho, mas uma coisa não falta, mitos e ficções literárias a questionar como poderia ser a imortalidade – se não for combinada com a juventude eterna. O mito grego de Titono, por quem a deusa Eos (Aurora) se apaixonou, e o amava de tal modo que pediu a Zeus para lhe “conceder a imortalidade”, porém, a deusa esqueceu de pedir que fosse uma imortalidade combinada com a juventude eterna.

E Titono envelheceu sem nunca morrer!

É quase isso, parece que depois se transformou numa cigarra, mas por enquanto vou deixar a encantada quietinha.

Séculos depois, o “genial satírico” inglês, Jonathan Swift (1667-1745) constatou: “todos querem viver para sempre, mas ninguém quer envelhecer”. Muitos conhecem as “Viagens de Gulliver”, no entanto, não se trata de um livro para entreter as crianças, mas de uma sátira negra da Inglaterra daquela época. No livro, Gulliver visita a Ilha dos Lilliput, como ainda, a  ilha de Luggnagg, onde um pequeno número de pessoas nasceram com o “dom” da imortalidade. Gulliver se deslumbra com os  “Struldbruggs”, e principalmente, devido a possibilidade deles acumularem conhecimentos e experiências para transmitirem aos simples mortais, sendo assim, os líderes naturais do país.

Mas para surpresa de Gulliver, ele descobre que nascer imortal é um grande infortúnio, e os Struldbruggs invejam os mortais.

Porque?

“O sistema de vida que eu imaginava, era irracional e injusto, porque sustentava a eternidade da juventude, da saúde e do vigor, que nenhuma pessoa poderia esperar com tanta ingenuidade, por mais extravagantes que fossem os seus desejos. E que a questão, portanto, não seria se um homem desejaria permanecer sempre no vigor da sua juventude, acompanhado pela prosperidade e pela saúde, mas como ele passaria uma vida eterna com as desvantagens que a velhice traz consigo.” […].

Um pedacinho suficiente para ilustrar a temática clássica, onde não somente a longevidade importa, mas a juventude e fortaleza! E tem mais: não é somente a quantidade de vida que conta, mas também a qualidade desta.

O fetichismo da “esperança de vida” – que mostra semelhanças com o fetichismo do “crescimento econômico”, verdadeira religião do nosso tempo – oculta totalmente a questão – que coisas podemos esperar na vida – .

A vida é bela somente porque é longa?

Se é chata, solitária, pobre, repetitiva ou atormentada, porque seria tão desejável que durasse muito, e sempre mais?

Viver por mais tempo não significa viver duas vezes os vinte e trinta. Significa chegar aos 93, ao invés de 88. Claro, tem pessoas capazes de aproveitar bem deste suplemento de vida, porque estão ainda em boas condições físicas e mentais. Desejo de todos, sorte de alguns.

A questão essencial é saber o que fazer com a própria vida. Contar todos os dias da vida biológica, ou somente os dias nos quais aconteceu algo particular, relevante, algo para lembrar e contar, a conclusão seria: existem pessoas que em trinta viveram mais que outras, em noventa anos!Agora veja os poetas do Sertão, eles cantam a velhice sem botox. Se por um lado tem essa história de transumanismo e cyborg,  loucuras e utopia (ou não) do capitalismo, nos versos dos poetas “nosso corpo é a praça onde o tempo se diverte” e o trem dos anos amassa cada célula. E se vier um dia existir a imortalidade, essa quimera, que ela venha com bastante força nas canelas, mas se a imortalidade for resultado da engenharia é preciso nos defender do inimigo, para subir a ladeira do tempo, como humano, somente com vigor em braços e pernas e “se o portão da idade não se abrir, estouramos os mourões dessa cancela”.

Heliana Querino

Heliana Querino

Heliana Querino - canivete suíço, jornalista, pesquisadora, educomunicadora, coordenadora de Cultura e colunista no SegundaOpinião.jor

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