Valorizar o que é seu

“Quando nossos olhos ficam embaçados, nada como os olhos dos outros para voltar a valorizar o que é nosso.” A frase é de Martha Medeiros e, se não me engano, está em “Montanha Russa”, um dos seus adoráveis livros de crônicas.

Você babava toda vez que passava em frente à revendedora de automóveis e via, à distância, aquele carro “irado”. Um dia, a custo, conseguiu adquiri-lo e se sentiu a pessoa mais feliz do mundo. Com o passar do tempo, a novidade foi perdendo a graça e, se pudesse, trocaria pelo modelo do Roberto, muito mais bonito, mais econômico e com maior valor de revenda. Com a roupa nova, o sofá da sala, com o fogão, a geladeira, que foi um amor à primeira vista, cedo ou tarde vai ser assim. O brinco de ouro, o anel de esmeralda, a pulseira de prata… O que um dia foi seu sonho de consumo, depois de conquistado, vai aos poucos perdendo o encanto. E você passa a achar desinteressante aquilo fez brilhar seus olhos, que o deixava de boca aberta, morrendo de vontade…

Na paixão é assim. A primeira vez que você a viu ficou deslumbrado. No dia em que reparou bem, ele lhe pareceu o homem dos sonhos. Ela tinha um jeito irresistível de recompor o cabelo. Ele usava um perfume que a deixou maluca. Ela era culta, e, além de bela, tinha ‘sex appeal’. Ele era elegante e bem-humorado, roubava a cena no happy hour. Ela era inteligente. Ele falava de um jeito desumanamente sedutor. E assim, sob a magia do enamoramento, um dia o destino fez com que ele ou ela cruzasse seu caminho. Namoraram, ficaram apaixonados, casaram-se.

E o tempo foi passando. Com a convivência, o que era deslumbrante foi se tornando apenas interessante. Ele, que lhe pareceu o homem dos sonhos, foi dando a ver seus defeitos. O charme com que ela recompunha o cabelo foi ficando uma mania irritante. A cultura e a beleza dela, transformaram-se em coisas comuns, não a fazendo tão diferente de tantas outras que você conhece. Ele, que roubava a cena no happy hour, foi se tornando um chato. Ela, cuja inteligência lhe causou tanta admiração, agora lhe aborrece com suas reflexões rebuscadas. A sedução dele fez desmoronar sua confiança, e o ciúme tornou a sua vida insuportável.

É que os olhos, com o tempo, vão deixando de ver que, além do detalhe que o deslumbrou, ela tinha outras qualidades. Vão deixando de ver que, além dos defeitos que só agora você percebeu, ele é um cara generoso, companheiro, sensível. Vão deixando de ver que, se a forma como ela recompõe o cabelo agora o incomoda, o sorriso é sincero, o carinho gostoso… Que, muito mais que a cultura e a beleza, ela possui uma virtude sem preço: é família, recebe amorosamente seus filhos, que não nasceram dela. Vão deixando de ver que, o que hoje lhe parece uma chatice, é espontaneidade, é a alegria de viver com simplicidade. Que ela, apesar da conversa séria, que lhe desagrada hoje, está sempre ao seu lado, haja o que houver, faça chuva ou sol. Vão deixando de ver que a sedução dele é uma característica natural, nunca uma arma de traição.

E você, sem que perceba, não a valoriza mais, não a admira como à época em que a conheceu. E, se é bonita, a namorada do Paulo lhe parece muito mais. Se ele é atraente, falta-lhe o ‘approach’ do marido da Carla. Se ela tem, com efeito, um certo charme, faltam-lhe as pernas da Ana. Se é culta, falta-lhe a sensualidade da mulher do João. Se ele é bem-humorado, não gosta de viajar como o marido da Juliana. Se ela se veste bem, não tem o corpo da Jô, o apelo sexual da Tatiana. Se ele tem o poder de seduzir que a fez chegar às nuvens de desejo, o Marcelo está sarado, tem barriguinha de ator de novela de TV e canta divinamente bem.

A grama do vizinho…

E, no entanto, se você soubesse o que comentam dela seus melhores amigos; se soubesse como as amigas a invejam pelo marido que tem. Se soubesse como admiram o bom humor com que ele vai tocando a vida; se soubesse… se soubesse…

Ah leitor, leitora. Se seus olhos estão começando a embaçar, que tal ver um pouco com os olhos dos outros para valorizar mais o que é seu?

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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1 comentário

  1. Braz

    Incrível como a urdidura do texto vai mexendo com sentimentos do leitor. A antítese entre o material e o sentimental , quando se comparam elementos da conquista inicial e o cair-se numa rotina que empana o que uniu os protagonistas, faz-nos refletir sobre o que é mais valioso numa convivência. A grama, numa alusão de volúpia, ficou lá, num convite à tesão do leitor. Perfeito arremate: vamos olhar no olhar dos outros o que nosso olhar insiste no ficar cego.