UM NOVO SENTIDO DE VIDA

No artigo passado tivemos a oportunidade de acenar para algumas ideias centrais desenvolvidas pelo pensador brasileiro Florestan Fernandes, em seu clássico da sociologia brasileira “A integração do negro na sociedade de classes” (https://segundaopiniao.jor.br/as-perguntas-do-professor-florestan/), acerca do processo estrutural de marginalização social, política e econômica da população negra quando da mudança do sistema escravista do antigo império para o sistema capitalista republicano. Pensamos aqui de destacar brevemente ainda algumas outras considerações em relação ao tema.

Primeiramente a sua condição existencial compartilhada com a vida real da população negra de São Paulo. Vejamos o que diz Florestan: “Os negros eram companheiros de privações e misérias. Vivi em cortiços, em vários bairros de São Paulo, e sabia muita coisa sobre as condições reais da vida dos negros entre nós. Assim, eu podia manejar a minha produção científica a partir da perspectiva do oprimido”. De fato, em seu projeto de estudo “Raça e Sociedade: o Preconceito Racial em São Paulo”, Fernandes tratou de ressaltar as ambiguidades e inconsistências que deveriam ser evitadas em uma investigação comprometida com o próprio negro. (in O significado do protesto do negro, Cortez/Autores Associados, 1989).

Portanto, um entre os muitos méritos do trabalho inovador de Florestan em sua investigação sociológica foi o de abordar modalidades do preconceito e da discriminação racial que ainda não haviam sido considerados, sistematicamente, por aqueles sociólogos que defendiam uma visão idealizada de uma suposta harmoniosa democracia racial no Brasil, na qual o preconceito não aparece de forma aberta, mas encoberto, “um preconceito que nem sempre ousa dizer seu nome”. Por exemplo, em comportamentos marcados pela ausência de um sistema de reciprocidades nas relações entre brancos e negros (o negro poderia até ser tratado afetuosamente” em âmbito privado residencial, mas com a chegada de um visitante na casa do branco, logo se evidenciava a tradicional relação entre o patrão e o empregado diante de um terceiro).

Diferentemente do seu estudo sobre o Tupinambá, Florestan desenvolveu com um apurado vigor a pesquisa sobre o negro concreto daquele tempo presente, espoliado e objeto de preconceito histórico, participando da mesma dinâmica social do branco na emergente sociedade de classes. Para tanto, Fernandes teve de elaborar metodologias extremamente participantes em Sociologia. Como consequência do seu método, manteve várias reuniões com líderes e militantes negros; com isso estava simultaneamente desenvolvendo processos de consciência política e organização junto aos negros. E ainda mais: a partir da compreensão da opressão a que eram submetidos, Florestan estava amadurecendo uma maneira de o intelectual intervir na sociedade que gerava tais problemas. (Antônio Cândido, “Amizade com Florestan”, in O saber militante: ensaios sobre Florestan Fernandes. D’Incao, Maria Angela (Org.). Paz e Terra/Unesp, 1987).

Por fim, deixemos que o próprio Florestan fale: “A pesquisa das relações sociais foi algo tão fascinante porque, apesar de tudo que se sabe sobre a vida das pessoas pobres no Brasil e da identificação que o intelectual pode ter com a vida dessas populações, eu me senti tão compensado com o fato de estar fazendo aquela pesquisa, que aquilo tudo deu um novo sentido à sociologia para mim, dando sentido ao meu trabalho e ao que eu pretendia fazer com a pesquisa sociológica. Senti-me como ser humano em comunhão com outros seres humanos. Nenhum outro trabalho meu me permitiu essa comunicação em profundidade”. (Soares, Eliane V. “Florestan Fernandes: o militante solitário”. Cortez, 1997).

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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