Um menino, um cachorro e um mentiroso entraram num teatro… – Sérgio Costa

 

Nunca fui muito de teatro. Não por falta de interesse ou gosto, mas pela simples falta do bom hábito em acompanhar boas peças desde cedo. Porém, me considero alguém são (sim, pois são tempos de estranhas rotulações políticas a quem gosta de entretenimentos assim) e educado o suficiente para reconhecer e valorizar essa que é, desde que o mundo viu o sol nascer, uma das mais honestas, corajosas, puras e surpreendentes formas de arte.

Creio que minha lembrança mais primaveril de alguma relação com as artes cênicas seja de um dia em específico nos meus tempos de escola, ali pelos 7 ou 8 anos de idade. Em uma rara ocasião de atividades para além da muralha do colégio, fomos assistir a uma peça infantil na joia de Fortaleza: o Theatro José de Alencar. Partimos do Colégio Integral na Av. Santos Dumont – onde estudei praticamente até o final da adolescência – para um gostoso passeio. Tão temático que, logo no início, nos fez vivenciar na pele a clássica divisão desta arte: a verdadeira Comédia que era encarar o ônibus todo quebrado do colégio. Sim, nunca me esqueço dele e tenho certeza de que havia sido terrivelmente retirado ou de algum filme do Mad Max ou de algum ferro velho na Av. Sargento Hermínio. Quem sentasse numa cadeira sem estofado ou ralasse o cotovelo na moldura das janelas, era tétano certeza! Ainda bem que chegamos inteiros ao destino, comemorando o fato da precária manutenção e condições do veículo não terem transformado o momento numa indesejada Tragédia da qual ninguém gostaria de pagar a entrada pra assistir.

O passeio pelo Centro da cidade já era demasiado familiar. Minha mãe costumava me levar aos sábados de manhã para comprar seus tecidos, artigos do lar, encomendar algum serviço e também para minha parte favorita do passeio à época: comer pastel com caldo de cana na famosa Leão do Sul. Assim, do bairro mais icônico da cidade, já conhecia bem o cheiro gostoso de salgado frito temperado com fumaça de ônibus. Já era treinado feito um ninja para desviar do tanto de gente cruzando nosso caminho às pressas por todos os lados. Conhecia bastante os caminhos lindamente tortuosos pelos prédios históricos e seus escritórios com serviços de um tudo que você possa imaginar. Mas tudo isso visto pela perspectiva de um pequeno (e gordinho) menino agora tinha um outro sabor: um pouquinho a mais de empolgação por estar indo sem a mãe e só com os coleguinhas da escola. Nossa, que aventura! Curtir aquela liberdade provisória presente no simples ato de sair da rotina dos professores era o máximo. “Sair desta cidade ter a vida onde ela é”, como canta o querido Milton Nascimento no Clube da Esquina.

Chegando lá, os gritos da tia da escola pra turma parar com a zuada e a baderna só foram interrompidos pelo eco harmônico do burburinho de todos ao entrar. Era a minha primeira vez dentro do Theatro José de Alencar. Meu espanto com a suntuosidade em seu interior me transportou para um mundo onde aquilo tudo inspirava uma certa paz e imensidão. O cheiro macio pesava no ambiente, dando uma sensação gostosa de casa de vó. Para uma criança que mal sabia o que era pintura ou música, situar-se naquela estrutura trazia nada menos que vários “uau” à ponta da língua. Viro meu pescoço pra todo lado, pra cima e para baixo e arregalo os olhos, porque praticamente tudo impressionava: a madeira dos corrimões, os camarotes (puxa, as cadeiras de palhinha!), as colunas, o palco imenso com suas cortinas aveludadas e o piso de madeira nele. Todo o capricho em cada metro quadrado daquela construção era digno de palmas, mesmo sem nenhum espetáculo rolando. E olha que nem passava pela minha cabeça saber o que era Art Nouveau, neoclássico ou qualquer escola arquitetônica que classificasse a fachada ou interior do prédio. Mas só as pinturas no teto bem alto, os vitrais e a estrutura arrojada de ferro já se bastavam e cabiam no encanto dos meus olhos espantados. Por isso, já não precisavam de rótulos, classificações ou estilos – era belo e ponto final.

No fim das contas, esse primeiro contato foi tão mais intenso em termos de aproveitar o espaço e a experiência da viagem do que pela peça em si. O espetáculo que tínhamos de assistir era bem chimfrim: se chamava “O Barbeirinho”, e basicamente servia pra educar as crianças sobre as leis de trânsito. Os atores vestiam fantasias bem mambembes que mais pareciam a Turma da Mônica depois de um surto de virose com calazar. A peça era chata, parecia durar uma eternidade. Enfim… Nada de novo no front para quem já sabia pegar ônibus e atravessar a rua feito um hominho de 8 anos (ora ora, temos um crítico precoce de teatro aqui!). Mas o encanto inicial pelo TJA valeu cada momento.

Dando alguns passos à frente – ou melhor, um pequeno salto de mais ou menos uns 15 anos, me vejo agora jogado numa inesperada relação bastante direta com o teatro. Na época (meados de 2007), fazia parte do coral de uma escola de música na cidade até que, numa certa noite de ensaio, nosso regente comunicou que ia montar um espetáculo. Eu, que nunca atuei nem fazendo o clássico papel de árvore em peça de escola, agora me via com o desafio de atuar – pela primeiríssima vez – numa versão muito bonita do clássico musical “Os Saltimbancos” de Chico Buarque. E adivinha o bônus? Sobrou pra mim o papel do icônico Cachorro.

Nunca tive nenhuma noção – por mais básica que fosse – de qualquer coisa que envolvesse atuar. Sempre fui péssimo em mentir, ou “me passar” (na boa gíria cearense), nunca soube contar piada direito… E agora, José? Se virar nos 30 e em alguns poucos meses pra decorar fala, aprender o básico sobre posicionamento e atuação no palco, e ainda cantar ao vivo: pois bem, desafio aceito. Os ensaios se seguiram e até comecei a gostar da brincadeira. Minha timidez ia se desvanecendo e comecei a gostar dessa onda de tentar atuar.

Até que chegou o dia do espetáculo. Maquiagem, figurino, gente correndo pelo backstage e entramos em cena. Tudo correu melhor do que esperava! Cantar e atuar era difícil e desafiador, apesar de termos o coral todo atrás de nós reforçando o volume e as melodias. Na segunda noite foi que nos deram microfones de lapela para não forçarmos tanto a voz. Mas no final das contas, foi muito gratificante e surpreendente atuar no teatro de um colégio, para uma plateia de crianças encantadas com aquilo. Dei até autógrafo pra elas e tirei foto ao final da peça. Na falta de tempo e talento prévio, usei do artifício de minha gaiatice e a extrapolei, mandando ver em improvisos de cena e interjeições numa ótima química com os outros bichos – a preguiçosa Gata, a esperta Galinha e o esforçado Jumento – arrancando risadas (creio que sinceras…) de todos naquela ocasião. Bem, talvez sejam mesmo algumas dessas habilidades que constroem um bom ator, não é mesmo?

Mais dois passinhos de uns 12 anos pra frente e agora estamos em junho de 2019. Minha esposa me avisa de uma peça teatral que vai acontecer no final do mês estrelada pelo adorável ator global Marcos Caruso. O espetáculo, intitulado “O Escândalo Philippe Dussaert”, veio a Fortaleza para o Teatro Celina Queiroz e marcou a carreira de Caruso por sair arrebatando todo tipo de premiações nacionais tamanha é a qualidade e criatividade – uma adaptação do texto original do dramaturgo francês Jacques Mougenot. Abordando uma divertida reflexão sobre a legitimidade da arte contemporânea, a peça é apresentada quase como uma palestra onde Marcos mergulha a plateia numa narrativa histórica envolvente a respeito do mistério por trás do escândalo de uma certa obra de Philippe Dussaert, artista francês que era conhecido não por sua originalidade, mas por produzir releituras um tanto curiosas de famosos quadros de pintores como Rembrandt, Renoir e até mesmo do próprio Da Vinci.

A peça marcou também a mim, pois foi a primeira vez que assisti a um monólogo. Dentre outras coisas, a quebra da tal quarta parede (sim, ele interage de forma muito divertida com a plateia) quebrou também algumas impressões minhas quanto ao significado pejorativo que damos no cotidiano à própria palavra “monólogo”: algo chato, tedioso, solitário, arrastado. Que nada. Agora tenho mais certeza de que o sujeito precisa ter muito, muito talento e o dom da palavra para realmente se garantir num tipo de peça assim. E é o que Caruso faz com maestria: capta a atenção, envolve, faz rir, pensar e até nos engana (sem spoiler, por favor!) de forma irresistível. Como não admirar alguém que faz isso tão bem nos tempos de hoje, justamente quando não retiramos nossa atenção das pequenas telas luminosas que carregamos pra cima e pra baixo 24 horas por dia?

Ao final da peça e depois de inúmeras risadas, dei aquele beijo na minha esposa e agradeci pela ideia de ir curtir aquela 1 hora e 40 minutos de pura diversão e reflexão. Dei também aquele abraço no Marcos Caruso – diga-se de passagem, um doce de pessoa, que nos recebeu com muito carinho para uma foto. Depois de um abraço e elogios, ainda tive tempo de resgatar minha gaiatice: sobrou pra ele ouvir de minha parte um simpático “você é meu mentiroso favorito” (spoiler de novo não!).

É doloroso ver que o momento no Brasil é triste ao lidar com a arte na sociedade. Aliás, já faz algum tempo que nosso país vive valores bastante trocados. Ao invés de buscarmos união (e as artes estão aí pra isso), parecemos uma grande Torre de Babel onde ideologias, conceitos, preconceitos, rótulos e ideias simplesmente não se cruzam, não se entendem, tampouco se complementam. É por isso que a gente tem que se permitir ir ao teatro sempre que possível, com o coração e com todos os sentidos abertos. Posso garantir que um pouquinho de nós fica ali, e outro bocado se transmuta, se redescobre. A palavra, o canto, os gestos poderosos do ator direcionados com o mais próximo quê de verdade são fortes, emocionam, tocam e fazem pensar um pouco além do nosso mundinho particular do dia a dia.

Yanni, o famoso pianista grego (de quem também sou muito fã) disse uma vez: “Vista de cima, a Terra não tem aquelas linhas que vemos nos mapas.” A arte – seja ela a música ou o próprio teatro – nasceu para nos aproximar, não nos esqueçamos disso. É esse tocar subjetivo de ponta de dedos entre artista e plateia que traz à tona o que a gente tem de mais forte: nossas semelhanças e conexões com as maiores riquezas da alma que habitam em nós mesmos.

Sérgio Costa

Sérgio Costa

Bacharel em Ciências Sociais pela UFC e em Comunicação Social (Publicidade e Propaganda) pela Fanor/DeVry. Publicitário por profissão, guitarrista por atrevimento. Apaixonado incurável por música, literatura, boas cervejas e grandes ideias. Escreve quinzenalmente sobre música para a coluna Notas Promissoras do portal Segunda Opinião. Contato: [email protected]

Mais do autor - Facebook

1 comentário

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.