UM MARRECO DEPENADO, por Alexandre Aragão de Albuquerque

“Não se faz justiça cometendo crimes. A forma de combater a corrupção é dentro da Lei, respeitando as regras constitucionais, consolidando o pacto civilizatório. E se há alguém que causou toda esta confusão jurídica no Brasil, não fomos nós, foi Sérgio Moro com sua força-tarefa denominada Lava-jato. No Brasil, juiz não pode ter força-tarefa, uma vez que ele é órgão de controle, não é sócio de uma investigação, nem líder de uma organização justiceira”.

Estas afirmações acima não vêm nem de Glenn Greenwald, tampouco dos políticos da oposição. Mas do ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes em entrevista concedida à Rede Golpista de Televisão, na noite do dia 26 de junho passado. Diante de uma equipe de jornalistas muito bem preparados para emparedá-lo, Mendes deslizou no tapete de vermelho global destruindo todas as armadilhas atiradas contra si, apresentando os fatos que circundam a obscura atuação de Sérgio e sua força-tarefa.

Gilmar destaca a anormalidade da condução do processo contra Lula pelo então juiz de Curitiba, no qual ele presta consultoria continuada aos assim chamados procuradores, indicando testemunhas, cobrando resultados, assegurando a certeza de resultados dos julgamentos, não obstante a ausência de provas substanciais de acusação. “Nenhum advogado consulta um juiz para saber se ele vai deferir ou não um processo. Quantas vezes o advogado de defesa Cristiano Zanin trocou mensagens pelo Telegram com Moro pedindo ajuda, conselhos, indicações e cobrando resultados?”. Um juiz assessorar o ministério público é algo absolutamente ANORMAL. Isto não existe.

O ministro do STF segue além em sua análise, recordando que nos últimos anos houve no Brasil aquilo que ele chamou de “naturalização do absurdo”, sendo o País submetido ao Signo do Vazamento Institucionalizado. Recorda que o ministro Teori Zavascki reclamava disto o tempo todo: mal chegava um documento em suas mãos, este já houvera sido vazado e publicado pela Rede Golpista de Televisão. Mas o vazamento de documentos oficiais é CRIME. O agente público que promove um vazamento é um criminoso. Não se pode admitir que funcionários públicos, sejam eles juízes ou procuradores federais, cometam esses crimes sistematicamente, promovendo antecipadamente o linchamento público de biografias e até mesmo de vidas, como foi o caso de Luiz Carlos Cancelier, reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, para quem a Universidade era a sua própria vida, submetido a humilhações públicas, acusado levianamente por desvio de verba, submetido a conduções coercitivas, sem nada tendo a ver com aquele caso. O resultado foi o seu suicídio. Quem será responsabilizado por esta morte?

Gilmar Mendes destaca ainda duas questões importantes. Primeiro, conversando com o deputado Kim Kataguiri, ele comenta com o deputado o fato inusitado de Moro haver pedido desculpas ao MBL por um fato que não aconteceu, segundo o juiz da força-tarefa. Além disso, Gilmar cobra uma posição definida desses suspeitos de Curitiba: fizeram ou não fizeram aquelas conversações? Isto aconteceu ou não aconteceu? Porque até agora nenhum deles desmentiu as revelações do Intercept, da Folha, da Veja. Ficam tentando desqualificá-las, mas não dizem que não ocorreram.

Combate à corrupção fora da Lei é selvageria. É crime. E foi isso que o deputado Glauber Braga argumentou no interrogatório a que  Câmara Federal submeteu Moro no dia de ontem, 02 de julho: “um juiz que aconselha, que indica, que garante resultado, que persegue, não está sendo honesto”. Segundo o deputado, é um juiz que rouba de uma das partes o direito à Justiça. É um ladrão.

 

 

 

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

Mais do autor

2 comentários

    • Avatar

      ALEXANDRE ARAGÃO DE ALBUQUERQUE

      Obrigado. Importante é despertarmos a solidariedade nos ambientes onde estamos. Desta forma derrubaremos o Golpe!

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.