STRATOVARIUS: sobrevivendo com energia e inovação (resenha do álbum “Survive” – 2022)

Conhecidos por escreverem canções inspiradas em elementos motivadores, com adjetivos, superlativos e todo tipo de letra puxada mais para o estereótipo “épico” de sua própria estética power metal, o Stratovarius tem dado uma guinada bastante benéfica em seu som nos últimos anos.

Neste novo trabalho, os veteranos finlandeses vêm com uma proposta muito interessante e mais fora da curva do que costumam ser no que diz respeito às suas letras. Abraçam, convenientemente aos nossos tempos tão turbulentos, a chance de cantar um sentimento tão presente no tecido da nossa sociedade atual: a sensação de estar quebrado, perdido… ou apenas sobrevivendo.

Mas se engana quem achar que, apenas por isso, a banda se virou para uma atmosfera mais soturna em suas harmonias. O que vemos em “Survive”, 16º trabalho de estúdio e o primeiro após 7 anos sem lançamentos inéditos, é a mesma energia de trabalhos mais recentes em termos de qualidade na composição, seja nos instrumentos ou mesmo no vocal “imorrível” de Timo Kotipelto. Toda essa evolução e qualidade têm se dado bastante pelo toque do atual guitarrista, Matias Kupiainen, que é também produtor nas gravações da banda. Na verdade, mais do que nunca eu me dou conta de que a chegada desse cara ao posto das seis-cordas do Strato foi um grande – e nítido – divisor de águas nessa trajetória, dando esse direcionamento mais aberto ao prog metal e até a outros estilos, tornando o som do grupo (arrisco dizer) até mais “dançável”(!).

"Survive", 17º álbum de estúdio do Stratovarius, lançado em 21 de setembro de 2022.

“Survive”, 17º álbum de estúdio do Stratovarius, lançado em 21 de setembro de 2022.

O que vemos na parte lírica de “Survive” é toda essa questão atualíssima do sentimento de divisão em nossa sociedade, abraçando também todo o confuso mix de sentimentos por conta da pandemia da covid-19 e também uma reflexão que pode ser muito válida a respeito de tantos movimentos políticos que se engalfinham América Latina e mundo afora em termos de direita vs. esquerda. Não que seja um motivo pra achar bonito ou sofrer junto com as letras, mas parte do processo de se reconstruir passa necessariamente pela fase de assumir o lado frágil, desesperançoso de cada um frente a tempos tão difíceis para, assim, ressignificar nossa dor. “Para tocar a Luz, é preciso conhecer a Escuridão”, diz um personagem no início da série “O Senhor dos Anéis – Os Anéis De Poder”, sucesso recente no streaming da Amazon.

Um detalhe: rato que sou de álbuns físicos e escavador de mensagens ocultas em capas bem elaboradas, não pude deixar de reparar em um “segredinho” na capa deste trabalho:  logo ao lado esquerdo da imagem da caveira há um CD quebrado com o antigo símbolo da banda. Este disco é exatamente o álbum “Stratovarius” de 2005 que faz parte de um período muito conturbado na banda. Apesar de ter chegado ao nº 4 na parada da Finlândia e ao top 100 em mais 6 outros países na época, este trabalho ficou marcado pelos “surtos” do ex-guitarrista e membro fundador Timo Tolkki que culminaram em sua saída da banda para tratar de problemas com álcool e depressão. Foi nessa época que o grupo quase acabou, e muito provavelmente essa citação na capa seja uma mensagem para simbolizar que eles sobreviveram a isso também, apesar de tudo.

Então, vamos à obra: “Survive” traz 11 faixas inspiradíssimas, mostrando a banda em excelente forma em todos os seus núcleos. O trabalho abre com a faixa-título, rápida e “cantável” na medida, que deve funcionar muito bem ao vivo. “Demand” vem na sequência com um riff bem Helloween/Gamma Ray, dando uma pegada do power metal tradicional a essa faixa.

A terceira canção se chama “Broken”. Esta é, sem dúvida, uma das coisas mais incrivelmente poderosas que o Strato já compôs. Harmonia empolgante e tensa ao mesmo tempo (com uma baita orquestração de fundo), solos inspiradíssimos de guitarra e teclado e um baixo contundente. A letra é belíssima e tão inspirada quanto a própria canção, e a banda ainda nos presenteia com um videoclipe que sem dúvida é o melhor e mais cinematográfico de toda sua carreira, contando uma história forte de sobrevivência num futuro destruído. Inclusive o vídeo foi caprichosamente produzido pela Asociación Maipú Cine e pelo diretor Mariano Biasin, nomes grandes na indústria do cinema argentino (do qual sou bastante fã e logo me identifiquei).

“Neither beast nor divine
That’s who we are
And that’s why we’re broken
End of the line
We are the past
We are not the chosen”

 

Timbres de teclado e ritmos mais puxados pro dance/eletrônico, lembrando algo que a banda Amaranthe já faz há alguns anos (misturando metal com dance/trance) chegam sem vergonha e de forma muito positiva na faixa “Firefly”. Essa também ganhou um clipe bem cinematográfico – não tão bom quanto o de “Broken” mas que também tem uma proposta legal de comunicar a essência do sentimento desse disco. A canção é tão chiclete que gruda mesmo, pois o refrão é repetido umas 8 vezes. Bem, se era pra grudar, funcionou!

“We Are Not Alone” é, digamos, a mais “alegrinha”. Diria que pode ser a que mais passa batido na audição, visto a outras tantas melhores, sendo uma faixa bastante “OK” lembrando as mais pop/TV União do Stratovarius como “Eagleheart”. A sexta faixa é “Frozen In Time”, último single a ser lançado antes do álbum completo. É a segunda mais longa do disco, e um verdadeiro épico: é a única faixa inspirada em eventos históricos, pois conta sobre a famosa erupção vulcânica do Monte Vesúvio que enterrou a cidade de Pompeia no ano de 79 d.C. Audição muito empolgante e certamente outro ponto alto do disco.

 

“World On Fire” é um metal mais um tradicional e nada fora do comum, estando também mais pra uma canção a ser utilizada como single para divulgação. Já em seguinda, “Glory Days” é fantástica! Empolgante, rápida e com um refrão majestoso. Parece um dos hinos do Helloween e seu riff inicial nos joga lá para álbuns clássicos do Strato como “Episode” e “Fourth Dimension”. Aliás, as canções da metade final do álbum parecem mostrar um lado B bastante puxado para o épico, com músicas grandiosas: a décima faixa, “Before The Fall” é muito, mas muito poderosa! Típica trilha tão forte que caberia muito bem em alguma cena de batalha de grandes exércitos em algum filme de fantasia.

Pra encerrar, “Voice of Thunder” é, na minha humilde opinião, uma das peças épicas mais legais que o Strato já compôs. São 11 minutos de um clima muito massa, com mudanças de harmonia, riffs e timbres de teclado que remete bastante a clássicos como “Twilight Symphony”, lá da década de 1990.

O álbum se encerra de maneira grandiosa, assim como é a trajetória da própria banda. Uma obra assim mostra o quanto eles conseguiram tanto trazer um frescor necessário e uma mensagem forte em suas novas letras quanto manter os elementos que os fazem sobreviver e envelhecer muito bem num gênero tão saturado e estereotipado quanto o power metal. “Survive” é, portanto, um excelente e válido capítulo na música desta banda que é tão especial pra tanta gente.

Te vejo no próximo play!

Serviço

“Survive”

Stratovarius

Gravadora: JVCKenwood Victor Entertainment

Data de lançamento: 21/09/2022

 

Faixas:

1. Survive

2. Demand

3. Broken

4. Firefly

5. We Are Not Alone

6. Frozen In Time

7. World On Fire

8. Glory Days

9. Breakaway

10. Before The Fall

11. Voice Of Thunder


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Sérgio Costa

Bacharel em Ciências Sociais pela UFC e em Comunicação Social (Publicidade e Propaganda) pela Fanor/DeVry. Publicitário por profissão, empresário por coragem e guitarrista por atrevimento. Apaixonado incurável por música, literatura, boas cervejas, boas conversas, viagens inesquecíveis e grandes ideias. Escreve quinzenalmente sobre música para a coluna Notas Promissoras do portal Segunda Opinião.

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