SOB A CENA – Jair Cozta

 

Minha pretensão ao acordar era, basicamente, esta: um dia de trabalho comum. Quando estou próximo das pessoas, independente do contexto coexistencial, é bastante claro o meu desejo: evitar me intrometer nos assuntos alheios. Faço isso exatamente pela minha percepção aguçada e minha multifuncionalidade inata possivelmente explicadas pela presença predominante (e não tão positiva) do signo de sagitário em minha vida – o fogo que talvez tenha me feito artista. Que bom! Nunca gostei de sair ileso de nada e a arte, como o amor, é uma arma quente.

Já transitei por muitos teatros, por muitos grupos de teatro, por muitos fazeres teatrais, por muitos textos e autores de teatro. Uma das últimas e grandes descobertas, por assim dizer, foi a vida – um grande teatro cujo palco parece se expandir à medida que passeamos por ele; um urdimento gigantesco, repleto de lugares escuros, sujos, oleosos, silenciosos; coxias labirínticas, quase infinitas, repletas de outros atores esperando nossa chegada ou simplesmente cruzando nosso caminho para entrarem em cena. A vida se assemelha a um palco sólido, de madeira maciça, com fosso profundo e com quarteladas de toda natureza – umas firmes e inquebráveis graças à espessura, outras frágeis pela ação do tempo ou do cupim que se instala em úmidos períodos chuvosos.

As tais quarteladas são o principal sustentáculo de um palco. Sem elas as tábuas do palco desalinham-se, entortam, cedem, afundam ou desabam. Se o palco é a estrutura que sustenta e evidencia uma atriz ou um ator em cena (considere estes sendo nós), as quarteladas são os pilares escondidos que firmam nosso chão invisível, a vida emocionalmente frágil. Sim, é frágil. A vida é frágil. A vida seria o tal espetáculo que, diferente de um filme ou de um quadro ou de um texto, nunca é apresentado da mesma forma novamente. O teatro é, talvez, uma das mais verossímeis expressões da arte pela fragilidade, pela mutabilidade, pelo instante que dura o tempo do átimo da ação. Resumindo: se monto a peça O Verdugo, de Hilda Hilst, e a enceno 130 vezes, em todas as 130 vezes nada será igual, apenas semelhante. O teatro é o aqui-agora, o it, o instante-já. E a vida é permeada de atores e atrizes em uma eterna encenação e numa constante busca por sentidos.

Quando entrei na experimentação teatral, pasmei-me com um estudo subjetivo muito profundo. Tão profundo que me assustei. Entrar dentro de si mesmo, investigar o próprio corpo e compreender as possibilidades de mudança e os limites de si é, sem dúvidas, aterrorizante. Afinal, qual indivíduo está poroso às transformações e à catarse da própria limitação? A mudança dói porque dilui, remolda, reformula, desconstrói e reconstrói o tangível e o intangível de nós mesmos. Ninguém é educado para isso. Ou se nasce e acidentalmente a vida lhe torna flexível física e emocionalmente ou se aprende isso às custas do envergamento forçado pela existência e suas forças execradas.

É provável ter eu sentido prazer com tal experiência graças ao meu potencial de pessoa masoquista estabelecido nos primórdios de minha infância – me adapto fácil à dor. Somos assim: na infância muito será definido; depois, passaremos o resto de nossas vidas sob o crivo de revisitar nosso eu infante para garantir dias de vida vindouros. Ou fazemos isso ou a ideia de nós mesmos morre, restando apenas a artificialidade do eu, um arquétipo desenhado por qualquer criatura em algum momento péssimo das civilizações. Passamos a vida por um fio e é até uma alegria crua afirmar esse ditado que parece vir do mito greco-romano das parcas do destino. Nossa vida é um fio e nós quase nada podemos fazer a não ser tentar tecê-lo; a medida do fio não é definida por nós mesmos, mas por uma ação maior que minha parca capacidade de codificar em palavras me impossibilita escrever ou dizer.

Penso que nascemos atuando, que nossa infância é cheia de cenas. O bebê, por exemplo, faz do pranto linguagem para chamar a atenção da mãe ou do pai, como forma de dizer. Vivemos atuando e não necessariamente fingimos ou mentimos. Não. Atuamos porque atuar é agir, é um movimento de ser e estar. Sem isso não existiríamos. Nós construímos um teatro ao nosso redor e nele nos expressamos tão naturalmente que criamos uma forma de representar este grandioso teatro que tem por nome viver. O teatro como espaço nada mais é do que a casa, o bairro, a cidade, o mundo, e os atores somos nós, nossa família, nossos amigos e amores. O resto é mimesis da vida e da coexistência.

Entendido o exposto e fugindo de meus prolixos mas não vazios devaneios capricornianos, volto ao meu dia comum de trabalho sem pretensão de ouvir ou adentrar demais o espectro alheio.
O dia era de aula sobre corpo. Olhei para a turma, sentei e dei início aos exercícios de consciência corporal. Era a primeira aula, mas a urgência do teatro faz da primeira aula a retomada de todo o repertório de cada um – tudo é um recomeço. Dali, a turma já sairia com a primeira proposta de construção de personagem: um corpo que fala em cena.

— Bem, gente… na próxima aula vocês precisam trazer um personagem delimitado com corpo, texto e, se acharem pertinente, figurino. Construam uma persona que seja oposta à personalidade de vocês, ou seja, alguém que vocês não seriam ou não gostariam de ser.

A turma se dispersou como um formigueiro ao ser pisado, com ideias fervilhantes. É preciso muita coragem para levar os estudos em teatro com seriedade. A arte precisa ser entendida como um trabalho árduo e não como um lazer alimentado pelo discurso de quem tem e quem não tem dom. Na arte, o dom é estar vivo – o resto é trabalho e estudos árduos.

Como um apreciador de pássaros, fui ouvindo as ideias sopradas ao vento: meninas mais pacatas sendo prostitutas e outras mais livres sendo evangélicas; meninos sendo assaltantes, outros estupradores, outros gays.
Na aula seguinte, chegaram todos para apresentar seus personagens. Alguns improvisaram. Foi o caso de um garoto, o Dan, que repentinamente se levanta do círculo e apresenta um personagem não revelado pela camiseta Polo e bermuda jeans:

— Meu nome é Sarah Shirley de Albuquerque Lombardi, mas pode me chamar de Danusa Dayse, uma das travestis mais famosas de Fortaleza. Atualmente trabalho lá na Zé Bastos, num ponto do lado do Hemoce. Tenho 20 anos e tô na rua desde os 11. Morava com minha avó, que me expulsou de casa quando descobriu que o namorado dela abusava de mim. Ela culpou a mim e ao demônio por isso.

Todos ficaram silenciosos por um minuto. Porém, em se tratando de assuntos que toquem em gênero e sexualidade, é sempre difícil para alguns indivíduos entenderem o discurso proferido. Muitos alunos gargalhavam com tamanha naturalidade que a mim incomodaram. Não tinha graça. A fala doía.

Dan era assumidamente gay. Chamou minha atenção um jovem gay, embora cis gênero, ter como personalidade oposta uma travesti que, por fatalidade, precisava se prostituir para sobreviver desde os 11 anos. Mas entendi algum tempo depois esse discurso. Às vezes demoramos para compreender a natureza de um texto e tudo o que atravessa tais enunciações, sejam verbais ou textuais.

Minha compreensão veio em forma de uma mulher de seus 27 anos, tempos depois deste curso que ministrei. Ao se reapresentar para mim e me dizer seu nome, lembrei imediatamente de onde a conhecia. Chamava-se Danusa. Passada surpresa que tive, dei-lhe um abraço como é comum a um professor que reencontra ex-alunos na universidade, anos depois. Naturalmente conversamos e lhe perguntei como estava sua vida, o que estava a fazer ali, na universidade…
Sorrindo, ela me disse que estava no primeiro semestre do curso de teatro e que estava bem, agora mais ainda. Segurei um choro alegre para não assustá-la. Temos medo de ser frágeis ante o outro – talvez por medo de reconhecer a fragilidade em nós mesmos. Apressada, ela comenta que a mãe estava indo encontrá-la. Abri um sorriso e me despedi.
Sozinho, no banco dos jardins da universidade, reconheci a fragilidade em mim mesmo.

Chorei em silêncio, inundado de uma alegria por aquela mulher, pelo que entendi ali e somente ali. Chorei contente por entender em Danusa uma exceção rara neste mundo. O ódio, cria do preconceito estúpido, é um câncer social que nos mata gradativamente – alguns estão morrendo como frangos em granja, no processo mais doloroso de abate animal. Chegamos no limite de nossa desumanidade. O altruísmo e o amor são palavras ocas. Criamos formas de esvaziar de sentidos nosso próprio léxico e, por consequência, nossas próprias almas.

Estamos em vaziez, líquidos, voláteis e incapazes. E nunca chegamos perto de deixar de ser isso. Jamais fomos melhores que agora, infelizmente, mas ainda choramos de alegria por pequenos relâmpagos de vida e equidade, essas utopias. Ainda ganhamos pequenas batalhas, tão pequenas, mas proporcionalmente tão importantes, que só assim para nos aproximarmos do nosso eu verdadeiro.

Ao secar minhas lágrimas, após entender no que eu colaborei acidentalmente e só entendi sete anos depois, fui para a sala de aula. Iniciei a aula propondo um velho exercício:

— Bem, gente… na próxima aula queria que construíssem uma personagem que seja oposta à personalidade de vocês, alguém que não seriam ou não gostariam de ser. Vocês estão livres para se utilizar de estéticas diversas, mas será necessário texto e corpo bem construídos na cena. É um trabalho individual, então vamos começar pela dramaturgia desse personagem. Não tenham medo dos limites – lembrem-se da vida, que é frágil palco.
Sorri.

 

Jair Cozta

Jair Cozta

Jair Cozta é concludente do Curso de Bacharelado em Letras pela UECE, sendo também revisor de textos, poeta, ilustrador e ativista queer. Atua como Produtor Cultural no Cineteatro São Luiz Fortaleza desde 2016 e foi Coordenador de Difusão e Programação da Rede Cuca. Idealizou o primeiro Festival de Canto de Fortaleza realizado em 2017 e 2018

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