Religião que não religa

Ontem perdemos Gal Costa. Ela se foi para sempre. No dizer de Unamuno, ela desnasceu, retornou ao útero espiritual de onde veio. Para aqueles que afirmam a não existência da verdade, a morte apresenta-se como uma verdade universal na qual todos os humanos são contemplados, não há quem escape ao seu encontro. Da constatação da morte provêm as indagações básicas vitais, filosóficas e religiosas: “de onde vim?”, “para onde vou?”, “que sentido dar à minha existência?”. O resultado do agonismo (luta) entre perguntas e repostas define nosso caráter existencial no mundo.

Dois momentos particulares vivenciei com Gal, a partir de sua transcendência enquanto ser artístico, do seu transbordar místico-melódico. Em 1979, eu havia 18 anos, vivendo um drama existencial profundo. Numa noite, em casa de um amigo, ele colocou na vitrola (não existiam ainda celulares, nem plataformas digitais) o disco de vinil Água Viva, lançado em 1978 pela musa baiana. Tocou-me particularmente a canção Mãe, de magnífica interpretação: “Palavras, calas, nada fiz, estou tão infeliz. Falasses, desses, visses, não, imensa solidão”. Apesar de encontrar-me numa imensa solidão, com o coração retorcido, aquele canto alentou-me a alma, permitindo-me encontrar com uma Solidão mais ampla, com uma Dor mais universal presente na existência humana, expressa nos mais diversos matizes. E então, mesmo chorando ao sentir aquela canção, percebi que minha dor, apesar de verdadeira, não era o centro do universo, era uma dor em meio ao mar de dores humanas.

O segundo momento deu-se logo após eu estar degustando um livro de poemas do escritor russo Vladimir Maiakovski (1893-1930), o poeta da “Revolução”. E surpreendi-me com a estupenda interpretação de Gal Costa da canção O Amor (LP Fantasia, 1981), poema de Maiakoviski musicado por Caetano Veloso: “Ressuscita-me, para que ninguém mais tenha de sacrificar-se por uma casa, um buraco. Ressuscita-me, lutando contra as misérias do cotidiano, ressuscita-me por isso”.  Assim, se no primeiro momento encontrava-me diante de sentimento de dor (morte), agora Gal me permitia vislumbrar e perscrutar um sentimento de ressurreição, conduzindo-me a recomeçar pela estrada do amor. Portanto, tenho para com ela uma profunda gratidão e um laço de cumplicidade em razão destes dois episódios de grande significado para minha caminhada.

A vida é luta. A solidariedade para com a vida é luta e se faz na luta. Todo esforço de nós humanos é o de darmos finalidade à nossa história particular e universal. Fazer com que nossa existência tenha sentido. E aqui não há lugar para comodismos ou idiotices, como as que estamos tendo o desprazer de assistir pela televisão, produzidas pelo gado bolsofascista, teleguiado pelas redes sociais, reproduzindo um padrão-manada ao clamar por uma estúpida intervenção militar e interdição do Supremo Tribunal Federal. Em outras palavras, pedindo golpe de Estado.

A condição da Existência é a permanente criação. Criar é oferecer beleza em versos ainda não ditos às canções que compomos e ao teatro que realizamos. Como nos diria Chesterton (1874-1936), “nenhuma segunda-feira é igual à outra”. Paradoxalmente, a contemporaneidade capitalista criou um comportamento de manada, fazendo com que pessoas e grupamentos humanos não mais se reconheçam como autores da história, mas apenas meros repetidores de padrões exteriormente pré-moldados. Enquanto milhões de pessoas padecem pela fome, o criminoso comportamento padrão econômico estabelecido pelo Mercado aos estados nacionais são políticas de austeridade com o objetivo de auferirem superávit fiscal a ser distribuído para os Donos das Finanças mundiais.

Como agravante desta ignomínia, a religião cristã, como estamos constatando aqui no Brasil, está sendo utilizada de forma estratégica para a manutenção deste “status quo autoritário”, no qual padres e pastores, cúmplices de Bolsonaro (69% dos fiéis evangélicos e 41% dos fiéis católicos), estão mais envolvidos com seus negócios, com suas redes de rádio e de televisão, com suas comunidades terapêuticas, com seus templos, em detrimento da mensagem original apresentada pelo seu fundador, Jesus de Nazaré.

O cristianismo em sua raiz apresenta-se como um desafio existencial radicalmente oposto a tais composições: “Eis que faço novas todas as coisas!” (Ap. 21). A história como mudança, como resultado da transformação humana. A própria Revelação, que por definição não pode ser modificada, torna-se objeto de centelhas sempre mais irradiadoras e inovadoras no leito da história comprometida com a luta por uma vida sempre mais solidária e fraterna entre todos. Os próprios carismas religiosos que emergem na história como forças renovadoras, são eles mesmos, por sua vez, dialeticamente, alvo de atualização sistemática para não sucumbirem em dogmatismos, autoritarismos, centralismos, fundamentalismos, exclusivismos, obscurantismos; para não mofarem em sua autorreferência.

Por fim, como registra Unamuno, o modo de viver da fé, que luta pela vida plena para todos, é duvidar. Fé que não duvida é fé morta. Da mesma forma, uma religião que não religa é como o sal que não salga, perdeu sua validade.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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