Reino das palavras – RENATO ÂNGELO

Quando pequeno, não gostava de ler. Aquele amontoado de letras me remetia a tarefas de escola, obrigações… Porém, não podia deixar de ser mais contraditório: meu quarto de dormir, na casa de meus pais, era também sua biblioteca. Havia enormes estantes e prateleiras apinhadas de tesouros insuspeitos para mim. Talvez por esse motivo não os livros propriamente ditos, com seus romances e intrigas, mas as enciclopédias chamavam mais atenção. Ali, grandes livros de capa dura, Delta-Larousse, Tesouro da Juventude, Enciclopédia Conhecer, continham o mundo mas – eis a coisa – com muitas figuras além de letras. Nada de senso estético particular… era preguiça mesmo… Muito preguiçoso!

Mesmo assim compreendia a literatura como um prazer táctil, olfativo e até auditivo. Certa vez, prostrado em um leito de hospital, acometido de uma infecção que – só depois soube – quase me ceifa a vida, contemplava a literatura via auditiva. Muitos anos antes da criação dos audiolivros, minha mãe lia, a meu pedido, a história de José do Egito… traído por seus irmãos. Um interpretador de sonhos no cerne da cultura hebraica… muito antes de Freud! Que incrível. Até hoje, também, tenho o costume de aproximar-me dos livros como algo digno da mais profunda reverência. Gosto de senti-los entre os dedos. Gosto de aspirar-lhes o odor singular de tinta e celulose… Não há Kindle ou e-book que supere, ao meu juízo, a experiência literária integral. Literatura precisa entrar pelos poros.

Anos mais tarde, em virtude de uma viagem a trabalho, visitei o Museu da Língua Portuguesa na estação da luz, em São Paulo. Revi em perspectiva todo relacionamento com a literatura. Uma DR literária que deixaria para trás os malfadados livros paradidáticos de escola… insossos e inócuos. Não sei se pelo aspecto impecável do museu, com sua elegante sedução interativa, ou mesmo se pelo desfecho da visita guiada, algo de epifania e espanto aconteceu. Pouco antes de sair, todos eram conduzidos a um grande galpão onde, em meio à penumbra, se escutava um homem a falar com voz terna: “penetra surdamente no reino das palavras… penetra surdamente no reino das palavras…”. Uma voz onipresente. Não havia outra coisa a fazer: Chorei. É que fui tomado de um súbito desejo de que todos os seres humanos pudessem estar ali e desfrutar daquela reflexão. As palavras me beijaram a alma naquele momento como nunca antes o haviam feito. Foi como se o desembarque na Normandia tivesse ocorrido com bombas de letras, tanques sonoros e excesso de humanidade.  Sabe como é querido(a) leitor(a)… Drummond é Drummond. Por ironia do destino, ou não, aquele museu que incendiara meu coração sucumbiria às chamas anos mais tarde. Mais um luto deste coração brasileiro, sulamericano… Continuaria a escutar aquela voz por anos.

Tendo, então, despertado tarde para “o reino das palavras” havia muito a ser feito, muito espaço a ser ocupado, tempo a ser comprimido para dar conta de demandas literárias prementes. A meta principal era de associar interesses pessoais com as necessidades pedagógicas do meu trabalho. Sou professor (por vocação e por karma).

Descobri, então, que as ciências humanas podiam ser muito áridas para espíritos sensíveis. A leitura de textos acadêmicos pode, mesmo falando com coerência, prescindir de sedução, encantamento e humanidade. Neste particular a literatura foi a ferramenta perfeita para traduzir aos estudantes o nosso mundo. E outros também.

A literatura distópica tem-se revelado parceira ideal para abordar nossa realidade por meio do universo ficcional. Como David Icke disse, acertadamente, se quisermos compreender o que ocorre no mundo hoje devemos ler dois livros: “Admirável mundo novo” de Aldous Huxley e “1984” de George Orwell. Tenho comprovado, com certa dose de desconcerto, que estes escritores, um em 1932 e o outro em 1949 – suas datas de lançamento – descrevem com muita perspicácia nosso contexto geral com décadas de antecipação. Quando lidos pela primeira vez me causaram espanto. Sensação essa que só aumenta com o passar dos anos e a deterioração da geopolítica, democracia e sociedade (dita) civilizada entendida de forma ampla.

Penso que esta seja uma das funções principais da literatura ficcional. É preciso, por meio da arguta observação de seu presente, lançar espelhos de papel a transfigurar nosso entorno. Como um grito, um alerta ou mesmo uma ameaça.

Aqui não é o melhor lugar para descrever, ou analisar em profundidade, tais obras sob a pena de incorrer na superficialidade. Apenas gostaria de deixar registrado que, seja com Huxley, Orwell, Bradbury, Burgess ou até com Saramago e Ignácio de Loyola Brandão, o mundo da literatura pode levar-nos a observar com mais atenção e penetração crítica, não o mundo como gostaríamos que fosse, mas a verità effetuale de Maquiavel. É que ao se refletir o grotesco que há no mundo pelo grotesco que há nas páginas, revela-se uma das mais nobres funções dessa arte: indignação e pulsão de mudança. Cada página que se lê é uma pétala retirada dessa exótica flor-livro, substrato – amargo ou doce – do roteiro da vida. Como dizia meu amado Belchior: “Sons, palavras, são navalhas”. A literatura deve ser tudo menos inofensiva. Quem precisa mudar não deve pensar em preservar sua própria carne.

Que sejam bem-vindas, então, as suaves lâminas da literatura!

Renato Angelo

Mestre em políticas públicas, professor universitário, pesquisador, poeta e contista

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4 comentários

  1. Sérgio Costa

    Isso sim é um apelo literário. “Quem precisa mudar não deve pensar em preservar sua própria carne.”
    Sensacional, Renato. Parabéns!!!

    • Renato

      Cleyton! Querido amigo. Obrigado pelo feedback.
      Também as adoro, mas preferiria que elas se resignassem as páginas dos livros, não em colonizar nosso presente. Sigamos.
      Abraços!

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