Quando esta guerra híbrida teve o seu início?

No universo militar tudo gira em torno de uma norma binária fulcral: Amigo – Inimigo. Consequentemente, toda guerra, seja ela convencional ou híbrida, é montada buscando resolver, por meio de ações estratégicas e pela força, os conflitos resultantes dessa relação binária antinômica a qual se apresenta como fonte da estrutura sistêmica construída dentro do aparato militar cujo controle está assentado num regime rigidamente hierárquico de comando a partir do qual são definidas as relações cotidianas entre os indivíduos que dele participam.

No caso específico de uma guerra híbrida, o seu objetivo é tomar o poder, derrubando a liderança de um Estado. Ela é muito eficiente porque une a população (e a opinião pública internacional) como um enxame por meio do qual são construídas dinâmicas e pontos de desestabilização do establishment.

Numa guerra híbrida, o híbrido é a capacidade de transformação, de inversão dos sinais de mais em menos, de criar possibilidades de mudar de opinião, de ponto de vista, e este é o aspecto mais potente de uma guerra híbrida que se materializa em imagens irradiadoras que viralizam pelos novos meios de comunicação digital.

O híbrido aposta na sua condição de maleabilidade e mutação, de criar ilusões, de inverter a realidade. E é nesta concepção imagética que a guerra híbrida se associa à produção de indivíduos autômatos, capturados por coisas que não existem, mas que ganham vida pelas imagens. Por serem imagens, como registra Platão em sua Caverna, revelam e enganam simultaneamente, “pois na obscuridade do mundo da matéria, os homens são escravos dos seus sentidos.

Um exemplo clássico dessas imagens ilusionistas é o  powerpoint de Deltan Dallagnol, apresentado numa coletiva de imprensa bombástica, transmitido on-line pelas redes de televisão, replicado nos quatro cantos do mundo, baseado não em provas mas apenas em suposições, envolvendo Complexo Midiático Empresarial, setores do Judiciário Brasileiro, setores do Ministério Público.

Na década de 1990, com a queda da União Soviética, a Rússia vivenciou uma catástrofe estrutural em seu Estado quando assumiu o poder o presidente Bóris Iéltsin (1991-1999). Aplicando o choque de capitalismo, do receituário neoliberal dos “Harvard Boys”, desmontou todo o sistema de proteção social construído durante o período soviético, provocando miséria e fome da sua população (35% dos russos passaram a viver abaixo da linha de pobreza), além de um desarranjo histórico da economia russa (taxas negativas do PIB, altas taxas de inflação e elevado índice de desemprego), permitindo o salteamento de suas riquezas por parte de grupos oligarcas multinacionais, gerando uma hiperdesvalorização (1998) de sua moeda (rublo) e a declaração de Moratória de sua dívida externa.

Em 1990, o governo de George Bush (o pai) prometera a Mikhail Gorbachev, Secretário-Geral da União Soviética, que não haveria expansão da OTAN. Entretanto, tal promessa foi quebrada. Em 1994, Bill Clinton deu início à política de expansão da OTAN, a qual absorveu quatorze países da Europa Central e Oriental: em 1999, República Checa, Hungria e Polônia; em 2004, Bulgária, Estônia, Letônia, Lituânia, Romênia, Eslováquia e Eslovênia; em 2009, Albânia e Croácia; em 2017, Montenegro; em 2020, Macedônia.

Em julho de 1997, meses antes da declaração da Moratória da Rússia, ainda presidida por Iéltsin, a OTAN realizou a Cúpula de Madri, cujo objetivo declarado foi a criação de um novo ambiente de segurança para a Europa, mediante a construção de uma nova arquitetura de defesa. Para tanto, celebravam os resultados auspiciosos do plano de uma “OTAN alargada”, expandida para o leste europeu, ampliando de 16 para 30 os membros da aliança. Com essa expansão seria possível cobrir um espectro ainda mais amplo de exercícios militares para operações de possíveis intervenções de crise e operações de contingência.

Também nesta Cúpula, a força militar do norte do mundo ocidental celebrou outro acordo. Trata-se do Ato Fundador OTAN-Rússia (NATO-Russian Founding Act), visando a uma “parceria” entre ambos. Porém, segundo o acordo, a Rússia não teria direito de veto sobre as ações empreendidas pela NATO: “O Ato Fundador não subordina a OTAN a nenhuma outra organização e não prejudicará de forma alguma a eficácia política ou militar da Aliança”. Apesar de Rússia e OTAN terem a possibilidade de abordarem diversos aspectos de tarefas no Conselho Conjunto Permanente, este permanecerá claramente separado do Conselho do Atlântico Norte, que representa o próprio órgão decisório da OTAN”. Portanto fica muito bem claro que o Ato Fundador não foi uma forma de compensar a Rússia pela expansão da OTAN em direção ao leste europeu, nem uma forma de controlar as ações militares da Aliança.

Mas, além disso, em outubro de 1997, na sede da OTAN em Bruxelas, houve a sessão inaugural da Comissão OTAN-Ucrânia, a nação do leste europeu a receber um tratamento diferenciado pela Aliança militar. Um dos objetivos dessa Comissão foi o de fornecer informações sobre assuntos da OTAN para que a Aliança se tornasse totalmente compreendida pelos ucranianos.

Ressalta-se que a expansão da OTAN não veio sozinha. Ao mesmo tempo, Washington começava a promover a política de “regime change” (mudança de regime) nas recém-independentes repúblicas da Europa do Leste — que consistiu em promover guerras híbridas (ou golpes de Estado) a fim de impulsionar “reformas democráticas” ou, mais especificamente, políticas de aproximação aos governos e às oligarquias do Ocidente, substituindo os regimes que ainda adotavam o modelo planificado de Estado.

Portanto, fica claro que a Rússia literalmente destroçada pelo choque neoliberal imposto pelos “Harvard Boys” ao governo de Bóris Iéltsin (1991-1999), não reunia forças nem condições para evitar que a OTAN continuasse a incorporar as repúblicas do leste, mantendo-se impotente em relação ao avanço do Ocidente sobre a antiga esfera de influência soviética. Quando da publicação da declaração da Reunião de Cúpula da OTAN de Bucareste, em 2008, a OTAN chegou ao extremo de dar boas-vindas à Ucrânia e à Geórgia, afirmando que os dois países se tornariam, mesmo que sem data prevista, membros efetivos da Aliança.

Só que em 2008 a Rússia não era mais governada pelo fraco, senil e inconsequente Iéltsin, mas por Vladimir Putin. Tal provocação da OTAN foi encarada pela Rússia como sendo a última a ser aceita passivamente. Diante do exposto, fica então a pergunta no ar: da perspectiva da Rússia, a OTAN com sua politica imperialista-expansionista bélica sobre os territórios do leste europeu, ameaçadora da soberania russa, deve ser considerada uma sua Amiga ou Inimiga?

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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