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O que a Guerra Híbrida da Ucrânia pode ensinar a quem procura entendê-la em seu passo a passo? Esta é uma pergunta que muitas pessoas estão buscando responder. Para entender qualquer guerra, primeiramente é preciso distinguir quem é o agressor e quem é o agredido. O agressor é aquele que inicia a guerra, porque pretende atingir certos objetivos por meio de sua realização; e o agredido, ao defender-se, procura também, a seu modo, retirar consequências não intencionais das quais pode auferir alguma vantagem. No caso da Guerra Híbrida da Ucrânia, os lados têm interesses bem diferentes.

O agressor é os EUA, desde 1991. A política externa executada por Bill Clinton, e pelos presidentes subsequentes, a partir da falência da União Soviética, com a dissolução do Pacto de Varsóvia, descumpriu o acordo feito com Mikhail Gorbatchev e focou em empreender uma maciça expansão militar, via OTAN (NATO), modificando a política externa da Europa Ocidental, e de outros aliados, tornando-a submissa aos interesses das três oligarquias no controle da política externa dos EUA, com a OTAN exercendo total controle contra quaisquer ameaças de resistência domésticas europeias.

A convergência dessas três oligarquias caracteriza o capitalismo financeiro pós-industrial contemporâneo. Assim, a dinâmica desta guerra híbrida reside no estímulo dessa convergência oligárquica emparedando a Rússia seja por meio dos ataques violentos dos grupos neozanistas ucranianos contra as províncias do leste, Luhansk e Donetsk, de língua russa, como também pelo conjunto de outras ameaças mais amplas perpetradas pela OTAN. O sonho dessa convergência é restaurar a cleptocracia gerencial dos anos 1990, sob o comando de Boris Yeltsin com os Harvard Boys.

Conforme o professor Michel Hudson, pesquisador de economia da Universidade do Missouri (EUA), o primeiro bloco oligárquico é o complexo militar-industrial, com os fabricantes de equipamentos bélicos Raytheon, Boeing e Lockheed-Martin, cuja renda monopolista é obtida com a venda de armas à OTAN, aos países exportadores de petróleo e a países com superávit na balança de pagamentos. As ações dessas empresas dispararam imediatamente após a notícia do ataque russo. A escalada militar dessas semanas promete um forte aumento nas vendas de armas para a OTAN: por exemplo, a Alemanha rapidamente concordou em aumentar seus gastos com armamentos para mais de 2% do PIB.

O segundo grande bloco oligárquico é o complexo de extração de gás e petróleo, junto com a mineração, aproveitando das benesses fiscais dos Estados Unidos concedidas às empresas que assaltam as riquezas naturais do solo poluindo o ar, os oceanos e os reservatórios de água potável. O objetivo deste bloco é aumentar o preço da sua energia e matérias-primas, com preços mais altos de gasolina (como ocorre atualmente no Brasil bolsonarista, pelo desmonte da Petrobrás executado por Sérgio Moro) e de outras energias, de forma a maximizar a sua renda de recursos naturais.

Monopolizar o mercado do petróleo da área do dólar, isolando-o do petróleo e gás russos, tem sido a grande prioridade dos EUA no tempo recente, uma vez que o oleoduto “Nord Stream 2” ameaçou ligar mais estreitamente as economias da Europa Ocidental e da Rússia. Isolar o Irã e a Rússia dos mercados ocidentais, entre outras consequências, reduzirá a oferta de petróleo e gás, elevando os preços e os lucros corporativos ocidentais. Há mais de um ano, Joe Biden vem exigindo que a Alemanha impeça o funcionamento do gasoduto “Nord Stream 2” no abastecimento de sua indústria e de sua população, com preços cinco vezes mais baixos, e se volte para adquirir o gás dos fornecedores estadunidenses. Como consequência a Alemanha não emitiu o Certificado de funcionamento do gasoduto russo. Resultado: a exclusão da Rússia do sistema financeiro ocidental (SWIFT) junto com os efeitos adversos de isolar a Europa da energia russa estimulam a entrada de títulos financeiros dolarizados no continente. Tudo sob o álibi da ameaça de uma escalada militar russa que começaria pela Ucrânia. O que aumenta a condição da Europa enquanto protetorado nuclear dos EUA.

Por fim, o terceiro maior grupo oligárquico estadunidense é o setor simbiótico de Finanças, Seguros e Imóveis, o moderno capitalismo financeiro sucessor da velha aristocracia fundiária pós-feudal da Europa que vivia das rendas da terra. Cerca de 80% dos empréstimos bancários norte-americanos são para o setor imobiliário, inflando os preços dos imóveis para gerar ganhos de capital. Internacionalmente o objetivo deste setor é privatizar as economias estrangeiras, de modo a transformar a infraestruturas dos governos e os serviços públicos em oligopólios privados para fornecer serviços básicos (saúde, educação, transporte, comunicação, tecnologia da informação) a preços máximos em vez de preços subsidiados para reduzir o custo de vida das populações.

Por sua vez, o objetivo da agredida Rússia é o de imediatamente remover o núcleo anti-russo neonazista que o massacre da Praça Maidan (2014) colocou em movimento, desmontando de todas as formas o palco de ações gerenciadas pelos EUA, como ocorreu na Chechênia e Geórgia. O segundo objetivo é dissolver completamente a OTAN, uma vez que o propósito da OTAN é o ataque e não a defesa; é a expansão rumo ao leste visando à destruição da Rússia. Por fim, iniciar um processo de “desdolarização” da economia mundial. Recentemente os EUA confiscaram as reservas internacionais do Afeganistão e a Inglaterra apreendeu os estoques de ouro da Venezuela; Cuba sofre sanções internacionais comandadas pelos EUA há mais de 60 anos. E o roubo recente das reservas monetárias da Rússia, pelos EUA, é mais uma ameaça a todos os países ao se submeterem ao padrão dólar.

Numa guerra híbrida, o híbrido é a capacidade de transformação, de inversão dos sinais de mais em menos, de criar possibilidades de mudar de opinião, de ponto de vista, e este é o aspecto mais potente de uma guerra híbrida que se materializa em IMAGENS IRRADIADORAS que “viralizam” pelos novos meios de comunicação digital e que carregam em si mesmas o poder de produzir um apagamento dos seus próprios rastros. O HÍBRIDO aposta na sua condição de maleabilidade e mutação. E é nesta concepção imagética que a guerra híbrida se associa à produção de indivíduos autômatos, capturados por coisas que não existem, mas que ganharam existência pelas IMAGENS. E que, por serem imagens, como registra Platão em sua Caverna, revelam e enganam simultaneamente, “pois na obscuridade do mundo da matéria, os homens são escravos dos seus sentidos”. Os posts (imagens), armas por excelência da guerra híbrida, se apoiam justamente na crença da agência das imagens e de seu poder de interferência nas mentes e comportamentos das pessoas. É um preço muito alto que os EUA estão cobrando da comunidade internacional. Quem vai pagar a conta de mais um almoço global estadunidense?

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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