QUADRINHOS EM HISTÓRIA

 

As histórias em quadrinhos ajudam a narrar as experiêcias de vida de muita gente, tendo em vista que são, muitas das vezes, nossas companheiras já a partir do universo infantil. Instrumentos de cultura, mas também de diversão, conectam as crianças à fertilidade da imaginação ao mesmo tempo em que as iniciam no conhecimento de realidades. 

Tudo isso ocorreu comigo nos idos da década de 70 do século XX. Filho de classe média, com pais leitores e altamente instigados e envolvidos no mundo da informação e da palavra escrita, era uma “viagem” para este cronista passar em frente e entrar na banca de revistas, “aquela”, pertinho da esquina, tão próxima de casa que parecia extensão da sala, da garagem – não do carro – mas dos brinquedos, ou mesmo do quarto, sempre bagunçado e cheio de sonhos e sonos…

A banca era amiga! Colorida, cheirosa (podia até não ser, mas era!), repleta de balas belas, bilas, bolas, picolés, chicletes, guloseimas mil, e elas, nesse entorno, fazendo parte de uma mesma narrativa, de uma mesma conexão de interesses: as revistinhas em quadrinhos. Pelos meus pais, fui diversas vezes incentivado a escolher a revista do meu agrado! Eu queria uma, não a outra! O gosto ou o porque da escolha me fogem a memória: talvez a imagem, talvez a história, talvez pelo protagonista, talvez o desejo de ver/sentir/pegar/usar o material escrito, e a certeza de ter o prazer garantido da leitura e da diversão ali presentes.

Nesse sentido, e a partir de tal contexto, fui uma criança privilegiada por ter a possibilidade de me envolver com textos incrivelmente gostosos e, em muitos aspectos, adequados à possibilidade de serem compreendidos. Sim, eu amava as historinhas situadas em quadrinhos. Sim, eu amava aqueles balõezinhos cheios de palavras e de significados. Sim, eu amava folhear todo esse material colorido – fazia isso uma, duas, várias vezes, como que tentando penetrar nas narrativas, tornando-me personagem… Sim, eu amava, e muito, colecionar essas revistinhas, as quais representaram minha fonte inicial de pesquisas e de leituras interferentes.

Assim, em torno de todo esse material, eu amava os tipos e personagens da Disney. E eles eram os mais variados possíveis: o Pluto, o Pateta, os irmãos Huguinho, Zezinho e Luisinho, o pato Donald, o Cascão, a turma dos Metralha, o Bafo de Onça, a Maga Patalógica – parecida com uma parenta, motivo de brincadeiras infantis “internas”, o Peninha, o Gastão e o tio Patinhas. 

Todo esse pessoal era amistoso. E próximos! Eu sabia da vida deles! Sabia como se comportavam, que ações haviam produzido, as dúvidas e os medos que tinham, como enxergavam o mundo e agiam sobre ele. Assim, sabia dos passeios, dos anseios, dos entremeios, dos falseios, e das narrativas, sabia do início, do fim e dos meios! Desse jeito, nascido numa casa de pessoas mais velhas, eu nunca ficava sozinho: podia me divertir à vontade com as historietas de toda aquela turma, que marcou minha infância com graça e gostosura.

De todos aqueles personagens, eu prestava muita atenção no tio Patinhas! Milionário, era uma figura curiosa, não gostava de gastar com nada e, dono da “moedinha número um” – sabe-se lá o que isso significava, e de um cofre intitulado como Caixa Forte – sempre lotado de dinheiro, aparecia de uma forma simpática praticando boas ações e, com um certo ar de liderança, encontrava soluções para os problemas. Sim, Patinhas definitivamente me chamava a atenção! 

Nos tempos atuais, percebo-o como protagonista nas narrativas da Disney – ele foi destaque de revistas até em material com capa dura (o que fazia a diferença para mim: era sinal de “status”) – como o Manual e o Almanaque, lançados na década de 70, e igualmente nos programas matutinos dominicais da Globo nos anos de 1980. Patinhas literalmente “nadava no cofre”, além de ser um “caçador de tesouros” – típicas expressões que sugerem uma vida conectada basicamente ao dinheiro, sendo esse considerado pelo mercado de capitais e pela grande mídia a expressão máxima da felicidade. Será? Perguntem às pessoas que não trabalham, presentes em todo o mundo, entronizadas em uma das máximas do neoliberalismo, que preconiza a criação/manutenção de uma “reserva natural” de desemprego… Coisas de uma sociedade que, ao valorizar apenas a meritocracia, “esquece” outras questões humanas…

Mas voltando ao universo infantil: havia também os personagens de Maurício de Sousa. Esses, brasileira e gostosamente contextualizados: Cebolinha, Cascão, Mônica e seu coelhinho, Sansão, Magali. Até os nomes soam próximos, assim como as narrativas: leves, despreocupadas, mas com determinados conflitos que faziam evoluir o enredo e prendiam a minha atenção enquanto leitor. A partir daí, em torno delas, havia a pergunta possível: o que viria a seguir? Vida, amor e riso!

São dessa forma as histórias de Maurício de Sousa! Sentia-me também participante delas, conectadas às famílias, às moradias e aos bairros dos personagens, gargalhava com as situações vividas por eles. Assim, emocionava-me! Além disso, ainda havia as questões linguísticas permeando tudo: Chico Bento, roceiro, usuário do chapéu de palha e de outra variedade da língua, fora da norma padrão e tão linda e importante como a chamada “gramaticalmente correta”! Bento é um personagem carismático e divertido! Aliás, como devem ser as histórias em quadrinhos!

Por conseguinte, com tais referências, a leitura dessas histórias propiciou para este cronista diversas emoções, abrindo horizontes para possibilidades de atuações e de criações com a Arte-Educação, um campo que pensa a construção de conhecimento mediando a cultura contemporânea em torno das apreciações e do fazer artístico; além disso, valorizando o diálogo e o respeito às diferenças de uma forma plural, aberta. Nessa conjuntura, a Arte-Educação contribui para a compreensão do mundo utilizando a estética! Assim, a escola passa a ser uma experiência de linguagens! Como são as histórias em quadrinhos!

E narrativizando-as: a revista. A capa. A leitura. A diversão. O prazer. O gozo. A vontade de ler mais. E os personagens falando com o leitor, expondo-lhes dúvidas, certezas, caminhos, percursos, amores. O diálogo do absurdo real: a revista fala! Conexão com outros mundos. E o leitor ali presente. A brincadeira ali presente. O jogo literário ali presente. A amizade ali presente. Bem como a pureza. A alegria. E também os impasses. A busca de soluções. E o final – feliz ou… infeliz, mas que pode ser modificado pela vontade de transcender o mundo. De descobrir o mundo. De compreender o mundo. De trazer beleza ao mundo! De significar o mundo. De fazer esse mundo o nosso mundo! De viver e viver e viver! Vida, manda mais histórias em quadrinhos!!!

Carlinhos Perdigão

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OBS.: Dedico este texto ao meu pai, Carlos Alberto Ferreira, que me conectou à leitura e à escrita ao me apresentar, nos anos de 1970, a coluna do Drummond no Jornal do Brasil, bem como ao ler minhas poesias adolescentes e me incentivar a seguir neste universo. Definitivamente, ele foi um dos meus mestres! E segue sendo ainda: aos 98 anos, é leitor diário de jornais, de revistas e de diversos livros com temáticas ligadas à literatura e ao xadrez, esporte que ama!

 

Carlinhos Perdigao

Carlinhos Perdigao

Carlinhos Perdigão é arte-educador, músico, produtor cultural, professor de língua portuguesa da Faculdade Plus e da UNIQ – Faculdade de Quixeramobim. É autor do livro “Fragmentos: poemas e ensaios” e do disco “Palavra”. Tem formação em Letras e Administração, com pós-graduação em Gestão Escolar. E-mail: [email protected] Site: carlinhosperdigao.com.br

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1 comentário

  1. Sérgio Costa

    Sérgio Costa

    Muuito bom, amigo Perdigas!
    Que belo passeio por uma memória tão afetiva da infância.
    Sinto falta das banquinhas de revistas pela cidade, bem como folhear os quadrinhos e tantas boas novidades nelas.
    Abraço!!!

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