PENSAMENTOS RASOS

.

Em janeiro de 2026, o filósofo francês Edgar Morin, já com 104 anos de existência, concedeu entrevista ao jornal italiano Corriere della Sera, na qual critica a superficialidade e a fragmentação do pensamento comum contemporâneo, apontando que esse tipo de inteligência rasa, com evidente ausência de profundidade crítica e complexa nos humanos, é mais perigoso para a humanidade do que a própria tecnologia denominada de inteligência artificial.

Para Morin, a barbárie do pensamento reside na simplificação, na disjunção, na separação, na racionalização em detrimento da complexidade, das conexões inseparáveis e, inclusive, dos sonhos e da poesia. A civilização ocidental, no seu entender, está sendo corroída por uma crise profunda: “o desumano se espalha, o humano se desmorona, o comportamento simplista triunfa, a complexidade retrocede”.  E ele arremata: “A chamada inteligência artificial pode ser aterradora, mas temo sobretudo a inteligência humana superficial”.

Apesar de haver atravessado um século de vida, Morin afirma estar em uma fase emocionante. Contrariamente à ideia de que a idade traz fragilidade, isolamento e tédio, o filósofo afirma que em sua idade ainda sente curiosidade. Para ele, a velhice é um terreno fértil para a criação e a rebeldia. (Unisinos).

Diante deste relato provocativo de Edgar Morin, o pensamento navega rumo a outro personagem não menos importante da história humana. Trata-se do mais pobre Presidente do Mundo: o uruguaio Pepe Mujica, que doava 90% do seu salário presidencial a programas sociais, vivendo em uma chácara simples, dirigindo seu Fusca Azul 1987.

Uma das frases lapidares de sua trajetória como sujeito político é esta: “Os militantes não vêm ao mundo para buscar o seu, mas vêm entregar sua alma por uma revoada de sonhos”.

Vivemos como pensamos. E a força dessa afirmação de Pepe Mujica reside no verbo (ação) entregar. Trata-se de oferta livre da vontade, oferecer a própria alma, isto é, o núcleo mais íntimo da subjetividade ao sentido de viver.

Para Mujica, o militante autêntico não se move pela segurança do resultado, mas pela fidelidade ao evento, alimentando-se da esperança plantada no solo da entrega amorosa, sem ignorar ingenuamente a dureza da história, mas se recusando a aceitá-la como destino imutável. A militância é um modo de habitar o mundo poeticamente, ou seja, de reconfigurar o real pela linguagem do possível. O militante assim é aquele que transforma a própria vida em texto político, em um romance aberto à utopia.

Quando Mujica afirma que os militantes não vêm “buscar o seu”, ele desmonta a lógica neoliberal de acúmulo que estrutura as sociedades capitalistas.  Com ele, a política deixa de ser mercado de interesses para se tornar campo de sentido. A pergunta que o orienta é: o que está faltando ao mundo? O que é preciso acontecer? O que é preciso modificar? Há, portanto, um deslocamento ético do Eu para o Nós. Há aqui, certamente, uma espiritualidade laica. Não a transcendência do além, mas a transcendência do possível dentro da história, por meio da ação política.

Assim, a militância é, antes de tudo, um ato de amor político. Não um amor sentimental, meloso, alienado; mas um amor trágico e responsável. Amar o povo é sofrer com ele a dor cotidiana, lutar com ele, errar com ele, recomeçar com ele. A vida só vale a pena quando a alma não é pequena, como disse o poeta português Fernando Pessoa.

Nada de pensamentos rasos ou almas apequenadas. Nessa expansão ética, poética e política do existir, a militância encontra sua verdade mais profunda, não como heroísmo narcísico ou vazio, mas como fidelidade silenciosa ao impossível que insiste em nascer.

Sobre o autor:

Compartilhe este artigo:

PENSAMENTOS RASOS

Respostas de 2

  1. Muito me encantou esse artigo. Continuo sendo agraciado, pela sua sabedoria e pela sua amizade. Abraço fraterno!

  2. Uma pena que Mujica agia e pregava uma vida autenticamente cristã e se dizia ateu. O pensamento dele se insere com o que Cristo pregou e viveu. Aquele que crê, já está salvo. Aquele que não crê, já está condenado”. Uma pena!