Onde deve ser discutida a religião?

“Entre vocês não deverá ser assim: quem quiser ser grande, deve tornar-se servidor”.

 

Uma das questões colocadas por Karl Marx, publicada no Editorial de Número 179, da Gazeta de Colônia, indaga sobre onde deve se realizar a discussão de questões religiosas, principalmente quando a religião está submetida a alinhamentos ideológicos que tendem a captura-la e a associa-la a um instrumento de defesa do poder político, como ocorreu recentemente com a declamação de um notório frei franciscano, fundador de uma associação religiosa, ao dito presidente da república do Brasil, num encontro realizado no dia 18 de maio de 2022, no Palácio do Planalto, com lideranças cristãs católicas. O clérigo ratificou com veemência sua defesa incondicional de Bolsonaro, expressando abertamente em alto e bom som: “Estamos juntos!”.

Marx, no referido documento, pergunta: “Onde devem ser discutidas as questões religiosas: no seio das famílias, nas igrejas e nas escolas, ou também na imprensa e na academia? Na linguagem obscura das opiniões privadas ou na linguagem da razão pública clarificando as contradições?”. Afinal, se a religião se torna uma qualidade da política – conforme se comprova na manifestação política do frade franciscano – a imprensa e a academia têm não só o direito, mas também a obrigação de discutir tais assuntos políticos que envolvem a religião. Apesar de a religião estar voltada para preocupações “com o outro mundo”, ela nasce, cresce e se desenvolve neste mundo material, condicionado pelas estruturas econômicas e culturais, com suas implicações com o poder temporal.

Marx registra ainda que a crítica da religião é “a condição preliminar de toda a crítica”, uma vez que a religião é a Teoria Geral deste mundo em que vivemos, revestida de uma forma popular e espiritualista: “Se por um lado a angústia da religião é expressão da angústia real, por outro lado ela é o protesto contra a angústia real”. São os humanos que fazem a religião, e não a religião que faz os humanos. E humanos não são seres abstratos. Humanos são o seu mundo-tempo: a família, a sociedade, o Estado, o conjunto das Nações. Portanto, são eles que produzem a religião. Assim, a crítica da religião é em germe a crítica do Vale de Lágrimas do qual a religião é a auréola. Logo, a partir desta constatação, a crítica da Religião se amplia em crítica do Direito e da Política.

Em Estados teocráticos, o Deus de uma determinada religião é o soberano, cujos operadores temporais do poder divino são aqueles que se revestem como sendo seus representantes na terra: pastores, padres, aiatolás, mulás, rabinos, clérigos em geral, obedecendo a um rigoroso sistema hierárquico por eles concebidos. Muito provavelmente seja por isso que o bolsonarismo instituiu como lema “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”: na tentativa de absolutizar verticalmente o poder temporal, do qual está provisoriamente impingido enquanto presidente. Em discurso proferido na cerimônia de entrada dos novos alunos da Escola Preparatória dos Cadetes do Exército – Campinas/SP, em 20/02/2021, Bolsonaro expressou: “Quis o destino que, em 2018, pelas mãos de Deus, eu chegasse à Presidência. Se tudo tivesse de depender de mim, não seria esse o regime que nós estaríamos vivendo. Nosso Deus acima de tudo”.

De fato, em um passado, não tão longínquo, o Dogma religioso – uma verdade de fé que não precisa ser demonstrada – impunha-se como o laço entre os indivíduos e suas existências, como se pode constatar, por exemplo, numa passagem do Papa Pio VII (1742-1823) que, em 1815, ao afirmar, por ocasião da Santa Aliança, voltada para incutir nos súditos o direito divino dos reis, que “o laço universal entre os povos é a Igreja Católica e não os Estados temporais”. Ou como se lê na Constituição Dogmática Lumen Gentium, “a luz dos povos é Cristo e as condições do nosso tempo tornam ainda mais urgentes que todos os homens alcancem a plena unidade n’Ele”.

Mas em Estados democráticos, constituídos por repúblicas laicas, representativas e participativas, a soberania é popular, com distribuição dos Poderes republicanos regidos por uma Lei Constitucional, promulgada por uma assembleia de representantes eleitos diretamente pelos cidadãos e cidadãs. Não há o dogma de fé religioso a ser imposto e obedecido piamente, mas vigora a luta democrática, respeitando-se as leis que a regem, pela implantação de condições de liberdade e igualdade para todos os que constituem uma determinada comunidade política, diante de desigualdades e injustiças estruturais e históricas sobre as quais foi construída, maltratando a vida de muitos para garantir o privilégio de poucos.

Todavia, segundo o teólogo Flávio Lanzarin, membro da Comissão Pastoral da Terra (CPT – MA), no artigo “O alinhamento político de Jesus”, publicado no IH-Unisinos, em 30/03/2022, possuir uma fé espiritual implica ter um comportamento ético específico correspondente ao encontro vivenciado com uma determinada experiência religiosa. Não um comportamento qualquer, mas um compromisso existencial que englobe uma reflexão contínua, crítica e sistemática, de forma que a fé seja sempre mais compreendida conscientemente em relação ao espaço-tempo vivido no instante presente, que não fique engessada ou adormecida num armário do passado. De tais reflexões dependerá a inserção na história e na sociedade, isto é, resultarão as opções e engajamentos que caracterizarão a vida dos crentes. Toda a fé apresenta-se comprometida com algo. Importa saber, portanto, com que causas e em que medida se compromete.

Porém, ao ocultar ou contemporizar com situações conjunturais e estruturais que oprimem e colocam à margem milhões de pessoas, legitimando e se ajuntando a políticos e organizações sociais e econômicas que promovem um desenvolvimento desigual, concentrador de renda e de poder, gerador de situações de injustiça, evitando de pensar tais realidades de forma crítica, ou contentando-se com uma visão meramente empírica e circunstancial, o crente corre o risco de se deixar levar pelo discurso ideológico dominante, ou por conveniências escusas que não se coadunam com o arcabouço ético exigido por sua fé. E este é um debate que, segundo o teólogo, se apresenta aos mais de 80% de fiéis brasileiros de matriz cristã, dos quais muitos se declaram unidos ao fascismo bolsonarista, como no caso do frei franciscano.

Como registro, anotamos a última perversidade do bolsonarismo presente no Projeto de Lei (PL) 4188/2021, de autoria do governo do capitão, que cria o marco legal das garantias de empréstimo, alterando a impenhorabilidade dos imóveis residenciais, único bem de uma família. A legislação atual em vigência garante que uma família não pode perder esse seu único imóvel por dívidas contraídas. Mais uma prova inconteste do compromisso explícito de Bolsonaro com a classe dominante e financista, que aufere ano a ano lucros astronômicos, e inimigo das famílias brasileiras, das quais 77% estão endividadas e cerca de 36% da população sofrendo pelo risco da fome. Como não existe um Deus neutro, é impossível uma fé insossa: eis a questão!

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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