Olhar para a outra margem do rio

Como se faz para olhar a realidade concreta? A partir de que sensibilidades, de quais conhecimentos, de quais fontes de informação e de quais análises dos fatos? Como tomar posse de um objeto pensado, sem deixar-se manipular pelos meios de comunicação, nem pela mistificação dos aparelhos do Estado, e assim observá-lo de diversas perspectivas, para obter algum conhecimento verdadeiro? Afinal, a verdade possui em si uma típica força libertadora que nos faz mudar o rumo ou ampliar nossa convicção. Como pode uma democracia sobreviver se as instituições republicanas não forem garantidoras da verdade dos fatos e da Lei?

As respostas a tais questões apresentam-se com a necessária gravidade em função das tensões sociais comprovadas, cada dia mais radicalizadas, oriundas de amplos movimentos de pós-verdade (“fake news”) e de algoréticas (uso ético ou não ético da tecnologia) condicionadores de comportamentos e percepções dos indivíduos e grupos.

Um exemplo clássico recente no Brasil foi a construção jurídico-midiática do “objeto Sérgio Moro”. O objetivo visava torná-lo percebido como uma espécie de super-homem, acima do bem e do mal, no combate a corrupção pública. Eu recordo vivamente de diálogos travados, entre 2014 e 2018, com alguns amigos do campo religioso cristão católico, com nível de escolaridade superior, que o consideravam “o paladino da justiça”, aquele que finalmente iria colocar o país nos trilhos da decência.

Esses amigos cristãos católicos tinham como sua fonte principal, de informação e observação do objeto Sérgio Moro, a Rede Globo (Jornal Nacional, Fantástico, Globo News etc.). Destaque-se que a Rede Globo era simultaneamente a força mentora e propulsora do desenvolvimento conceitual do referido objeto (Sérgio Moro) e de divulgação publicitária do antipetismo. Além disso, esses amigos dialogavam com outros formadores de opinião que comungavam das mesmas motivações globais. Portanto, o seu campo de visão estava racional e emocionalmente condicionado; acreditavam piamente que o objeto Sérgio Moro era uma espécie de salvador da pátria.

Ocorre que, na outra margem do rio, a defesa técnica do presidente Luiz Inácio Lula da Silva já havia apresentado gigantescas provas documentais denunciando a corrupção (lawfare) do sistema de justiça brasileiro, pelas mãos de Sérgio Moro, com o objetivo explícito de aprofundar o Golpe de 2016, visando à prisão ilegal do presidente Lula em 2018 (e à criminalização dos partidos de esquerda), retirando-o da disputa presidencial, para viabilizar a eleição do capitão de extrema-direita Bolsonaro. Ou seja, o lavajatismo construído por Moro-e-Globo foi a mãe incubadora do bolsonarismo militarizado atual.

Todavia, somente depois da imprevista ação de Walter Delgatti Neto, o hacker que mudou a história do país, que teve a coragem de olhar para a outra margem do rio ao denunciar, por meio de suas interceptações, as trocas de mensagens dos procuradores da dita Operação Lava-Jato, comprovando o que a defesa técnica do presidente Lula já havia documentado amplamente nos autos: que o presidente Lula foi alvo de corrupção judicial (lawfare), num processo conduzido por um juiz parcial e por procuradores dissolutos, conforme sentenciado posteriormente pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Indaga-se: e se Delgatti não tivesse conseguido sucesso em seu intuito, como estaria hoje a realidade política do Brasil? Continuaria a cumplicidade do sistema de justiça brasileiro com o lavajatismo, como ocorreu no início daquela operação?

O filme exibido pelo canal Netflix, “Não olhe para cima” (2021), do diretor Adam MacKay (“A grande aposta”), é uma metáfora que vem ao encontro do tema acima exposto: diante da ameaça de desaparecimento da Terra por um cometa destruidor de planetas, descoberto acidentalmente por uma dupla de cientistas astrônomos, que a partir daí procuram a presidenta dos EUA para alertar o mundo e tomar as devidas providências, encontra-se uma população envolta na “media-life”: memes, lacrações, celebridades, polarizações constantes em seus celulares.

No filme, tal condição cultural produz pós-verdade (derrota da verdade científica) no mar turbulento de vieses, de narrativas deturpadoras dos fatos, de opiniões que se impõem como verdades, relativizando a realidade. A manipulação política (conclamando as pessoas a olharem para baixo) somada ao alheamento civil em não querer olhar para cima (ou não olhar para a outra margem do rio) permitem a destruição do planeta Terra pelo cometa.

O diretor do filme, Adam MacKay, apostou que a proximidade do cometa seria a possibilidade de mudança de rumo e tomada de atitude da população em relação à pós-verdade a que está submetida. Errou. No Brasil, teremos uma grande oportunidade nas eleições de 2022. Será que conseguiremos olhar para a outra margem do rio? Nesses dias, numa margem, Bolsonaro está se divertindo com seu jet-ski em Florianópolis; na outra margem, a população baiana está padecendo pela inundação das águas em seus lares. O que todo esse descaso, negacionismo, insensibilidade e perversidade bolsonarista continuam a nos dizer?

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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