O VIDEOGAME E A ARTE DIGITAL – UM DIÁLOGO

Eu era pequeno, e o mundo da televisão já me chamava a atenção. Adorava seriados como Bat Masterson, Agente 86, assim como o brasileiro Shazan e Xerife. Era magnético estar em casa de tarde, após a aula da Escolinha, e ver filmes. A tevê reproduzia em preto e branco, mas havia muitas cores naquelas histórias engraçadas, chamativas, e que beiravam absurdos, hoje admito.

    Ao lado dos filmes havia atividades culinárias gostosas: eu era o “rei do brigadeiro”. Assim, a vida se resumia em ir à aula, comer chocolates e batatas fritas, ler muita coisa, ouvir músicas, apostar corridas (até o dia em que fui “premiado” com o ataque de um enxame completo de abelhas!), comer goiabas tiradas das árvores frondosas da casa do Monsenhor André Camurça – o vizinho da frente, passear de bicicleta nas pracinhas do Bairro de Fátima, e jogar futebol, muito futebol. O esporte bretão era o preferido nos arredores, assim como falar mal do time alvinegro. Afinal, por influência paterna, todos lá em casa somos “tricolores de aço” ainda hoje em dia.

    O mundo digital vai surgir mais adiante, quando, nos anos de 1990, a televisão e os jornais de uma forma em geral começam a comentar sobre a rede mundial de computadores. Eu, analógico por natureza, passei a ler sobre o tema e a ficar maravilhado com a promessa da revolução que a linguagem prospectava. A partir daí, computador em casa, foram horas e horas pesquisando sobre música – principalmente rock, blues e MPB – mineiros como Milton, Beto Guedes e Marco Antônio Araújo têm uma produção ao mesmo tempo tocante e misteriosa, quase divina, com cheiro de Deus, além de esportes, temas cinematográficos, linguística, filosofia, pedagogia, literatura…

    Quanto aos games: pouco interesse, na medida em que minha formação passava por outras linguagens, outros mundos, outros percursos, outras possibilidades, outras conexões… Se bem que houve uma disciplina, num curso sobre Teoria da Literatura em terras distantes, que o professor mostrou na sala um videogame de um desses jogos com muita violência. Ele perguntava sobre a existência ou não de haver ali, nas situações exibidas de guerrilha urbana, a questão da narratividade.

    Era uma boa provocação à turma, toda ela experiente em pesquisas, como pude comprovar depois. As discussões na sala mostraram que sim: o enredo fílmico manifestava ocorrências nas quais os personagens mudavam de situação, com transformações de estado, afora a questão da performance e da trilha sonora, bastante envolvente com o material, e ruidosa ao extremo.

    Após a aula, fiquei pensando na força expressiva da linguagem audiovisual sendo exibida – e refletida como um recurso – no campo educacional. A fotografia em movimento, os aspectos ideológicos presentes, a própria língua sendo veiculada, o som – “quente” ou “frio”, dependendo da situação narrada; enfim, uma série de aspectos que deveriam estar mais presentes no universo pedagógico. Ao longo do tempo também surgiram outras questões, como o questionamento de ser ou não o videogame um produto artístico… Bem, assunto para outro texto.

    O fato é que, em torno do universo digital, as sociedades humanas mudaram com a Internet. Houve uma transformação radical. Nesse sentido, como bem sustenta minha esposa, Daniele Andrade: “o formato da comunicação mudou a partir dela”. E isso alterou profundamente os mundos da produção e veiculação artísticas, haja vista expressões como marketing, redes sociais e branding. Se bem que: sei que faço parte de uma minoria, e confesso: ainda hoje em dia aprecio colocar um CD ou um disco – sim, o velho long-play para tocar na aparelhagem sonora em casa. Essas são horas sagradas! Gosto do registro físico da canção, do barulhinho da agulha no sulco, de observar a parte gráfica do material (entendendo estar a arte também no encarte!), de ler as letras das canções como poesias sonoras, de saber quem produziu e tocou os instrumentos.

    Essa é uma espécie de imersão total que faço no universo da música. Assim, como instrumentista, venho desde os anos de 1970 sentindo as canções a partir da pulsação baterística. E sem desmerecer o artista principal: o show para mim não é dele. É do baterista! Quem? Ozzy Osbourne? Prefiro ver Tommy Aldridge! Quem? Alceu? Prefiro ver Cássio Cunha! Quem? Kátia Freitas? Prefiro ver o mestre Aristides Cavalcante! Cansei de ir a espetáculos e não tirar os olhos, os ouvidos e até mesmo o coração do batera. Aliás, nos tempos do Ginásio Paulo Sarasate, já assisti diversos shows da parte de trás do palco, só pra ver a técnica e a emoções expressas pelo Senhor do Ritmo. Coisas de quem tem tambores, pratos e baquetas no sangue e na alma…

    Voltando ao tema, sei que há muitas manifestações artísticas nas plataformas digitais! Nesse sentido, compreendo que a arte nesse ambiente mudou a forma de consumir (inclusive no sentido lato da palavra!) a música. Hoje em dia, quase todos os artistas privilegiam o lançamento dos chamados singles, e não mais um disco ou CD. Isso torna o trabalho mais enxuto, numa proposta estética direta, sem devaneios múltiplos. Alguém poderia perguntar: isso torna a arte menor? Sim, não e talvez, o leitor que decida…

    De qualquer forma, impregnado que sou pelo universo das histórias, e das grandes, extensas e laboriosas narrativas, resolvi lançar em 2017 um disco. Chama-se “Palavra”, e é um filho direto do meu primeiro livro impresso, lançado em 2011, “Fragmentos: poemas e ensaios”. “Palavra” contém 11 poemas musicados por parceiros como Marcelo Justa, Nigroover e Júnior Boca. Aliás, lançar este disco fisicamente (no formato CD), em plena estação digital, e com todas as letras presentes, numa espécie de disco-livro, representou um desafio a mais! Várias pessoas já me perguntaram a razão de lançar uma obra num suporte que, muitas vezes, nem vendido mais é. A resposta é simples (ou não tão!) e envolve Nietzsche, semovente que sou: vontade de poder, de potência, de expandir minhas crenças, de abarcar novas possibilidades, de movimentar “meu eu” artístico na tentativa de delimitar o mundo a partir de cores próprias e, sobretudo, autônomas. O ato de criar mexe comigo…

    Em torno desse contexto, posso afirmar que “Palavra” levou dois anos para ser gravado e mixado, de forma independente, encontrando-se nas plataformas, bem como em meu site e no YouTube, pois gerou três videoclipes. Portanto, não tendo nada contra as mídias digitais, entronizado que estou na cultura contemporânea, tento fazer como os grandes artistas. Nando Reis, por exemplo, tem um canal no Youtube que o aproxima do público. Lá, ele conta curiosidades sobre suas composições, além de exibir vídeos autorais, com produções de alto nível e com muito bom gosto. 

    É interessante a perspectiva do parágrafo anterior: a música já não é – de há muito, como sabemos – só o som! A música também é moda, dança, vídeo, business, narrativas de um mundo múltiplo e pós-moderno. Outro aspecto que envolve a arte digital, e a sua distribuição, reside na possibilidade comercial e mercadológica que o meio propicia. É ali que o artista pode vender seus produtos, além de divulgar shows, projetos e de se posicionar política e humanamente também!

    Assim, podemos entender a potencialização de uma das características básicas do ser humano a partir da Internet: a questão do diálogo. Afinal, grosso modo, as distâncias foram diminuídas, com o processo interativo presente nas mídias sociais mudando a forma como as pessoas se relacionam. E, em tal conjuntura, o que existe é a construção de redes de relacionamento com as quais a arte em geral se beneficia, assim como igualmente o artista, num círculo virtuoso de intercâmbio muito interessante e prolífico.

    Em todo esse quadro reside a chama da arte. A arte que chama. A arte que ama. A arte que não se esgota. A arte que importa. A arte que encontra caminhos, estradeira sempre. A arte que se completa com a vida.  A arte que é contemplada pela vida. Mas que vai além, criando possibilidades. A arte que toca na Toca da Arte: o mundo, nosso mundo… A arte que pinta. Que distrai. Que constrói. Que questiona. Que significa. Que explode. Que pulsa. Que mexe. Que faz. Que fez. Que fiz. Que foz. E fui!

    Enfim, a Arte!!!

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OBS.: texto dedicado à minha esposa, Daniele Andrade, companheira de vários anos, jornalista e pesquisadora do universo comunicacional e mercadológico das mídias digitais. Além dela, dedico esta crônica aos bateras Cássio Cunha e Aristides Cavalcante, e aos parceiros musicais Marcelo Justa, Nigroover, Júnior Boca e Cleison Mattza.

Carlinhos Perdigao

Carlinhos Perdigão é arte-educador, músico, produtor cultural, professor de língua portuguesa da Faculdade Plus e da UNIQ – Faculdade de Quixeramobim. É autor do livro “Fragmentos: poemas e ensaios” e do disco “Palavra”. Tem formação em Letras e Administração, com pós-graduação em Gestão Escolar. E-mail: [email protected] Site: carlinhosperdigao.com.br

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