O Rock e o Mercado Musical – origens e massificação – por CARLINHOS PERDIGÃO

Sabe-se que, em sua origem, era muito improvável prever que a música gravada teria o sucesso que apresenta já há várias gerações. Desse quadro, advém a constatação de que o impacto que ela possui hoje não era claro nos primórdios enquanto representação no meio social. Inclusive há autores, como Claude Chastagner (2012:126), que sustentam o aspecto de que Thomas Edison, o inventor do fonógrafo, considerava que sua invenção – de 1877 – só poderia servir para gravar e reproduzir vozes.

Entretanto, o extenso uso de tal aparelho – popularizado como o famoso “toca-discos” – abriu novas possibilidades de utilização comercial do som. E isso representou nas classes populares dos Estados Unidos, país com expressiva presença na cultura do mundo, um testemunho forte da transformação progressiva dos modos de produção no século XX. Essas mudanças terminaram por significar a passagem da economia artesanal para uma massificação industrial. E não somente lá, como será possível ver depois.

Assim é que a primeira metade do século passado tem como uma das marcas o crescimento da música popular americana. Isso ocorreu devido ao poder midiático da produção hollywoodiana, Meca do cinema e de linguagens a ele relacionadas, situada em Los Angeles e delimitadora de ícones ainda atuais em todo o mundo. Portanto, em meados dos anos de 1950, logo: período pós-guerra, a música ali produzida passa a ter novos impulsos de popularidade. Dessa forma, produtores e compositores do chamado mainstream daquele momento miraram efetivamente o mercado consumidor.

A partir daí, conectada ao universo das paradas de sucesso, a música da época se estabelece enquanto ideias de progresso, movimento e independência, rechaçando convenções e hierarquias tradicionais. Entretanto, ao fim e ao cabo, ela também trouxe a euforia da compra e dos princípios da moda, satisfazendo o fetiche do consumo e o gozo, inclusive de ordem sexual.

Reside nessa estrutura o chamado american way of life, que potencializa um estilo de viver livre, mas que traz embutido em sua ideologia esquemas mercadológicos. Em tal contexto, compreendendo que muitas vezes “el deseo no es espontáneo, debe ser mediatizado” – como sustenta Chastagner (2012:128), os meios de comunicação passaram a criar e a orientar a vontade de consumir, interferindo de forma cada vez mais acentuada na vida das pessoas.

Sobre essa conjuntura, Luciano Miranda, no livro em que avalia o campo da comunicação em torno das considerações de Pierre Bourdieu, sustenta que:

O sistema cultural formado pela cultura de massa é constituído por um conjunto de mitos, valores, símbolos, associado tanto à vida prática como ao imaginário coletivo. Este sistema convive com outros nas sociedades contemporâneas, que são realidades policulturais em que a cultura de massa interfere (2005:24).

Aprofundando a análise e trazendo luz ao texto, importa destacar que o rock – em determinado período inicial intitulado “rock and roll” – se estabeleceu nos Estados Unidos em meados do século XX. De tal modo, num cenário pós-guerra de urbanização crescente, e com intensas mudanças nas maneiras de aproveitar o lazer, cresceu uma cultura jovem global. Nesses termos, o rock terminou por se firmar como símbolo de uma juventude moderna, tendo ascendência no mundo todo e transformando o mercado da música popular.

Eric Hobsbawm (1995:283) comenta em torno desse quadro de fortes mudanças. Na obra “Era dos Extremos: o breve século XX – 1914-1991”, o historiador britânico afirma que: “para 80% da humanidade, a Idade Média acabou de repente em meados da década de 1950; ou talvez melhor, sentiu-se que ela acabou na década de 1960”.

Por sua vez, séculos antes, a formação da linguagem em foco remete às tradições musicais de tribos africanas, inclusive com padrões da música clássica europeia do século XVIII, como sustenta Friedlander (2003:23). O mesmo autor afirma que, em torno desse caldeirão cultural, há ainda outros elementos que sustentam o pré-rock: o blues, jazz, gospel, rhythm blues, o folk, o country e as big bands.

Tem-se como inquestionável que as primeiras estrelas do rock foram Fats Domino, Chuck Berry, Little Richard e Bill Halley. Com uma produção misturando elementos das culturas negras e brancas, celebravam o pós-guerra com temas relacionados ao amor, à dança, ao sexo e ao próprio estilo. A seguir surge uma geração capitaneada por Elvis Presley que atingiu ainda mais sucesso comercial. Além do artista nascido em Memphis, aparecem Jerry Lee Levis, Buddy Holy e os Everly Brothers. Essa turma, basicamente formada por brancos, cantava mais o amor entre os adolescentes do que suas tristezas e decepções, e foi “entusiasticamente abraçada pela juventude da época”, como assevera também Friedlander (2002:25).

Após essas duas gerações, ainda nos Estados Unidos, surge a chamada “invasão inglesa”, liderada principalmente por Beatles, Rolling Stones e The Who. Essas bandas potencializariam a linguagem na América, eletrificando a música e destacando letras elaboradas em outras vertentes. Assim, com tal produção, conquistam fãs como Bob Dylan e delimitam as origens da contracultura musical, um movimento de ruptura também definido como a “tradição de romper com a tradição”, como diz Merheb em citação de Ken Goffman e Dan Joy (2012:20). Aliás, em relação a esse ponto, destaque-se que a contracultura estimularia projetos como a Tropicália, no Brasil.

Depois da invasão inglesa, surgem os “deuses da guitarra”: Jimmy Hendrix, Eric Clapton e Jimmy Page entre eles. Esse instrumento passou a ser destaque no rock, significando qualidade para muitas bandas novas. Tal situação propiciou o desenvolvimento do chamado Hard Rock e do seu afilhado direto, o Heavy Metal, além de outros gêneros a seguir. Mas isso é assunto para outro texto…

O fato, é que a geração rockeira de meados dos anos 60 passou a ter uma visão mais crítica em relação à sociedade ocidental e suas práticas comerciais; assim, questionou as diferentes formas de capitalismo, ajudando a redefinir a linguagem, bem como as letras e a cultura no contexto. Isso ocorreu por um tempo, haja vista que, como afirma Chastagner em La Cultura del Rock (2015): “la capacidade de la novedad para engendrar conmociones estéticas o concientizaciones políticas se atenúa con rapidez”…

Ou seja: os jovens dos anos 60 não quiseram saber do que consideravam obsoleto. E em torno de uma “modernidade libertária mercantil” consomem seguidamente, descartam rapidamente e seguem numa espécie de febre consumista. Esses foram tempos em que o rock se encontrou com a “pop-art”, um fenômeno internacional que afetou a imagem, a música e outras linguagens, entrecruzando falas e colocando tudo num caldeirão midiático ao mesmo tempo local e global. Por conseguinte: a indústria cultural cada vez mais massificada…

Nessa conjuntura, é imperativo compreender os mecanismos que vinculam o rock ao sistema capitalista e à cultura popular. Portanto, analisar as diversas maneiras em que uma canção adquire significados mercadológicos passa pelo artista e os processos de produção, pela indústria fonográfica e a tecnologia do momento. Tudo isso, historicamente, foi condensado num disco e lançado como produto. Em tal quadro, esse material surge num contexto impregnado por determinadas condições sociais, as quais moldam sua recepção.

Além disso, dois assuntos presentes potencializaram a conexão do rock ao mercado: o amor e a rebeldia, temas eternizados por diversas manifestações artísticas e, portanto, sem definições temporais e nem fronteiras de estilo. Afirma-se isso se observando a maneira como circulam. Ou seja, o que se anuncia neste ponto remete à conexão que possuem com os padrões e valores vigentes na contemporaneidade, o que inclui a juventude/adolescência e suas vinculações com uma percepção comunitária.

Como sustenta Friedlander, em relação ao primeiro item:

Nos anos 50 e de novo nos 70, adolescentes foram o alvo principal do rock. Não é surpresa, portanto, que o amor – e seu irmão siamês, o sexo – fossem as principais preocupações da música. Estudos sobre as canções mostram que 67 por cento dos hits clássico dos anos 50 (…), 65 por cento de uma amostra de hits de 1966 (…), e 69 por cento dos primeiros lugares nas paradas de sucesso no começo dos anos 70 (…) foram canções de amor. (2002:19)

E o mesmo autor em relação ao segundo:

Muitos jovens dos anos 50 viam no rock and roll uma expressão de rebeldia e de uma inquietude crescente contra a perceptível rigidez e banalidade de uma época dominada por políticos republicanos conservadores e pela musicalidade de Mitch Miller. O rock and roll lhes deu um senso de comunidade (…). (2002:46)

Chastagner, por sua vez, analisa a rebeldia presente no léxico do rock nos anos de 1950:

Um nuevo vocabulário se afirmaba: protesta, revuelta, rebelión, ruptura, emancipación, cuestionamento; vocabulário que reflejaba un estado de ánimo diferente, cuya emergencia parecia ligada a la revolución musical (2015:26).

Obviamente que uma linguagem tão rica e transgeracional apresenta também outros temas em sua história: ironia, subversão, humor e introspecção dentre eles. E para além do vocabulário, toda a conjuntura citada neste texto e o impacto da linguagem no mundo reforçam a compreensão de que o rock é uma permanente mistura e fusão de multiculturalidade, tradição e vanguarda, possuindo riqueza estética e potência emocional. Em tal quadro, mantém um legado com impressionante bagagem, seguindo vivo e se reinventando enquanto arte e – também – produção dirigida a um mercado-alvo. Pablo Adán está em consonância com esse aspecto, ao sustentar que: “El marketing conforma (…) el processo analítico del rock describiendo um público objetivo, produto e mercado” (2015:279).

Entretanto, particularmente no Brasil, observa-se nos últimos tempos o enfraquecimento do gênero no cenário da música, não sendo o preferido do gosto dos jovens. O que ocorreu está presente com recorrência na grande mídia: canções de fácil consumo relacionadas a estilos como o sertanejo, o pagode, o forró e o funk. E com relação às letras veiculadas, destaque-se que, muitas das vezes, possuem duplo sentido, escancarando uma sexualidade hedonista e volátil.

Tal quadro atinente à linguagem focada e suas conexões mercadológicas foi expandido por pensamentos convergentes, os quais podem ser analisados a partir da Globalização, processo concretizado na aproximação dos mercados financeiros dos países. Contemporaneamente, compreende-se que esse acontecimento ajudou a massificação do fenômeno das artes – e do rock também, obviamente – na indústria cultural do entretenimento. O resultado: uma forte e visível quebra de fronteiras nos campos artísticos.

Aliás, em torno do aspecto globalizante, apesar das guerras e das crises econômicas, seguem como fundamento a ser perseguido pelas sociedades contemporâneas os ideais de desenvolvimento civilizatório e de modernidade. E há ainda a questão relacional – que afeta a todos – entre a revolução tecnológica e o sujeito pós-moderno: este é independente e produz o seu espaço próprio, mantendo sempre uma janela aberta para o mundo em suas semovências…

No fim, trazendo a análise especificamente para a linguagem em foco, leitmotiv deste texto, resta a percepção de que há elementos positivos e outros nem tanto – depende da visão de cada um – na importante questão entre o rock e as prescrições mercadológicas historicamente existentes – e nas quais ele bebeu e se beneficiou. Se bem que, retomando os Rolling Stones: It`s only rock´n´roll (but i like it)…

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ADÁN, Pablo. Em: Rock Marketing: uma história del rock diferente. Ciudad de México: Alfaomega Grupo Editor, 2015.

CHASTAGNER, Claude. Em: De la Cultura Rock. Buenos Aires: Paidós, 2012.

FRIEDLANDER, Paul. Em: Rock and Roll – uma história social. Rio de Janeiro: Record, 2002.

HOBSBAWM, Eric. Em: Era dos Extremos: o breve século XX, 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

MERHEB, Rodrigo. Citação de GOFFMAN, Ken e JOY, Dan. Em: O Som da Revolução: uma história cultural do rock – 1965/1969. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012.

MIRANDA, Luciano. Em: Pierre Bourdieu e o campo da comunicação – por uma teoria da comunicação praxiológica. Porto Alegre: EDIPRUCS, 2005.

Carlinhos Perdigao

Carlinhos Perdigao

Carlinhos Perdigão é arte-educador, músico, produtor cultural, professor de língua portuguesa da Faculdade Plus e da UNIQ – Faculdade de Quixeramobim. É autor do livro “Fragmentos: poemas e ensaios” e do disco “Palavra”. Tem formação em Letras e Administração, com pós-graduação em Gestão Escolar. E-mail: [email protected] Site: carlinhosperdigao.com.br

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