O Processo de Kafka, por Alder Teixeira

Como uma personagem dos pesadelos de Kafka, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva percorreu mais uma vez, esta semana, os corredores do Tribunal. Os que conhecem a obra do escritor tcheco, nascido em Praga em 1883, sabem do que estou falando. Por dever de ofício, no entanto, tentarei ser claro para os que nunca leram obras como A Sentença, Na Colônia Penal e, principalmente, O Processo, algumas das páginas mais luminosas sobre a injustiça entre os homens.

 

Os dois primeiros, ambos de 1916, tratam, respectivamente, da condenação sem causa e do cumprimento injusto da pena estabelecida pelo Tribunal. Mas é o terceiro que se pode considerar a obra-prima de Franz Kafka.

 

O romance narra o martírio do bancário Josef K., retirado do convívio social em função de um processo marcado por contradições e absolutamente inconsistente do ponto de vista legal. Preso, portanto, sem provas que o justifiquem, K. é julgado por motivos que ignora e, finalmente, executado. O livro é tomado como referência em cursos de Direito, e rendeu, de que me lembro, duas obras-primas do cinema.

 

No estilo enxuto e cru que é mesmo uma de suas marcas, o texto de Kafka começa assim: “Alguém devia ter caluniado a Josef K., pois sem que ele tivesse feito qualquer mal, foi detido certa manhã. […] Imediatamente bateram em sua porta, e no dormitório entrou um homem ao qual K. jamais vira antes naquela casa. Era um tipo esbelto, porém de aspecto sólido, que vestia um traje negro e justo, o qual, semelhante a uma roupa de viagem, apresentava diversas pregas, bolsos, abas, botões e um cinto, que emprestavam à veste um ar estranhamente prático sem que, porém, pudesse estabelecer-se claramente para que serviriam todas aquelas coisas.”

 

A partir daí, sustentando-se em delações vagas, imprecisas, invariavelmente marcadas por contradições, cuja verdadeira razão de ser nem mesmo ao leitor é dado conhecer em profundidade, posto que o livro constitui uma metáfora do desespero humano e sua impotência ante a injustiça inelutável de que é vítima, tem início o processo que serve de título à obra atemporal de Franz Kafka.

 

Lembrei do livro ao ver, ontem, na TV, as imagens do interrogatório de Lula. Acompanhei a sua angústia, a sua impotência diante do discurso autoritário da juíza Gabriela Hardt,  como a cumprir, ela mesma, seu papel na farsa de um julgamento para o qual, desde muito cedo, todas as cartas estão marcadas. Não era o discurso de Hardt um “discurso de autoridade”, para me valer da teoria de Mikhail Bakhtin, aquele que se abre para o contraditório e para a interpretação criadora de outros contextos, nas palavras felizes do pensador russo. O discurso da juíza Grabriela Hardt era o “discurso autoritário”, fechado, unilateral, vinculado a um interesse externo, ao dogma político dominante, como a impor nossa relação ideológica com o mundo:  —  “Isso é um interrogatório e se o senhor continuar nesse tom comigo, a gente vai ter problema!”

 

No parágrafo com que desfecha seu livro sempre atual, Kafka descreve os derradeiros instantes de Josef K., o pescoço entregue à impiedade de seus algozes: “… as mãos de um dos senhores seguravam a garganta de K., enquanto o outro lhe enterrava profundamente no coração a faca e depois a revolvia ali duas vezes. Com os olhos vidrados conseguiu K. ainda ver como os senhores, mantendo-se muito próximos diante de seu rosto e apoiando-se face a face, observavam o desenlace. Disse:

— “Como um cachorro!  —  era como se a vergonha fosse sobrevivê-lo”.

 

As palavras de Lula, ao final do depoimento, ontem, lembraram-me as de Josef K.:  —  “Eu me considero um troféu que a Lava Jato precisava entregar!”

 

 

 

 

 

 

 

Alder Teixeira

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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