O perigo está nos olhos que se fecham, por Heliana Querino

Recentemente escrevemos que o fascismo já não apresenta as mesmas caraterísticas de quando surgiu na Europa, entre as duas guerras mundiais. Hoje até aparenta que respeita as “regras democráticas” e finge que não busca um controle totalitário do Estado. Pode ser que até o Trump, caso perca as próximas eleições e não se reeleja, aceite a derrota sem planejar algum golpe na sólida democracia ianque para se manter no poder. O mesmo discurso vale para os governantes populistas europeus, apontados por muitos como “fascistas”, Salvini, na Itália, e Orbán, na Hungria, por exemplo.

No Brasil, como em outros países latino-americanos, a situação poderia ser diferente. Em cada país, as classes dominantes mostraram, até recentemente ou até hoje, determinação para defender os seus privilégios, desprezando as regras “democráticas” que eles mesmos estabeleceram. Assim, no Brasil, uma justiça independente não parece existir. Bolsonaro já fez declarações que vão muito além das afirmações de Trump ou dos populistas europeus.

Mas não é apenas uma questão de mecanismos institucionais. O perigo não está somente nas ações de um governo, no que ele faz ou deixa de fazer, mas também no que ele permite, no que ele deixa fazer. O perigo está nos “olhos que se fecham”. Isso é ainda mais real na situação atual: o novo governo não é o resultado de um golpe clássico. Se fosse assim, diriam: é uma pequena minoria que impõe este governo ao povo. São os milionários, são os Estados Unidos, são os militares. O povo é vítima deste governo, não tem culpa, e no final o povo se libertará dessa opressão. Mas, infelizmente, é pior: foi uma boa parte da população que votou em Bolsonaro, conhecendo e aprovando o programa dele (ou a falta de programa dele), que se atribui a missão de “dar um jeito no país”, “salvar nossa nação”. Bolsonaro foi eleito com 55,1% dos votos válidos. Como os americanos que votaram em Donald Trump e que, ainda nas eleições desta última semana confirmaram que não estavam enganados, pelo contrário, eles desejam exatamente a política do presidente. Ou então, o caso da Itália, onde o vice-premier Matteo Salvini, o chefe do partido da extrema direita chamado Liga, dobrou o seu consenso nos últimos meses com sua política anti-imigrantes.

Estes governos revelam, infelizmente, a orientação real de uma parte da população. Uma parte que quer segurança a qualquer preço, o “direito” de defender-se com armas, respeito absoluto da propriedade privada, o retorno da ‘família tradicional’, luta contra os pobres, demolição do Estado social, determinando como “presentes para os pobres preguiçosos” a permissão de fazer tudo aquilo que gera lucro, sem se dar conta das consequências ambientais e sociais. Agora, o risco é que essa camada da população, mesmo sem atender leis e permissões explicitas, vai pôr em prática, no cotidiano, o seu projeto: policiais que atiram em qualquer um que julgam delinquente… E são condecorados por atos de tortura, fazendeiros que atacam com bandos armados os que ocupam as terras que um tribunal corrupto atribuiu a alguns destes, jovens ricos que batem ou queimam gays ou mendigos na rua para “se divertir”, ou insultam mulheres que largaram seus maridos agressivos.

Heliana Querino

Heliana Querino

Heliana Querino - jornalista, pesquisadora, Pós- graduanda em Escrita Literária educomunicadora e colunista do Segunda Opinião.

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