O pecado original

Há quem considere Bolsonaro como a causa de todos os males do tempo presente. Mas existem aqueles que nutrem a concepção segundo a qual ele é expressão de uma visão anterior, existencial autoritária, violenta e preconceituosa, encontrada desde a origem do processo de formação da sociedade brasileira, presente na mente de grande parte de suas elites, bem como em frações de suas classes subalternas submetidas à lógica cultural dominante europeia, colonialista e escravista.

Mesmo sabedores de sua biografia de desequilibrado, desde o tempo da caserna, e diante de uma campanha eleitoral notadamente irascível e intolerante, disparando discursos de ódio para todos os lados, mais da metade dos eleitores, em 2018, notadamente concentrados nas regiões sul, sudeste e centro-oeste do Brasil, conduzidos pela orquestração das forças das Armas, da Religião, da Mídia corporativa, do Agro e do Dinheiro, elegeram-no presidente.

Não há vida política sem lado. Ter lado acarreta consequências em virtude da escolha preferida.  Mais do que pertencer a um partido, em política é preciso tomar partido sobre os diversos temas que pautam a vida real das pessoas e grupos. Política não se reduz nem se confunde com uma tese acadêmica ou com especulações metafísicas. Política requer o estabelecimento de agendas que visem responder às demandas das populações por direitos: educação pública, saúde pública, segurança pública, direitos trabalhistas, distribuição da riqueza produzida socialmente, valorização do salário mínimo, liberdade de pensamento e de imprensa, reforma agrária, valorização da agricultura familiar, soberania nacional, combate à fome etc. Portanto, é preciso agir com sinceridade. Como diz o ditado popular, “a mentira tem pernas curtas”.

E o que se viu neste sete de setembro de 2021? Mais uma vez viu-se a atuação da mentira: um presidente a mobilizar sua base eleitoral, concentrando-a em Brasília e São Paulo, utilizando-se de financiamentos não declarados, para pautar temas apenas de interesses pessoal, familiar e corporativo, alimentando o clima de caos por ele produzido e pelas forças políticas que o apoiam nesses quase três anos no poder.

Logo no início do desgoverno bolsonarista, em 11 de janeiro de 2019, por ocasião de sua despedida do Comando do Exército, o general tuiteiro Eduardo Villas Bôas escancarou em seu discurso o projeto político em curso defendido por ele e pelo seu partido fardado. Afirmou que “a nação brasileira festejava os sentimentos coletivos que se desencadearam a partir da eleição de Bolsonaro”.  Pergunta-se: que sentimentos seriam? A exacerbação da violência, da discriminação, do autoritarismo, da subserviência ao poder estadunidense, da perda da credibilidade internacional do Brasil, do desmonte do patrimônio público, da propagação indiscriminada de fake news, do descaso pelas pautas populares, da insensibilidade diante da miséria a que o povo brasileiro está submetido, com um botijão de gás custando mais de 10% do salário mínimo?

Para o general tuiteiro, no Brasil, há um novo “Rio da História”, cujos timoneiros são Bolsonaro, o general Braga Netto e o ex-juiz declarado incompetente Sérgio Moro (codinome Russo no submundo jurídico). Ou seja, o autoritarismo da Espada, do fundamentalismo da Lei e do cultivo da Violência, por meio do exercício da mentira e da imposição do medo, contra qualquer tipo de oposição democrática e libertária, na busca pela verdade dos fatos. Eis, neste discurso, um ponto fulcral, medular, para entendermos como o projeto golpista originário foi pensado e executado.

Se voltarmos um pouco mais no tempo, iremos encontrar algumas manifestações anteriores a estas, mais precisamente em 12 de abril de 2011, ou seja, no início do primeiro governo Dilma Rousseff, após a terceira derrota consecutiva do PSDB na eleição presidencial, num texto intitulado “O papel da oposição”, de autoria do tucano Fernando Henrique Cardoso (PSDB – SP).

No texto, ele afirma: “Seres humanos não atuam por motivos meramente racionais. Sem a teatralização que conduza à emoção, a crítica – moralista ou outra qualquer – cai no vazio. Sem Roberto Jefferson não teria havido Mensalão como fato político”. Importante para ele, portanto, não é o conteúdo, se verdadeiro ou falso, mas a intensidade da forma. FHC complementa essa sua asserção, apontando que uma imensa maioria de pessoas, apesar de não ser filiada a partidos políticos, está fortemente conectada às redes midiáticas sociais. São para esses grupos de pessoas, segundo FHC, que a oposição ao governo Dilma Rousseff deveria dirigir prioritariamente suas mensagens. Estava sendo dado, portanto, o norte para um tipo de ação comunicativa subterrânea, longe das luzes da esfera pública, muito bem anotado pelo psicanalista Tales Ab’Saber, fomentando uma guinada conceitual da direita mais à direita, inclusive abraçada e levada adiante pelo PSDB. (AB’SABER, Tales. Dilma Rousseff e o ódio político. São Paulo: Hedra, 2015).

E é assim que o Brasil chega a 2014. Com Carlos Sampaio (PSDB – SP) questionando, enquanto advogado do seu partido, a credibilidade da urna eletrônica. Aécio Neves, na primeira semana de novembro de 2014, declarando numa entrevista ao jornalista Roberto D’Ávilla (Globo News) que “havia perdido a eleição para uma organização criminosa”. Com a Lava Jato, comandada por Moro e Dallagnol, agindo como o braço jurídico do golpe em andamento, sob o olhar conivente do TRF-4 e do STF. Com a Rede Globo pautando diariamente, em tempo integral, a teatralização midiática sobre os corações e mentes da opinião pública, conduzindo-a a fortes emoções odiosas contra o PT e contra o presidente Lula. Com Eduardo Cunha, “o homem das contas na Suíça”, denunciado pela PGR, conduzindo as pautas bombas na Câmara Federal. Com a Fiesp e o seu Pato Amarelo, em conluio com MBL e Vem pra Rua, aumentando a temperatura emocional das ruas. E com Temer, ao lado de Etchengoyen, regendo o complô. (ALMEIDA, Rodrigo. À sombra do poder. São Paulo: Leya Brasil, 2017).

Como se vê, Bolsonaro não é tão original assim.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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