O amor insolúvel na água, por HELIANA QUERINO

Uma professora de 25 anos lava as cartas de amor numa bacia de porcelana branca. O namoro com o aluno de 19 anos chegou ao fim. A água na bacia, repentinamente, agora é azul piscina. As folhas das cartas viram papinhas molhadas e as letrinhas se dissolvem na água. (março de 1970)

Esta história de falar ou escrever sobre “amor” me parece quase impossível. Nenhum assunto no mundo incita tanto a imaginação humana. Até podemos viver sem amor, mas não podemos viver sem pensar no amor, sem falar dele, sem questioná-lo.

Para início, cito um dos livros mais famosos sobre o assunto, A Arte de Amar, de Erich Fromm (1900-1980). Psicanalista e marxista alemão, refugiado nos Estados Unidos após sair da Alemanha nazista. Em 1956 publicou The Art of Loving, o livro fez muito sucesso. Erich Fromm distingue estes tipos basilares do amor: amor ao próximo, amor materno, amor erótico, amor próprio, amor de Deus. Mas vou me contentar por enquanto e falar do amor no sentido mais comum, o amor erótico.

Na evidente impossibilidade de definir o amor, olhamos para o que comumente é chamado “amor”:

Um casamento de 50 anos ou viver um romance de uma noite;

Olhar todos os dias para o vizinho ou a vizinha na janela em frente, sem jamais falar e nem mesmo saber o nome;

ou ainda ser um sedutor ou uma sedutora em “série”;

Encontrar alguém, se separar e depois escrever cartas de amor semanais, durante dez anos anos, antes de se casarem e ficar juntos e “felizes para sempre”;

ou ir morar juntos apenas três dias após se conhecerem. E casar. E depois de três meses, o divórcio.

Fazer amor no elevador, roubar um beijo fugaz na escada depois lerem juntos poemas de Villon – “morro de sede junto à fonte desejada”…

Oferecer uma rosa à moça desconhecida, embora saiba, nunca mais vai encontrá-la; ou aprender pilotar um helicóptero para libertar o marido que espera a esposa no telhado da prisão.

Uma das problemáticas quando falamos de amor é a frequente confusão entre duas coisas distintas: em princípio, o desejo, o desejo sexual que tem claramente bases biológicas e pulsionais. Por outro lado, uma forma de benevolência com outras pessoas – uma atitude bem mais social e cultural. As duas emoções não coincidem, necessariamente. Pode-se desejar alguém sem a mínima benevolência – o caso extremo é o estupro (infelizmente). E podemos também ter sentimentos benevolentes com outras pessoas sem o mínimo desejo sexual. A amizade, a fraternidade, a afeição entre pais, filhos e irmãos entram nesta categoria.

E o Amor com A maiúsculo, falamos quando esses dois sentimentos coincidem – eu te desejo sexualmente e te desejo o bem, eu me acalmo quando “você entra em mim como o sol no quintal”, minha angústia passa, o desejo permanece e o sentimento de benevolência também. Mas isso acontece com menos frequência do que podemos imaginar. Muitas paixões começam com o desejo e depois se descobre o quanto é difícil viver juntos, sem a base da amizade, da fraternidade, da compreensão… E como suportaríamos ver, como melhor amigo, todos os dias, a pessoa amada?

A pulsão não é suficiente: é preciso uma dose extra de boa vontade.

É claro que as duas lógicas nem sempre coincidem: principalmente, o que chamamos “amor”, quase sempre exige uma exclusividade. O ciúme parece algo maior do que muitos de nós, apesar das milhares de tragédias. E no caso de uma pessoa muito ciumenta, podemos sim questionar se o que existe é verdadeiramente sentimentos benevolentes para com o seu par. Duvido, pois o ciumento parece mais interessado na própria “honra”, na própria tranquilidade, no sentido de propriedade, do que na felicidade do outro.

Na amizade, é o contrário, a pretensão de exclusividade, o ciúme, é considerado problemático e patológico. A amizade é mais “civilizada”, precisamos de um certo controle sobre nós mesmos, abandono do próprio egoísmo e narcisismo.

Em novelas, filmes, romances, vida real, sempre existem pessoas ou personagens que desejariam viver com seu amor numa ilha deserta. Somente ela, a pessoa ou “vítima” e a ilha, porque aquele outro ser representa para elas, o mundo inteiro, representa tudo o que desejam no mundo, o sentido da vida. Um nível elevado de amor: o amante afirma que o amado vale mais que todo o resto da existência.

Mas isso é amor de verdade?

A vida humana só é rica quando dispõe de uma consistente rede de relações sociais diferenciadas. Os que negam isto são pessoas que sofreram muitas decepções, por vezes, devido às próprias expectativas.

O “amor romântico” nunca teve tanta importância na vida das pessoas, ou nunca esteve tão na moda, em todas as classes sociais, quanto agora… (Antigamente, o “Amor” era acima de tudo, um privilégio dos ricos que não necessitavam passar o tempo todo batalhando a vida para ganhar o pão de cada dia).

Muitos dizem ser o amor mais importante que dinheiro, o poder, ou o sucesso social. O amor está posto como a verdadeira finalidade da vida, o parâmetro para decidir se uma vida é feliz ou não. Enquanto outros tentam consolar a inveja das celebridades, imitando os seus amores fugazes …

Agora, imaginemos a sociedade onde o amor tem papel central na vida individual e social. Será que funcionaria? Ou diante da frequente impossibilidade de realização do “amor perfeito” nasceria a insatisfação permanente, o “descontentamento descontente”, e ainda uma provável sensação de ter falhado na vida, de inadequação e a necessidade infinita de  continuar buscando. “Amor Líquido”, para lembrar Zygmunt Bauman, o “amor” não constituía a única base do casamento, ou de um casal, e era quase normal o amor diminuir, o que não significava uma razão suficiente para separação, pois existia outros pontos em comum.

A pretensão é que a existência do amor erótico seja presente em cada momento na vida de um casal. Um comportamento bem romântico, mas na realidade, assim, se torna muito difícil manter a durabilidade dos casamentos. Talvez por isso, muitas vezes, a fragilidade das relações temporâneas, que duram somente até o primeiro arrefecimento da paixão, até a aparição – inevitável – da rotina. Depois, ou o casal se separa, ou continua, mas com uma sensação de fracasso.

Que fique claro, isso não significa culpa de uma das partes, é  muito mais uma consequência do triunfo do amor sobre as demais formas de conexão social. Os vizinhos, o bairro, os colegas de trabalho, a família, os amigos: a importância de todas estas formas de vida social diminuiu nas últimas décadas. Fica somente o amor romântico. E ainda mais com a missão de proporcionar toda a satisfação existencial, o calor humano, a segurança emocional, que antes eram oferecidos por formas variadas de vida social. O resultado: expectativas exageradas sobre o amor – o príncipe encantado, a mulher perfeita… Os casais, então, buscam preencher as lacunas impreenchíveis deixadas pela diminuição das outras afeições. É impossível alguém entrar numa relação amorosa e esperar que o outro satisfaça tantas expectativas, mesmo com toda a boa vontade. E aqui o amor fica em perigo, corre o risco de morrer por conta de seu próprio triunfo.

Meu Deus! falando assim, até parece que sou uma pessoa fria ou desacreditada do amor! Justo eu, romântica confessa, e se uma vez morri de amor foi pelo indescritível prazer de um dia ressuscitar em outro. Amo os casais e as histórias de amor romântico – Marília e Dirceu, Tristão e Isolda, Romeu e Julieta, Helena e Páris, Virgulino Ferreira Lampião e o feitiço atrativo da mulata da terra do condor… E a história mais encantadora, a de que me apropriei dela e fiz até registro em cartório.

  • Por que a senhora não rasgou as cartas?

  • Oxe, alguém que soubesse ler podia juntar os pedacinhos e descobrir o que estava escrito.

  • E porque não queimou no fogão de lenha?

  • Não queimei as cartas porque doía no meu coração, eram nossas cartas de amor!

Amor é fogo que arde sem ver…

No calor do sertão, fazia frio no coração da professora. Lavar as cartas doía menos… Passados dez minutos, o aluno de 19 anos foi até a casa dela: não posso viver sem tu, professora.

Eles casaram em dezembro de 1970, fizeram umas traquinações e tiveram um bocado de “mininim” e menininhas malinas. Ontem eu liguei pra ela e disse, mãe repete aquela história das cartas de amor de mãe e papai.

De novo minha filha!?

É, mãe, porque o amor pode ser um querubim ou cão de fogo, apego ou de desapego, mas nem sempre o AMOR se dilui na água.

 

Heliana Querino

Heliana Querino

Heliana Querino - canivete suíço, jornalista, pesquisadora, educomunicadora, coordenadora de Cultura e colunista no SegundaOpinião.jor

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