Foto da biblioteca da autora

Notícias do interior de minha biblioteca

Um livro não é um enfeite, um bibelô, seja um clássico – regional ou estrangeiro -, seja um drama barroco – alemão ou nordestino -, ele deve servir; ou seja, ser lido”

Quando eu era mais jovem, meus livros encontravam espaço em uma pequena prateleira.  Quinze romances, quatro ou cinco obras de filosofia, poucos volumes de poesia, algumas obras históricas, HQs e revistas. A lista telefônica (que existiu por muito tempo!) naturalmente estava em outro lugar, assim como os livros didáticos de minha mãe (professora).

Depois de alguns anos construindo minha biblioteca, ainda compro muitos livros (mas não todo mês, a menos que seja especial), pois não sei mais onde colocá-los – apesar de agora ter uma casa maior (considerando-se que moro só), os livros se multiplicam misteriosamente. Você compra uma coleção aqui, você compra outra acolá, você “herda” de alguém, e com o declínio das publicações impressas, livros em segunda mão, mais acessíveis, especialmente quando são volumosos (enciclopédias, História da Arte, dicionários) tento até disfarçar a minha preferência pelos livros “novinho em folha” que tem o mesmo cheiro delicioso de “café com pão”. Não é que eu seja “rica” agora (risos); entretanto, não é o preço que me impede de comprar livros compulsivamente, mas a questão do espaço.

Em contrapartida, esta retenção não é suficiente: hoje, muitos livros chegam pelos correios: obras de amigos e conhecidos, ou livros dos quais os autores ou editores gostariam de ver resenhas publicadas. E eu preciso afirmar que amo demais esta “desobediência livreira” que insiste em me acompanhar e dá sentido à minha existência.

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Por que esta massa crescente de papel impresso deveria me angustiar? Não sou alérgica aos livros, e meus gatos aprenderam a conviver com eles. Além disso, não sofro do mesmo problema que alguns existencialistas: uma espécie de terror metafísico com o pensamento de sua “finitude”. No meu caso, nem ouso fazer o cálculo, seria impossível. Mas é óbvio que para ler todos – e não gosto de ler “diagonalmente” ou muito rápido — me levaria várias vidas.

No domingo, enquanto eu reorganizava mais uma prateleira, entre lidos e não lidos, tive que por alguns livros empilhados na horizontal, esteticamente não gosto, mas ganhei espaço. E foi bem nessa hora que Jane Austin me encarou e queixou-se para mim — “Meus sentimentos são raramente partilhados e quase nunca compreendidos.”

— Jane… Jane, perdoa-me, é que hoje já me ocupei com Virginia Woolf, Eagleton e Calvino…

Pensando bem, é impossível olhar para a minha biblioteca sem pensar na brevidade da vida, mesmo que eu não seja (ou pense não ser) afeita ao cálculo dos existencialistas. Em uma biblioteca pública, embora maior, não sentiria essa vertigem, porque não escolhi os livros que lá estão, e depois, porque é bem possível que outras pessoas os leiam, por mais interessante que seja imaginar quantas daquelas obras nunca serão abertas, lidas ou emprestadas. Mas aqueles livros que se compram para uma biblioteca particular, aqueles favoritos, são obtidos com a intenção de realmente lê-los, cedo ou tarde. Caso contrário, para que servem? Deixemos aos ignorantes a tarefa de encher as prateleiras com volumes encadernados apenas para se darem uma falsa aura de cultura (se bem que, pode-se comprar livros falsos para este fim).

Um livro não é um enfeite, um bibelô, seja um clássico – regional ou estrangeiro -, seja um drama barroco – alemão ou nordestino -, ele deve servir; ou seja, ser lido.  Mas de onde vem o prazer masoquista – ainda assim, comum, entre as pessoas cultas – de aumentar continuamente este Memento Mori?

Muitas vezes me parece que os livros me olham com ar de reprovação, como se dissessem: —Heli, por que você não me lê? Você me comprou, estava toda feliz no dia da compra, me colocou na prateleira, e agora me deixa aqui por anos sem sequer um olhar? Você prefere outros livros, possivelmente comprados depois de mim? Aquele pacotinho que chegou pelos correios? Aquela caixinha de mais uma ida à livraria? Você pensa que eu não vi sua carinha de felicidade tirando do embrulho e cheirando cada um? E este plástico que me envolve, você não tem vontade de rasgá-lo, me ler por dentro? Conhecer a minha alma? Ora, por que você não me entrega a alguém que talvez me aprecie um pouco mais? …

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Em divertidas conversas com outras pessoas, ou para escrever resenhas, posso até fazer de conta que não escutei o chororô dos meus “não lidos”, e usar dos conselhos úteis deste irônico e delicioso livro: Como Falar dos Livros que Não Lemos?  (Pierre Bayard). Mas diante de mim mesma, não posso fingir. Sei muito bem que poucas vezes abri estas obras de Gogol e que parei na página vinte da História da China Antiga. Se me apaixonei pelo Romance da Pedra do Reino, sequer abri o Romance do Dom Pantero no Palco dos Pecadores. Se li e reli O vermelho e o Negro, Clarice, Clarissa e Adélia, li apenas três livros de José de Alencar. O que fazer!? Se eu não tenho certeza de viver alguns séculos para terminar minha biblioteca (sem contar as releituras muitas vezes necessárias), eu tenho apenas a opção de fazer uma seleção. Mas qual?

Sempre optar pela última compra vem de forma bastante natural… e certamente não é uma boa solução.

Eu deveria escolher os livros mais importantes, aqueles que quero ter certeza de ter lido, de um amigo próximo, de um autor distante… É claro que tenho meus gostos, há meus autores e autoras favoritos e há livros que começo a devorar mesmo antes de chegar em casa da livraria. Ora, se eu sempre me deixar levar pelos desejos do momento, então, a velha edição de Cervantes, as Confissões de Santo Agostinho no fundo da prateleira, arriscam ficar esquecidas para sempre diante de novidades mais sedutoras. É como dizer: — “Desculpe, vovô, queria visitá-lo no domingo, mas fui convidada para uma festa na praia”. Temos mania de pensar que sempre haverá tempo para ler todos os clássicos, que eles “não fogem” e nunca esqueceremos o quanto desejamos lê-los, enquanto outros livros, uma vez colocados na prateleira e não mais na mesa de cabeceira, provavelmente serão esquecidos por gerações.

No entanto, penso que deveria favorecer os livros considerados “clássicos”, aqueles que autores como Italo Calvino, Harold Bloom ou Kenneth Rexrod chamam de “livros clássicos” em livros que se tornaram, eles próprios, “clássicos” – sem mencionar as numerosas listas elaboradas por vários meios e instituições (como esta, por exemplo): Os 100 livros do século, segundo  Le Monde ou simplesmente publicando séries de clássicos, como a Bibliothèque de la Pleiade (na França) e a Nova Aguilar (no Brasil).

É claro que eu não leria apenas clássicos, mas dedicaria uma parte do meu tempo de leitura a alguns deles (até porque o número deles, como se queira definir um “clássico”, poderia exceder uma vida humana, e é preciso fazer escolhas…).

Se por centenas ou milhares de anos um trabalho continua a ser apreciado, isto significa “garantia de qualidade”. Julga-se seguro escolher livros que resistiram à prova do tempo.

Então por que estas boas resoluções acabam facilmente como a resolução de se exercitar ou fazer dieta?

Não acho que seja a extensão do tempo, embora muitas vezes seja considerável algumas décadas para passar na “prova do tempo”. Penso que a História da Guerra do Peloponeso de Tucídides é mais útil para entender as guerras de hoje do que muitos artigos de jornal, e aprendo mais sobre dinâmicas sociais, ambição e amor com Stendhal do que com qualquer romance contemporâneo.

Mas há o problema da “utilidade” social e profissional. É difícil propor uma resenha de Machado de Assis ou de Homero a um jornal. Eles sempre querem algo novo, algo fresco. Além disso, as pessoas “cultas” sempre afirmam (fingindo, normalmente) já ter lido tudo. Quando você tem quarenta anos, você “relê” Flaubert ou Camões, você não os lê; seria uma vergonha admitir que você nunca os leu. Se você diz em um ambiente intelectual “Acabo de terminar Guerra e Paz”, eles olham para você con-des-cen-den-te-men-te: “Coitado, aos quarenta anos, você nunca leu…”, embora muito provavelmente o autor da observação também não o tenha lido.

Entretanto, a leitura de um clássico não cria nenhum “mérito” especial na sociedade. Aparentemente você não descobriu nada, você não diz nada de novo a ninguém. Agora, se você acabou de ler um escritor pouco conhecido, que sai de algum canto inesperado, por exemplo das Bahamas ou Istambul, que escreveu um romance inteiro por um aplicativo moderno, tipo “Messenger”, e por este feito, o nome dele começa a circular entre os “insiders”, então você pode atrair muito mais atenção do que com um comentário entusiasmado sobre Hamlet…

Um sentimento contraditório e semelhante me assalta quando entro em uma livraria. Sinto-me, simultaneamente exaltada e desalentada. Exaltada, porque a visão de tantos livros, e de tantos livros recém-publicados, me estimula. E imagino que dentro de algum tempo um de meus livros também estará na mesa das novidades, e que poderei observar outros clientes folheando as páginas (pode ser vaidade minha, mas é uma vaidade perdoável! Quem nunca?). Já me sinto parte da “família” daqueles que têm um livro na livraria. Queria sair correndo da livraria para minha casa, e não fazer mais nada até que eu tenha escrito todas as minhas ideias, editado aquele romance inacabado e todos as crônicas que estão engavetadas.

Imagem da internet: Biblioteca Infinita

Ao mesmo tempo, eu desço deste céu! De início, porque me pergunto se serei disciplinada o suficiente para não fazer mais nada de diferente na minha vida… E lembro-me de ter tido exaltações e explosões de boas intenções semelhantes, sem que elas tivessem se materializado (um pouco sim, mas não da maneira que deveria…). E não basta só ter tempo: devo ainda estar feliz com o resultado! E depois tenho que encontrar uma editora…

E continuo meu diálogo comigo mesma, sobre as notícias do interior de minha biblioteca: se tudo correr bem, outros livros meus e de outras centenas de autoras e autores estarão postos sobre a mesa no próximo ano. E com isso, dezenas de milhares de livros nesta livraria. Muitas das publicações recentes voltarão para a editora porque ninguém as compra. De muitos, somente alguns serão lembrados por muitos anos. E mesmo que os livros meus e de outros autores passassem no primeiro teste e encontrassem leitores, fossem reimpressos e até entrassem no “fundo” da livraria, porque há sempre alguém pedindo por ele – com quantos outros livros o meu tem esse mesmo destino? Uma vez vi um desenho representando uma livraria gigante de vários andares, e ao fundo, um homem minúsculo disse a outro: “Como estou feliz por ter publicado um livro e por me destacar da multidão”!

Me pego pensando como são emocionantes as visitas às livrarias! Eu poderia passar meus dias por lá…

Heliana Querino

Heliana Querino - jornalista, escritora, pesquisadora, coordenadora de Cultura em SegundaOpinião.jor Um cronópio num mundo repleto de Famas. Metade de minha alma tem quinze, a outra, duzentos anos.

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