Música, a fronteira final – por SÉRGIO COSTA

Música: a fronteira final. Estas são as viagens de um (metido a) contista colecionador de CD’s, em sua missão praticamente eterna de explorar novos sons, para pesquisar diferentes harmonias, novas inspirações, audaciosamente indo onde muita gente também deseja ir.

 

Se fosse pedido a você, que cá está lendo e já pensando em suas melodias favoritas, como se traduziria essa arte em sentimentos ou palavras? Como você definiria a música?

 

Veja que, às vezes, é complicado falar sobre algo que se ama. Algo que faz tanto parte de você quanto seu sangue, seus cabelos ou os boletos que chegam todo mês (triste!). Talvez seja tão complicado quanto pedir pra alguém definir o Amor. Ora, mas se música é expressão de sentimentos nobres, então também é amor. Mas se o amor não tem definição, e a música é uma expressão dele, como explicar ambos? Confundiu? Pois é… a mim também!

 

Eu poderia dizer que música é somente algo físico, um fenômeno científico, empírico, calculado. Por um viés puramente matemático, que se pode traduzir em frios números ou equações – o que, nas notas musicais, seriam os intervalos harmônicos, ou mesmo as complexas microtonalidades, ou ainda as fórmulas das escalas maior, menor melódica ou pentatônica. Em se tratando de Física, seria um mero comprimento de onda que atravessa o espaço, cujo meio de propagação é o ar. Uma frequência, um pulso cadenciado, sequenciado e que, de alguma forma, comunica algo a alguém. Sim, comunica verbalmente também se falarmos de música cantada. Porém, acho que seria um pouco demais: a ciência ainda não a compreendeu por inteiro, e até o mais cético ou informado cientista não resistiria a um solo de guitarra apaixonado ou a um minueto inspirado de piano.

 

Eu poderia dizer que música é terapia, e que funciona como meu melhor psicólogo. Que traz efeitos à psique, que faz parte da construção da personalidade ou que desperta o que há de mais profundo em nossos pensamentos, memórias e ações. Que tem caráter filosófico, moral e de identidade. Mas também eu falharia: mesmo os psicólogos se subjugam à majestade dela e a recomendam como auxílio em alguns tratamentos. E mesmo eles também se derreteriam ao apreciar alguma obra lindamente composta por Chopin.

 

Poderia dizer que música é algo extremamente inerente à propriedade humana, sendo moeda de troca fraternal ou até corporal. Que é laço social ou político. Que está comigo tal qual o abraço de um amigo em horas difíceis. Que é tão poderosa quanto o grito por liberdade ou protesto entoado por uma multidão em qualquer país tão escroto quanto o nosso pelo mundo afora. Que é tão carnal e íntimo tal qual o beijo e o toque do ser amado nos momentos mais secretos que me despem de corpo e de medos ou receios, permeando minha intimidade e trazendo prazer inenarrável. Mas mesmo assim, eu falharia: muitas vezes a música está bem além da compreensão humana.

 

Como definir facilmente algo tão intangível, invisível a ponto de precisar ser materializado por um meio? Daí o por quê de falarmos “instrumentos” musicais: para ser tangível, reproduzível, ela precisa de um objeto realizador, algo que a faça ser gerada. E se necessita de ferramenta, é um ofício. E se é ofício, produz um trabalho, que cria valor. Mas qual valor? Acredito que todos os benefícios que falamos até agora: alento, acolhimento, expressão, sentimento, urgência, reivindicação. Amor. Veja o quanto já tentamos defini-la. Parece mesmo uma jornada eterna!

 

Ah, e teve quem levasse bem a sério essa ideia de jornada eterna: ao final da década de 1970 a NASA lançou as missões Voyager, sondas não-tripuladas que ainda viajam pelo espaço e até um tempo recente nos enviavam informações sobre nosso Universo. Ela carrega um disco de ouro que leva mensagens gravadas sobre nosso planeta, com a finalidade de que sejamos “vistos” por alguma civilização interestelar em algum dia nos confins do tempo e espaço. Neste disco, além de diversos códigos, há sons de nosso planeta (da voz humana, de animais, da natureza) e também canções folclóricas de diversos países, bem como música clássica (Bach, Beethoven, Stravinsky e Mozart) e ainda músicas pop como “Johnny B. Goode”, de Chuck Berry. Dizem que, por pouco, “Here Comes The Sun” dos Beatles não entrava na biblioteca do disco interestelar, mas a gravadora não liberou os direitos à época. Que pena: a banda teria realmente ido parar na eternidade se tivessem autorizado.

 

Imagine, então, que há mais de 40 anos, um instrumento (não musical, mas científico) criado pelas mãos do homem viaja a uma velocidade altíssima – já além do Sistema Solar – carregando a nossa história, que em parte é contada pela linguagem da música. As mesmas mãos da raça que projetou bombas nucleares e que também escreveu sinfonias, baladas, óperas e canções de rock imortais e que unem tanta gente a todo instante ao redor deste mundinho azul. O mesmo azul cuja frequência no espectro visível das cores é equivalente à nota Dó – primeira da escala musical. A graça está justamente em pensar: será que um dia seremos ouvidos por alguém lá fora? Será que, quem nos ouvir, entenderá a música? Ou apreciará? Fascinante! Porque aqui, no pálido pontinho azul, a gente não vive sem ela.

 

Música é a fronteira final. E o começo de tudo. E também o meio para a jornada de muita, muita gente. Ela é remédio, expressão e ainda meio de vida. E se falar de tudo isso sobre a música é falar de vida, se for conseguir definir o que ela é por este caminho, talvez obtenha sucesso me agarrando sempre à pétrea frase do imortal Arthur da Távola: “Música é vida interior. E quem tem vida interior, jamais padecerá de solidão”.

Sérgio Costa

Sérgio Costa

Bacharel em Ciências Sociais pela UFC e em Comunicação Social (Publicidade e Propaganda) pela Fanor/DeVry. Publicitário por profissão, guitarrista por atrevimento. Apaixonado incurável por música, literatura, boas cervejas e grandes ideias. Escreve quinzenalmente para a coluna Notas Promissoras do portal Segunda Opinião. . Contato: [email protected]

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2 comentários

  1. Avatar

    jair cozta

    Texto maravilhoso, Sérgio. Teu olhar é sempre divertido, um diálogo estreito com o leitor, prazeroso e de tamanha informatividade.
    Grato.

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