MEU ENCONTRO COM FRANCISCO JULIÃO

No último artigo “O Reino da Terra” (https://segundaopiniao.jor.br/o-reino-da-terra/) destaquei a importância do advogado militante da justiça agrária Francisco Julião junto às Ligas Camponesas dos anos 1960, contribuindo decisivamente para um salto de consciência dos camponeses nordestinos por meio da reflexão e da luta política pela defesa de seus direitos de trabalhadores do campo e produtores de riqueza nacional. Quis o destino que no ano de 1986 eu tivesse um momento pessoal com este personagem histórico. E como isso ocorreu?

No Recife, as associações de moradores de bairro começam a surgir depois da redemocratização de 1945, mais fortemente a partir de 1955 mediante incentivo da administração municipal do prefeito Pelópidas Silveira (PSB). À medida que atuavam, as associações começaram a apresentar reivindicações de melhorias na infraestrutura e nos serviços urbanos. Porém a maior luta era pela posse da terra ocupada, causadora de grandes tensões. Além disso, elas queriam também uma maior participação na vida política do Estado.

Com o Golpe civil-militar de 1964, a cidade do Recife foi palco de fortíssima violência por parte das forças da repressão, em virtude de ser a sede do recém-empossado “bispo vermelho” Dom Hélder Câmara. Sendo assim, as associações de moradores foram imediatamente combatidas pela ditadura que se implantava, muitas lideranças comunitárias foram presas e torturadas, sedes de associações invadidas tendo seus materiais de expediente apreendidos e foram fechadas. Com a repressão política, só sobreviveram aquelas associações de moradores submissas ao Golpe.

Coube à Igreja Católica, com sua ala mais progressista, assumir um papel fundamental no ressurgimento da organização dos movimentos populares de bairro, sob a liderança de Dom Hélder Câmara. Com as históricas enchentes do Rio Capibaribe que penalizavam violentamente milhares de famílias empobrecidas recifenses, em setembro de 1965 o Dom organizou a “Operação Esperança Urbana” com o objetivo de mobilizar a sociedade e o governo para realizar melhorias nas comunidades populares arrasadas pela enchente de junho daquele mesmo ano. Outro movimento também criado por ele, que teve atuação nos bairros, foi o Encontro de Irmãos, iniciado em 1969. Eram realizados encontros de religiosos com a população local com o intuito de discutirem os problemas do bairro sob “a luz do evangelho”. Seus lemas eram “pobre evangelizando pobre” e “trabalhar com o povo”. 

Em 1968, Dom Hélder convidou o Movimento dos Focolares em Recife a dedicar-se no acompanhamento a um território alagado por braço de maré, no bairro de Santo Amaro, denominado por seus moradores por Ilha do Inferno. Aceita a incumbência, os membros dos Focolares foram pouco a pouco conhecendo os moradores daquela região, buscando colocar em comum os talentos profissionais de que dispunham no campo da educação alfabetizadora de jovens e adultos, no atendimento médico, na orientação jurídica, no acompanhamento à juventude, na formação civil e religiosa tendo como centralidade a fraternidade evangélica. Aos poucos, um clima de confiança e respeito se fortalecia nesse relacionamento mútuo.

Nos anos 1970, com a chegada do jurista Hercílio Brito, do engenheiro sanitarista Renato Calábria e do bancário José Francelino, entre tantas outras pessoas, começaram a avançar na organização da comunidade. Após várias reuniões com os moradores, Hercílio Brito apresentou um projeto de estatuto para o conselho de moradores da Ilha. Destaca-se a concepção participativa contida no projeto. Cada rua elegeria por voto direto um representante de rua que teria assento no Conselho da Associação de Moradores. Caberia ao Conselho eleger a Diretoria Executiva, com mandato de dois anos. O primeiro presidente eleito desta diretoria executiva foi Severino Justino (Pinduca). Por outro lado, coube ao engenheiro sanitarista Renato Calábria realizar um mapeamento das necessidades mais urgentes da comunidade. Assim começaram a construção da Escola, depois do Posto Médico, em seguida a construção do Centro de Tratamento de Crianças Desnutridas e de uma fábrica de pré-moldados para poder fazer o trabalho de saneamento básico. Os recursos financeiros foram adquiridos junto a organizações católicas de ajuda internacional. Em razão dessa ação continuada, a Ilha deixava de ser do Inferno para transformar-se, por meio do trabalho e da consciência coletiva, em Ilha de Santa Teresinha. Um acontecimento-referência para muitas outras comunidades populares recifenses.

Em 1986 o Brasil começava a retomada do rumo à democracia com a eleição direta de deputados federais constituintes para a elaboração de uma nova Constituição. Um grupo de comunidades populares se articulou para escolher o seu candidato, entre estas estavam a Campina do Barreto, Chão de Estrelas, Ilha de Santa Teresinha, Chié. No dia 27 de abril daquele ano, numa participativa eleição realizada na sede do Instituto Teológico do Recife – ITER, Renato Calábria foi eleito como o representante dessas comunidades. Para a escolha do partido ao qual o candidato deveria se filiar, constava como cláusula pétrea que o partido deveria garantir a autonomia do candidato em relação às propostas populares a serem apresentadas para a Constituição. Na semana seguinte, numa Assembleia monumental, realizada na rua central da Ilha de Santa Teresinha, quatro partidos se fizeram presentes: PSB, PT, PDT e o PMDB de Miguel Arraes. Representando o PDT fora designado o histórico Francisco Julião, que fiquei assessorando-o pessoalmente naquele ato. Em um determinado momento ele me confidenciou: “Nem nas Ligas Camponesas eu vi uma mobilização popular como esta!”.

 

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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