Marginais – Heliana Querino

Num desafio bobo, em que eu tentava me equilibrar no meio-fio, com o livro de Villon e o CD de Carmina Burana tocando no meu discman da Sony, uma mulher na calçada diz para o filho: “não te assente no meio-fio, eu não te criei pra isso, parece um mendigo, um marginal… e pare de imitar os outros”. Os outros, no caso, era eu, perdida nos pensamentos e pés concentrados nas pedras estreitas para não pender para a direita e nem para a esquerda. Era inverno e chovia um bocado no país, de um lado tinha lama e o do outro, muita confusão. A mãe do menino continuou: “você num resmungue, deve é estudar e ter bons modos para depois ter um bom trabalho e não precisar viver à margem”.

Aumentei o volume do discman e botei Carl Orff  com Carmina Burana nas alturas. Imaginei o pequeno cearense dizer para a mãe dele que nem todos querem sempre se integrar. Entre apocalípticos e integrados existem os que andam de um quarteirão a outro pela margem, entre a calçada e a rua, com ou sem diploma.

O meio-fio é um lugar onde cada um pode se sentar, sem pagar e sem pedir permissão a ninguém. Por isso, os que podem pagar, por exemplo um café em um bar, normalmente não se sentam no meio-fio.  Senhores da nobreza e da pobreza.

Certamente, a mãe do garoto sabia disso. Sentar à margem poderia ser uma metáfora de “viver na margem”. Mas quem vive na margem?

 

  • Os marginais.

 

Mas quem são os marginais?

 

Os mendigos, seria a primeira resposta, os que mendigam.

 

  • E por que mendigam? Para ter o mínimo para sobreviver?

 

São pessoas que não conseguem viver de outra maneira.

 

Será que todo caso se trata de uma situação involuntária?

 

Todos os marginais sonham sair do meio-fio e ser “inclusos” na sociedade?

Hoje, fala-se muito em  “inclusão social”. O tema virou um dos últimos cavalos de batalha da esquerda.

Sim, muitas pessoas desejam abandonar a marginalidade em que elas nunca escolheram viver. Mas nem todos querem ser “integrados” com carro, televisão e cartão de crédito. Toda a história das civilizações tem os seus marginais voluntários. Pessoas que escolhem viver na simplicidade ou na pobreza, até mendigar e dormir na rua.

Na antiguidade grega encontramos Diógenes de Sinope, que vivia num barril e desdenhava as necessidades materiais.  Seus alunos, discípulos da escola cínica, o imitavam.

Na China, vários taoístas pregavam a mesma atitude. No final da Antiguidade aparecem os eruditos cristãos tentando romper com a civilização e seus costumes.

Depois, a Idade Média estava cheia de ordens “mendicantes”: os franciscanos, os dominicanos, os agostinianos, os mercenários e os carmelitas. Um exemplo foi São Francisco, que renunciou a todos os seus bens e vivia de ajuda recebida nas ruas. Assim, a Igreja recuperava a contestação das riquezas da Igreja católica. Imitar a pobreza de Cristo era o modelo desses frades.

Por estas bandas de cá e nestes tempos modernos, aqui mesmo em Fortaleza, já vimos de filósofos a poetas, sádicos e não poetas vasculhando o meio-fio, do acostamento ao canteiro, planejando “viagens na memória”.

É claro, nem todos os pobres voluntários na Idade Média ou em qualquer idade, eram motivados pelo fervor religioso. Os “goliardos” por exemplo, eram estudantes pobres que passavam o tempo com música, amor e poesia.  Denunciavam a Igreja e a sociedade da época, através das sátiras.

São considerados os antepassados dos boêmios do século dezenove e dos hippies do século vinte. E suas canções são conhecidas como “Carmina Burana”.

François Villon, o maior poeta francês da Idade Média, era um herdeiro deles. Esses “marginais” não buscavam a “inclusão” social. Se concluíam os estudos, era possível se tornar um bispo, juiz, advogado, mesmo que não servissem à sociedade e apenas usufruíssem  – mas eles preferiam a liberdade, o gozo e, em poucos casos, o desvio de caráter…

A história da marginalidade voluntária  continuou com os românticos, a figura do artista maldito, o boêmio, os hippies… Claro, nem todos mendigavam no meio-fio. Porém, todos romperam com as convenções sociais, com o bem-estar material, com a vida já prevista. Não era comportamento duplo, rompiam do lado de dentro e do lado de fora.

Para alguns, era somente um momento passageiro, uma vibe, como se diz hoje,  antes de voltar para a vida “normal”. Outros permaneceram fiéis a esta escolha. Quando mapeamos os arquivos do tempo, descobrimos que muitos acabavam mal… Inclusive, os do lado de cá, da Belle Époque, do Passeio, da Praça Verde, do Dragão ou do Ferreira.

Andar exatamente sobre o meio-fio, quando vou à padaria ou comprar ração para os pets, parece um típico exercício infantil, como andar sobre muros estreitos, mas algumas coisas da nossa infância devem ser conservadas para sempre. Algumas ilusões e inocências, nem tudo precisa ser cruel.

Segui ouvindo Carmina e imaginando quem seria aquele pequeno e sua mãe na Idade Média ou no Brasil dos anos trinta ou sessenta… Meio-fio, cidade que nasceu Vila, cidade de arte ou de ruas rivais. Por um fio. Devaneios e aspirações à parte,  uma cidade como Fortaleza parece o contrário das ilusões e entusiasmos de mil novecentos e sessenta e nove.

 

Heliana Querino

Heliana Querino

Heliana Querino - canivete suíço, jornalista, pesquisadora, educomunicadora, coordenadora de Cultura e colunista no SegundaOpinião.jor

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4 comentários

    • Heliana Querino

      Heliana Querino

      Eduardo, grata pela leitura. Na verdade o texto não exatamente sobre poetas malditos, apesar deles estarem aí, inclusive o Mário, bem flutuante em meios as palavras!

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