JOURNEY e a coragem de buscar liberdade: resenha do álbum “Freedom” (2022)

A vida costuma nos ensinar que, para se conseguir liberdade, é preciso coragem. Coragem para se livrar de amarras, se permitir experimentações e seguir “audaciosamente indo aonde nenhum homem jamais esteve”, como diria o Capitão Kirk do clássico “Jornada nas Estrelas”.

E quando se fala de arte, de música, este é um valor sempre almejado por artistas, sejam jovens ou mesmos veteranos. Para estes, o desafio é ainda maior por conta do próprio teste do tempo: será que estão fadados a viver apenas de repertórios clássicos, tocando repetidamente os sucessos de outrora? Ou será que podem criar “novos clássicos”, apesar da resistência do fã mais radical?

Um pouco deste encontro saudável entre o nostálgico e a ousadia da experimentação moderna é visto em “Freedom”, mais recente álbum dos veteranos estadunidenses do Journey. Prometo tentar ser ao menos um pouco neutro nesta resenha – porque quem me conhece sabe que eles são, de longe, uma das minhas bandas favoritas de todos os tempos. Seja na era de Steve Perry, seu vocalista clássico (de quem já falei bastante neste texto aqui e neste outro) ou nas épocas dos vocalistas seguintes, o Journey possui uma trajetória de um hard rock/AOR que já os colocou no panteão dos maiores grupos musicais de todos os tempos. Já assinaram seu nome desde a Calçada da Fama em Hollywood até o Rock N’ Roll Hall Of Fame alguns anos atrás.

Para quem não conhece muito a trajetória do Journey, já aviso que ela vai muito além de seu hino radiofônico mais famoso, “Don’t Stop Believing”, e das baladas mais arrebatadoras como “Faithfully” e “Open Arms”. A discografia da banda possui pontos altíssimos em praticamente todas as suas fases, em discos quase impecáveis na fase de Perry como “Escape” (1981), “Frontiers” (1983), “Raised On Radio” (1986) e “Trial By Fire” (1996). Após sua saída, a fase do sucessor Steve Augeri, que ficou na banda de 1998 a 2006, traz bons capítulos como “Arrival” (2001) e “Generations” (2005), mas isso foi tudo que seu xará conseguiu dar à banda, pois após cinco anos foi acometido de problemas na voz e teve que deixar o posto.

Arnel “AirNel”Pineda voando pelo palco e Neal Schon, o guitarrista que descobriu esse talento pelo YouTube

Aliás, o já conhecido peso de substituir uma voz como a do lendário Steve Perry sempre recaiu como uma grande responsabilidade nos ombros tanto de Augeri quanto de seu sucessor e atual frontman, o carismático Arnel Pineda. Durante muito tempo, ambos tentaram soar exatamente como o clássico vocalista, o que lhes custou muito da saúde vocal e também da própria identidade – ou melhor, da busca por uma. Porém, vemos que agora em “Freedom”, praticamente após quinze anos à frente do microfone, o filipino Arnel consegue imprimir uma personalidade própria à sua voz sem tentar soar como Perry. Claro, há resquícios de uma vontade ainda implícita da banda em tentar ressoar lá no nosso inconsciente de fã o timbre e a memória sentimental do eterno “The Voice”. Mas neste novo trabalho temos a grata alegria de descobrir e presenciar o atual cantor voar com tranquilidade em seu próprio som – e isso é bem legal de acompanhar.

A expectativa existia há quase uma década para um novo lançamento do Journey que sucedesse o fraco “Eclipse”, de 2011, segundo trabalho da banda com Pineda após o duplo “Revelation” (2008) – que contava com boas inéditas e também regravações na então nova voz. Nesse meio tempo, a banda permaneceu em atividade e excursionou exaustivamente, contando com problemáticas mudanças na formação, ações judiciais de ex-membros e até uma tentativa de “golpe corporativo” pelos direitos ao nome banda. Ou seja, por muito tempo a banda produziu mais atenção com essas polêmicas do que com música nova, ainda tendo que travar uma longa batalha contra nítidos problemas de cansaço e desafinação ao vivo na voz de Arnel, resolvido neste ano com a troca do engenheiro de som.

Tivemos a pandemia e foi então que a banda, reclusa, anunciou estar gravando material novo,  pois em breve um novo disco surgiria. Em junho de 2021, ainda em isolamento, uma prévia finalmente sai: a canção “The Way We Used To Be” chega às plataformas digitais, e logo começam as novidades sobre o que viria a ser o álbum.

capa do álbum "Freedom" do Journey (lançado em julho de 2022)

“Freedom” (2022) é o décimo quinto álbum de estúdio dos veteranos californianos do Journey

Lançado em julho deste ano, “Freedom” traz muitas boas passagens, apesar de claros problemas na mixagem que deixaram a voz de Arnel “embolada” em algumas faixas. Nas primeiras audições dos outros singles que a banda foi liberando em seu Instagram, isso já era assunto na maioria dos comentários. Serviria como um feedback para ser corrigido a tempo do lançamento do álbum, mas aparentemente a banda fez pouco ou quase nada para resolver isso, pois desde o início fizeram a ousada escolha de produzirem o disco por conta própria.  Aparentemente ignoraram a história do rock, que já demonstrou mais de uma vez nunca ser uma boa opção dispensar um produtor profissional.

A audição começa com a enérgica e empolgante “Together We Run”, que já chega chutando a porta. Mostra a banda em excelente forma em todos os seus núcleos, e um “AirNel” (como é carinhosamente apelidado pelos fãs) literalmente voando nas melodias. Na sequência, “Don’t Give Up On Us” traz uma clara referência ao teclado e ao clima da clássica “Separate Ways (Worlds Apart)”, sendo a primeira das diversas homenagens sonoras aos melhores momentos de sua história, trazendo o claro lado nostálgico do disco – aliás, a própria “Separate Ways” voltou a colocar Steve Perry e a história do Journey em evidência no começo deste ano, quando da utilização de uma versão da música na trilha sonora da série Stranger Things. A terceira faixa é a primeira balada, “Still Believe In Love”, que traz bastante influência da carreira solo de Neal Schon, como solos e uma batida que em muito lembram os trabalhos paralelos do guitarrista.

“You Got The Best Of Me” também apela para a nostalgia, sendo aparentemente uma amálgama entre as clássicas “Any Way You Want It” e “Be Good To Yourself”. Bom clima, canção uptempo bem empolgante e que deve ficar muito legal ao vivo. A segunda balada chega com “Live To Love Again”. Confesso que me chamou atenção, pois a melodia me lembra alguma coisa dos musicais da Disney. Inspiradíssimos estavam a voz de Arnel e o piano de Jonathan Cain, que dominam a faixa, lembrando a belíssima “When You Love A Woman” (indicada ao Grammy Awards em 1996 no último disco com Perry). “The Way We Used To Be” é a próxima, com uma pegada bem cadenciada e até meio blues. Como disse, foi o primeiro single lançado juntamente com um clipe bem legalzinho, com a história contando o isolamento de um casal na pandemia e a vontade de se verem novamente.

A formação atual do Journey (da esq. para a dir.): Jonathan Cain (teclado e guitarra), Todd Jensen (baixo), Deen Castronovo (bateria e voz), Arnel Pineda (voz), Jason Derlatka (teclado e voz) e Neal Schon (guitarra).

A sétima faixa, “Come Away With Me”, se propõe a ser bem fora da caixa para os padrões da banda. Ouço nela alguma pretensão de soar meio Living Colour, num groove e guitarras passeando por algo meio acid-jazz-rock, sem muita definição, mas nem por isso longe de ser divertida. “After Glow” é a próxima balada, e na minha opinião a mais bonita do disco. Aqui, o baterista Deen Castronovo brilha nos vocais – aliás, Deen já é conhecido por ter uma voz linda e que ajudou demais os vocalistas anteriores em muitos momentos nas turnês. A música tem um toque meio sedutor e intimista – que de repente me lembra que ela caberia perfeitamente se fosse composta dentro da cadência gostosa de um tango. A canção ainda tem uns toques de algumas influências da carreira solo de Schon, mas também remetendo minha memória a alguma coisa do clima de “Trial By Fire”, último com o Steve Perry na banda.

Lá no começo falei que a liberdade cobra o preço de se ter coragem. E até mesmo pra arriscar coisas que podem não dar muito certo. É isso que vemos quando as faixas seguintes parecem formar uma trinca bem arriscada nesse sentido: saindo da caixa (para o bem ou para o mal), “Let It Rain”, “Holdin On” e “All Day And All Night” são de longe algumas das coisas mais esquisitas e descartáveis que o Journey já fez. Para ouvidos musicais e stalkers de Instagram de banda mais atentos, fica muito na cara que as três nasceram de algum exercício de improviso preguiçoso do Neal Schon, e provavelmente devem ter sido empurradas pra completar a duração do álbum. Duvido muito que sejam executadas ao vivo na nova turnê, pois posso apostar uma cerveja que seriam certeza de idas em massa ao banheiro no meio do show e aplausos meramente educados da plateia.

Bem, mas nem tudo está perdido! Após a tripla encheção de linguiça, o clima típico de hitmakers do que é a essência do Journey rapidamente volta com a animada “Don’t Go”, que nos joga de forma gostosa aos tempos do enérgico disco “Raised On Radio”. A viagem sonora continua com “United We Stand”, com um pé no passado e um resquício da nova geração inaugurada no disco “Eclipse” na melodia vocal. A despeito de uns timbres meio duvidosos de teclado no refrão, é uma boa canção que não deixa de ter seu brilho próprio.

Pra fechar o álbum, vem “Life Rolls On”, outra também um tanto fora da caixa mas que também remete o fã mais atento e atualizado a alguma canção do “Eclipse”. A última é “Beautiful As You Are”, com sete minutos e uma pretensão de ser uma balada meio épica e grandiosa, sendo também belo tributo à imortal “Don’t Stop Believing” nos riffs de guitarra e piano. A canção tem um ótimo clima e, apesar da duração, não cansa o ouvinte. É o puro suco do Journey clássico com viradas de bateria que o ex-integrante Steve Smith imortalizava nos shows, groove dinâmico, mudanças de fraseado e o clima de rock de arena saudosista dos anos 70. Excelente fechamento!

Obs.: descobri de última hora uma faixa bônus que foi lançada, como de praxe, exclusivamente para a versão japonesa do disco: “Hard To Let It Go” é uma balada bem gostosinha, que vale a pena procurar no Youtube depois!

De saldo final, um bom disco e uma boa novidade. Claro que apresenta problemas, pois a escolha soberba e arriscada de não optar por um produtor, que conduza e lapide o disco com experiência e profissionalismo, traz consequências duráveis. Mas é digno de total respeito ver o quanto uma banda com quase cinquenta anos de atividade ainda tem muito gás pra dar.

O aguardadíssimo retorno ao Brasil já dá indícios de acontecer, e nem preciso dizer que já reservei na minha agenda e tô juntando os trocados da passagem de avião na expectativa de ver esse retorno em 2023. Com o disco e a turnê, o recado que o Journey dá é uma prova ao mundo: esses veteranos nunca pararam de acreditar.

Te vejo no próximo play!

 

Serviço

“Freedom”

Journey

Gravadora: BMG/Frontiers Records

Data de lançamento: 8/07/2022

 

Faixas:

 

1. Together We Run

2. Don’t Give Up On Us

3. Still Believe In Love

4. You Got The Best Of Me

5. Live To Love Again

6. The Way We Used To Be

7. Come Away With Me

8. After Glow

9. Let It Rain

10. Holdin On

11. All Day And All Night

12. Don’t Go

13. United We Stand

14. Life Rolls On

15. Beautiful As You Are

*16. Hard To Let It Go (*faixa bônus exclusiva para a edição japonesa)


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Sérgio Costa

Bacharel em Ciências Sociais pela UFC e em Comunicação Social (Publicidade e Propaganda) pela Fanor/DeVry. Publicitário por profissão, empresário por coragem e guitarrista por atrevimento. Apaixonado incurável por música, literatura, boas cervejas, boas conversas, viagens inesquecíveis e grandes ideias. Escreve quinzenalmente sobre música para a coluna Notas Promissoras do portal Segunda Opinião.

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