O texto que eu mais queria escrever: Steve Perry voltou!

“I know it’s been a long time coming
Since I saw your face”

 

Fazem quase quatro anos que escrevi aqui um dos textos que mais me deixou orgulhoso de minhas referências musicais. E o prazer é enorme em poder voltar a celebrar a história dessa voz que, para a felicidade de meio mundo, retornou à ativa. Celebremos, pois Steve “The Voice” Perry voltou!

O eterno e querido ex-vocalista do Journey já vinha anunciando faz algum tempo estar produzindo um álbum “catártico”. E após quase trinta anos, em 2018 a longa espera finalmente chegou. Podemos dizer com segurança que “catártico” é o adjetivo que gravita em boa parte das letras e desenha todo o feeling sonoro geral de “Traces”, o novo e tão aguardado álbum, lançado em outubro do ano passado.

“Traces” (2018), terceiro e mais recente álbum solo de Steve Perry

Com dez faixas (e mais cinco na edição deluxe – da qual já comprei importada e na pré-venda mesmo!), o disco traz Steve em excelente forma vocal cantando passagens onde a tônica é a perda recente e irreparável de seu amor, Kellie Nash, falecida em 2015 após lutar contra um câncer de mama. A obra é docemente dedicada a ela, em cada letra, cada nota enfatizada com emoção por sua melancólica voz.

O interessante é notar que em “Traces” nos deparamos com uma beleza bastante triste, porém enriquecedora, saudosista. Claro, nem todas as faixas são baladas deprê. Ele canta sua perda com uma emoção reconfortante que até mesmo dá a sensação de que aquela ausência não é total, de que seu amor ainda está ali de alguma forma – com destaque para um recurso muito muito bonito: Steve utiliza uma gravação da risada de Kellie em uma das faixas. De arrepiar!

O álbum, porém, não deixa de ser versátil. Aliás, por falar em versatilidade, esqueça qualquer traço do Steve à época do AOR e do Journey: nada de sintetizadores à là anos 80, nada de bateria agressiva, guitarras distorcidas do hard rock, nem viradas espetaculares de tempo e compasso ou mesmo os incontáveis agudos no refrão. Steve amadureceu – não era pra menos, afinal ele já é um simpático senhorzinho de (pasmem) 70 anos – e esse amadurecimento musical lembra um pouco o teor diferenciado de seu álbum imediatamente anterior, “For The Love Of Strange Medicine”, lançado num longínquo 1994. A diferença pra este último (que ainda carrega traços de Journey) é o mergulho nítido em um estilo mais puxado para o pop/romântico, o blues e até mesmo um flerte com o rockabilly dos anos 1950.

Steve em 2019, aos 70 anos! (foto: Brian Ach/Invision/AP)

Desta forma, temos um álbum cristalino, limpo, diferente e ainda assim honesto, com uma produção e mixagem impecáveis feitas pelo próprio Steve em seu estúdio. A obra traz muita competência nos arranjos com uma banda muito bem afiada: o piano de Tommy King é bastante presente com belas bases e melodias que entram na emoção e na hora certa. A guitarra da dupla Thom Flowers e David Spreng é suave e discreta, soando um pouco mais rock em apenas algumas faixas, mas dando o recado na hora certa com solos e intervenções bastante marcantes e bonitas. O baixo pelas mãos de Travis Carlton é gostoso de ouvir, e casa muito bem com a bateria de Josh Freese e Vinnie Colaiuta, quase jazz e bem sonora.

 

Com esse time muito bem escolhido de diversos músicos que se revesam em cada canção, a certeza que temos é que a liberdade de Steve nunca esteve tão madura à ponto dele declarar totalmente seu amor e influência a Sam Cooke, cantor de jazz da década de 50 que sempre foi sua maior inspiração artística e cujo timbre vocal é bastante similar ao seu.

Steve na época de seu segundo álbum solo, “For The Love Of Strange Medicine” (1994)

Assim, ao apertar o play, “No Erasin'” inicia com uma deliciosa melodia e um “olá” bastante merecido aos fãs que tanta saudade sentiram e tanto esperaram por ouvir Perry novamente (o primeiro verso diz “I know it’s been a long time coming / Since I saw your face” – “Eu sei que já faz bastante tempo / Desde que vi seu rosto”). No videoclipe, inclusive, o saudosismo é total, pois em determinado momento surge um “easter egg” com uma bonita e rápida homenagem aos tempos de seu primeiro álbum onde só quem é fã mesmo vai reconhecer (assista o clipe e descubra, não vou contar!). A audição segue com “We’re Still Here”, primeira balada do disco e também com uma letra cujo tema saúda os tempos de jovem ao sair pela rua, pela noite, celebrando a vida num nostálgico passeio e numa singela e otimista afirmação: “Ainda estamos aqui […] a noite está chamando novamente”. “Most Of All” pode ser considerada, por sua letra, a primeira a realmente falar em perda e saudade (“Aos que perderam tudo de mais precioso […] Muitos anos não irão curar / As lágrimas ainda caem”), onde o vocal de Perry brilha acompanhado de uma guitarra à là U2 e um lindo piano.

 

“No More Cryin'” chega na quarta faixa para jogar um pouco de alegria, apesar da letra também saudosista. Uma deliciosa balada puxada para o blues e que brilha num lindo crescendo até seu final. Daquelas músicas excelentes pra ouvir dirigindo! Na sequência, “In The Rain” é daquelas feitas pra pegar lenços e uma dose de uísque: emoção à flor da pele, uma voz que quase chora e que realmente não tem vergonha de cantar a dor da saudade por seu amor. Poesia pura, simples, direta ao coração, temperada com uma bela orquestração que passeia ao lado da voz, lembrando muito uma doce canção de ninar. A única faixa mais rock é “Sun Shines Grey”, chegando em seguida e que pode certamente ser declarada a mais Journey de todo o disco, sendo muito agradável e com um tom de alegria ainda melhor que “No More Cryin'”!

 

O final da audição vai chegando com algumas outras baladas como “You Belong To Me”, “Easy To Love” (com uma gostosa pegada pop meio John Mayer) e ainda um inesperado cover de “I Need You”, dos Beatles! “We Fly” fecha as dez faixas com uma catártica e etérea viagem pelo mais puro estado de emoção da voz de Perry. Aqui, ela soa completa e preenchida, numa declaração total de um homem sozinho, alegre mas triste, feliz porém despedaçado, na perda, na saudade profunda mas com a certeza de sentir e viver um amor que transcende, ascende e voa junto com ele ao infinito dos sonhos.

 

A edição deluxe traz mais algumas surpresas (além de um adesivo e um remendo bordado com seu nome, na versão que comprei) bem interessantes em cinco faixas adicionais que também trazem o mesmo teor das principais, mas que puxam pra algo um pouco mais fora da curva e despretensioso. São elas: “October In New York” (numa atmosfera bem Sinatra), “Angel Eyes” (muito legal, com umas pegadas de coral meio Gospel e uma sonoridade grandiosa de big band que empolga!), “Call On Me” (que lembra um pouco a pegada de “Easy To Love” e onde podemos ouvir a voz da risada de Kellie), “Could We Be Somethin’ Again” e “Blue Jays Fly”.

 

O disco termina, mas a sensação de saudosismo fica nas deliciosas ilustrações na arte da capa. Nossa, e que arte! “Traces” possui, de longe, uma das capas mais bonitas e criativas de discos que já vi. Quem é fã e conhece a trajetória do Journey e de Perry vai se divertir interagindo (e até se emocionando) com cada ilustração e imagem escondida que traz um pedacinho e literalmente “traços” de cada fase da carreira de sua ex-banda e ainda de seu período solo. Vale muito a pena brincar de “Onde Está Wally?” e passar um tempão caçando referências na capa e contracapa.

A arte completa da capa de “Traces”: dezenas de referências à carreira de Steve (imagem: Jeff Wack)

Com a volta de Perry, inevitalmente vem a pergunta: teremos turnê? Se depender das declarações dele na TV e em rádios americanas, a resposta média seria “a princípio, não… mas talvez”. Lembremos que uma das razões pela qual o cantor saiu do Journey foi justamente o cansaço com a vida na estrada e a necessidade de fazer um som próprio e desprovido de tudo que o mainstream exige. Bem, a segunda coisa ele já conseguiu – com este seu terceiro álbum solo. Resta saber se ele teria vontade/disposição para sair fazendo shows por aí novamente. Porém, uma coisa já é dada como certa: ele ainda não vai parar de compor! Teremos um sucessor do belo “Traces” em breve? Sinceramente espero que sim, pois este disco foi sem dúvida uma das coisas mais felizes da minha vida em 2018. E com certeza na de muita muita gente também.

 

Ainda há dúvidas de que precisamos da voz de Steve Perry? :)

 

Steve Perry  – Traces (2018)

faixas:

1 – No Erasin’

2 – We’re Still Here

3 – Most Of All

4 – No More Cryin’

5 – In The Rain

6 – Sun Shines Grey

7 – You Belong To Me

8 – Easy To Love

9 – I Need You (Beatles cover)

10 – We Fly

bônus edição deluxe:

11 – October In New York

12 – Angel Eyes

13 – Call On Me

14 – Could We Be Somethin’ Again

15 – Blue Jays Fly

 

Sérgio Costa

Sérgio Costa

Bacharel em Ciências Sociais pela UFC e em Comunicação Social (Publicidade e Propaganda) pela Fanor/DeVry. Publicitário por profissão, guitarrista por atrevimento. Apaixonado incurável por música, literatura, boas cervejas e grandes ideias. Escreve quinzenalmente sobre música para a coluna Notas Promissoras do portal Segunda Opinião. Contato: [email protected]

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