ENCONTRO ENTRE IGUAIS, por Clauder Arcanjo

Desde o último infortúnio, lá se vão alguns meses, Companheiro Acácio andava sumido. Na certa, desconfio, metido em meditações mil. Sim, caro leitor, Acácio sempre foi tido como um sujeito afeito às filosofices e às análises mais aprofundidativas. Desculpe-me pelo neologismo, mas o Companheiro não é fácil de caber num dicionário comum. Pois bem. Continuemos.

Não é que ontem, ao dobrar uma das esquinas do Centro, bendita surpresa para uma insossa manhã, deparei-me com tal figura!?

— Acácio!…

Apesar da minha saudação com fumos de escândalo, ou penso que justamente por isso, ele não cessou os passos. Ao contrário, baixou um pouco a face e apertou os vários livros que levava ao peito, como a querer sumir na esquina seguinte. Eu, cabreiro, acelerei as passadas e pus minha mão sobre o seu ombro.

— Acácio!?… Por onde andavas? — interroguei-o, festivo.

— …

Reticenciou-me em seu silêncio de profundezas, ao tempo em que ajeitava um Nietzsche que quase ia ao chão.

Em seguida, Acácio enxugou a testa larga com sua impaciência assanhada, a fitar-me como se diante de um anticristo.

— Queria lhe oferecer um café e falar acerca de algumas novidades literárias, Companheiro. Isto, claro, se lhe aprouver — instiguei-o, sabendo de sua fraqueza por cafezinho e por literatura.

Dito e feito. O sorriso ascendeu-lhe aos olhos turvos, e sua voz surgiu, límpida:

— Há uma boa cafeteria no outro quarteirão. Poderíamos prosear lá com uma certa privacidade, sem sermos interrompidos pelos oráculos das fanfarronices. Que tal?

Concordei com um leve aceno. Lá chegando, Acácio conduziu-me para a mesa mais ao canto; a discrição sempre fora a sua marca registrada.

— Dois cafés, por favor — solicitou Acácio à mocinha que se aproximava para ouvir o nosso pedido. Ao tempo em que alojava os tomos que trazia. Corri os olhos pelas lombadas: Crepúsculo dos ídolos, de Friedrich Nietzsche; A peste, de Albert Camus; Os enamoramentos, de Javier Marías; e Fedro, de Platão.

— Imaginava-o ainda preso às tramas detetivescas. Desistiu dos romances policiais, Companheiro? — espetei-o.

— O rio sempre corre para o mar, assim como o verdadeiro homem sempre deve ver o mundo por sobre o ombro dos gigantes…

Antes de concluir, notei que Acácio, de súbito, levantara-se, abrindo os braços, efusivamente, em direção à entrada.

— Meu amigo Ernesto! Que bons ventos o trazem? Antes, minhas desculpas pelo lugar comum, mas a oralidade e a emoção deste reencontro me traem — professou, altissonante, enquanto rumava para a saída. Lá chegando, Companheiro abraçou-se com um homem de meia idade. Percebi, ao voltar-me, que se tratava de um senhor avançado nos seus sessenta anos, rotundo e largo, de careca vasta, com óculos de grau e barba bem escanhoada.

De onde eu estava, não colhi claramente a sua resposta, porém os percebi íntimos. Digo, pelo calor do abraço e por continuarem de braços dados; pois Acácio nunca fora de licenciosidades fraternas, nem muito menos interesseiras.

— Junte-se a nós, mestre Ernesto! Estamos a palrear sobre o mundo dos livros. Terra onde você sempre foi um arguto lavrador. Melhor, sementeiro. Isso, se-men-tei-ro. Apresento-lhe o meu amigo Arcanjo.

— Muito prazer, senhor Ernesto, Clauder Arcanjo — estendi-lhe a mão direita.

— Prazer — respondeu-me, e senti-me apertado pela força dos grandes.

Com pouco, o amigo de Acácio aboletou-se, largando seu corpanzil sobre uma das cadeiras, e esta reclamou, a ranger, das suas pesadas carnes.

Acácio sinalizou para a atendente que trouxesse mais um café, bem como água mineral.

— “A fertilidade / e a origem da noite / são formas sem cálculo, / incontempláveis. // A Via Láctea apaga-se. / Será manhã em breve, / outra vez.”

— Não me diga o autor, mestre Ernesto! Não me diga! Deixe-me lembrar do seu nome, certo? Vamos ver, vamos ver!… Seria o… Luís Quintais? — intercedeu, em êxtase, Companheiro Acácio, como se esperasse o prêmio num bilhete de loteria.

Não me contive e me intrometi:

— Em seu belo poema “Adeus”. O angolano Luís Quintais, um dos grandes nomes da poesia contemporânea em língua portuguesa.

Acácio e Ernesto se entreolharam, a rirem felizes com o meu acerto e, mais venturosos ainda, por se perceberem num encontro entre iguais.

 

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Autor das obras Licânia, Novenário de espinhos, Uma garça no asfalto, Cambono, O Fantasma de Licânia, entre outras.

Mais do autor

1 comentário

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.