ÉGALITÉ

O sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017), considerado um dos maiores intelectuais do século XXI, ao estudar as interações humanas em nossa Modernidade tardia, constatou que as relações presentes não são mais duradouras como em tempos passados, “escorrem por entre os dedos”, motivadas por um medo difuso, tornando os indivíduos  inseguros e autocentrados, gerando  distanciamentos dos diferentes e fugacidade de relações que não suportam adversidades nem posicionamentos contrários.

Nesses fenômenos Bauman encontrou um ponto comum por ele denominado de liquidez. Com sua genialidade, ele analisou com afinco o que conceituou como modernidade líquida, amor líquido e medo líquido. Há uma relação íntima da fluidez das relações retroalimentada pelo sentimento generalizado do medo. Para o autor, o medo é fomentado pela ignorância da realidade e pela impotência sobre o que deve ser feito.

Contudo, alerta o autor, humanos são seres sociais, não podem existir sem os outros. Um ser humano solitário é uma contradição terminológica. Numa coletiva de imprensa concedida em 24 de setembro de 2006, recordou o momento em que filósofo grego antigo, Sócrates, ao ser condenado à morte, mesmo tendo como possibilidade escolher o exílio perpétuo de Atenas, escolheu beber a cicuta em vez de isolar-se do convívio dos seus concidadãos. (Entrevista a Roberto Nicolas no Congresso “As pedras descartáveis”. Verona, Itália).

Assim, Bauman sentencia: “todos nós precisamos de algum tipo de comunidade de pessoas”. Mas, é preciso ter bem claro, uma comunidade não é algo natural, que acontece automaticamente. É um edifício o qual cada um tem que comprometer-se com sua construção, num esforço diário no tempo presente. Sem a existência contínua desse esforço, tudo desmorona. O tempo todo é preciso criar, recriar, reparar, recomeçar. Desprezar este tipo de compromisso significa estar condenado ao pior dos mundos. Não há lugar onde se possa viver com segurança sozinhos, isolados. Destaque-se que as comunidades do passado perpassaram o tempo, viveram mais que seus membros individuais. Como afirmava Aristóteles, não somos bestas nem anjos, não podemos viver sem a sociedade.

 A extrema-direita internacional, neofascista, investe na exacerbação do medo, do ódio ao diferente e da ignorância social. É uma ideologia política autoritária, paramilitar, fundada na ideia de supremacia racial e étnica sobre todas as outras, rejeitando outras culturas, crenças, raças, defendendo a uniformização de um único povo e um único Deus, mantida autoritariamente por meio de um Estado militarizado.

O resultado do segundo turno da eleição francesa neste domingo vem atestar algo importante: os franceses, em sua maioria, não querem hostilizar nem odiar o seu semelhante humano. Os ataques xenófobos sistemáticos produzidos pela extrema-direita francesa provocou uma reação expressiva da população francesa: não queremos odiar nem maltratar os imigrantes. Não queremos odiar ninguém, porque o que permite superar nossas preconcepções em relação ao diferente não é o ódio, mas a possibilidade de construir diálogos com ele.

O autor brasileiro Marcos Arruda, destaca que a experiência cotidiana de união no interior de grupos humanos – casal, família, comunidade – enriquece o ser humano e o libera para além de si próprio, possibilitando-lhe vivenciar as diversas dimensões que o constituem. Sem uma tal intersubjetividade verdadeira, as relações humanas correm o risco de tornarem-se patológicas. (Tornar real o possível. Vozes, 2006).

Portanto, para Bauman, uma comunidade nasce quando certo número de pessoas aceita consciente e deliberadamente que são responsáveis uns pelos outros. Trata-se não apenas de viver-com-os-outros, mas de viver-uns-pelos-outros. Afinal, somos todos interdependentes e devido a esta interdependência, nenhum de nós pode ser senhor absoluto de seu destino por si mesmo. Há tarefas que cada indivíduo enfrenta, mas com as quais não se pode lidar individualmente. Todos precisamos ganhar controle sobre as condições pelas quais enfrentamos os desafios da vida, mas para a maioria de nós esse controle só pode ser obtido coletivamente.

Para existir uma comunidade no mundo dos indivíduos, só poderá ser uma comunidade tecida em conjunto a partir do compartilhamento e do cuidado mútuo; uma comunidade de interesse e responsabilidade em relação aos direitos iguais de sermos humanos e de igual capacidade de agirmos em defesa desses direitos. A universalidade da cidadania é a condição preliminar de qualquer política de reconhecimento significativa. A universalidade da humanidade é o horizonte pelo qual qualquer política de reconhecimento precisa orientar-se para ser significativa. A universalidade da humanidade não se opõe ao pluralismo das formas de vida humana. Mas o teste da verdadeira humanidade universal é sua capacidade de dar espaço ao pluralismo e permitir ao pluralismo servir à causa da humanidade, viabilizando e encorajando a discussão contínua sobre as condições compartilhadas do bem (Comunidade: a busca por segurança no mundo atual. Jorge Zahar Editores, 2003).

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Religião em tempos de bolsofascismo (Editora Dialética); Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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