Drama – Renato Ângelo

Em toda ação humana há sempre algo de atuação, de adaptações a cenários, falas permitidas… proibidas… Nossa experiência terrena, portanto, é repleta de mise-en-scène. A questão é: como aprendermos com isso, diferenciando quem somos de fato do papel desempenhado?

Anos atrás (bem mais anos do que gostaria de lembrar) andava eu pelas estreitas ruas de Ouro Preto. Era a primeira vez que os encantos da histórica cidade mineira saltavam à baila em meus olhos. Como se não fosse o bastante para um cearense o mistério secular da cidade, o meu andar por dentro da história contava, ainda, com a maravilha do período de festival invernal. Fiquei extasiado!

O frio, quando em ambiente controlado, gera uma sensação de aconchego e conforto psicológico raros para bichos como eu. Há de se aprender sempre… Como esta, inequivocamente, foi minha busca nesta vida, estava lá entregue ao Brasil Colônia, invadido por várias tribos e uma diversidade encabulante de manifestações artísticas. Em meio a Deborah Colkers, casas de Tomás Antonio Gonzaga, infinitas ladeiras ascendentes e descendentes, Aleijadinhos dispersos efusivamente em uma plêiade de igrejas apinhadas de esculturas em pedra-sabão… algo sobressaía. Passando com louvor no teste do tempo, falando mais alto ao humano em mim. O teatro me fisgara.

Em uma das muitas ruelas cravejadas de paralelepípedos lapidados por séculos de cascos de cavalos, burros, rodas de carroças, estava lá o convite… um chamado? Calling? Beruf? Por mais paradoxal que fosse: uma peça de teatro, sobre a vida de Pablo Picasso, interpretada dentro de uma igreja barroca! Deus meu! Muito tentador. O cearense amante do mar, numa cidade sem mar, vela ou cais, navegava adentrando as metáforas do barroco de si mesmo. Esta porção de beleza complexa que habita em nós e que, em vida, encontra na arte seus gatilhos. Entrei… deixando para trás anos de consumo televisivo, teledramaturgia fast food como também (e aí está o mais importante) um vício que se alimentava de olhar mais para fora que para dentro de si mesmo. Lembrei-me que o teatro para os antigos gregos era um culto, veneração, fórmula para a catarse, purificação aristotélica.

O escudo de Athena, estátua da deusa a qual adorna a entrada dos théatron helênicos, tem gravado em seu verso a cabeça decapitada da Medusa… o símbolo da incivilidade. Os gregos não iam ao teatro por diversão, mas devoção. Um ato profundo de autoconhecimento. Ora! Se Perseu teve como tarefa enfrentar a terrível górgona usando seu escudo como reflexo, a mensagem estava clara. O teatro seria, para mim, como são de maneira geral todas as outras artes, um caminho para, no espelho do meu barroco interior, enfrentar os monstros que ali habitam. A arte é escudo… mas também espada! O escudo é psicológico; A espada, política. Lâmina fina de Belchior – aquele que tinha um propósito maior ao nos ferir com suas palavras.

Da peça propriamente dita lembro-me muito pouco. O ar daquela igrejinha meio rococó, seu ouro, sua madeira, suas paredes e tetos adornados com esmero do profundo humano… tudo… tudo aquilo, respiro até hoje. O Picasso no palco, com chapéu encimado por velas acesas esculpiram em minhas retinas algo indelével… era a matéria em etérea forma, abraçada gentilmente pela penumbra artística daquela noite mágica. O milagre de pessoas de carne e osso, artistas feitos de magia e de contas a pagar, encenando e ensinando que a vida só não basta. Que o teatro é um espelho do real, transfigurando e rearranjando o cotidiano. Deleite profundo de testemunhar gente interpretando gente cujas vidas foram também, e desde sempre, atuação. A atuação no palco da existência revisitada pela revivescência no palco da arte, como uma brincadeira de ser outros ou de visitar os outros que dentro de si existem.

Mas o que notei após esta experiência englobava a noção do teatro como ato político que me cativara, e não somente sua dimensão psicológica. Sim, por que não? O psicológico como um grito para dentro de si e o político como um chamado para os outros. A essência humana individual do artista a qual toma acento nos outros por meio do drama. Não só o gênio rebelde do pintor andaluz, entretanto, incitara-me a mudanças… era o próprio teatro, em estado puro, atingindo a um (até não tão inocente assim) cearensezinho, como uma bala de canhão que beija seu alvo após, resolutamente, rasgar os céus. Cearensis fulmine icta est! Nunca duvidemos dos prodígios da arte.

Tendo tomado um trem de volta ao presente, através da estação ferroviária da memória, encontrei-me rendido a evidências. Vejo um país tomado por péssimos atores e que, despojados de suas máscaras, têm algo ainda mais grotesco a lhes tomarem a fronte. Pobre de nossa política-menina! Nossa pseudo-democracia jogada às coxias. O drama como expressão alegórica tem mudado de sentido. Vivemos, então, o drama como gênero, algo trágico, algo cômico, um roteiro interminável de absurdos. Vejo, não sem espanto, a função política banida dos palcos como uma peste. A força transformadora das interpretações metaforizadas da vida agora vivendo em estado de exílio. O humano censurado dentro de nós. Às vezes até autocensurado… A Medusa liberta, petrificando incautos, via televisiva ou tendo por meio pequenos espelhos cibernéticos e comunicativos a brilharem nas mãos de jovens. Reflexos de Narcisos pendurados por paus-de-self para figurantes que assim, apoliticamente, sorriem. São os figurantes inertes de nosso drama. Por isso mesmo os protagonistas desta peça distópica, hodierna e odiosa, agora sem máscaras de atuação e sem pudores, vão além de seus scripts, colorindo as instituições com intransparência.

É assim, querido leitor, que as lições daquela epifania ouro-pretana parecem ainda mais distantes, mesmo que ainda mais necessárias. Uma distância que menos tem relação com o tempo e mais com condições objetivas. Porém o que foi percebido outrora como deleite agora se impõe como necessidade e urgência. O escudo de Athena nunca foi tão necessário, posto que a face da Medusa nunca nos foi tão horrenda! A espada de Perseu jamais mereceu tanto, justificado e premente desembainhar. Sim! E isto se dá visto que nunca o teatro urgiu tanto ser considerado como um a priori político-psicológico face às contrárias potências do inframundo.

Algumas lições são aprendidas, bem ou mal, ao passo que outras questões se impõem… por exemplo – qual papel toca desempenhar neste drama que nos sorve a alma diariamente? Seremos protagonistas ou figurantes em nosso próprio tablado? Seja qual for a resposta que venhamos a dar, tenhamos certeza: as cortinas abriram-se! As máscaras caíram! Eis o nosso drama.

Renato Angelo

Mestre em políticas públicas, professor universitário, pesquisador, poeta e contista

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