DE FHC A MACRI: O DESMONTE NEOLIBERAL NA AMÉRICA DO SUL – por Alexandre Aragão de Albuquerque

Logo que Maurício Macri assumiu a presidência da Argentina em dezembro de 2015, a mídia global brasileira iniciou uma forte campanha de construção da imagem desse político neoliberal. Uma das figuras que se destacaram nessa ação foi o então prefeito João Dória (PSDB – SP) ao declarar para o jornal O Globo: “Macri representa um modelo inspirador. Nossas ideias são absolutamente iguais”.

Uma das características da família Macri é a de possuir pelo menos SETE “empresas offshore” elencadas no caso dos Panamá Pappers. A imprensa global brasileira nunca noticiou uma linha sequer sobre este escândalo. Segundo especialistas em lavagem de ativos, o uso de sociedades offshore é uma prática reiterada da família Macri. Empresas offshore são entidades constituídas fora do país do domicílio do proprietário, para quem deseja resguardar patrimônios advindos de atividades ilegais de sonegação fiscal ou de outros crimes. Se essas empresas forem constituídas em determinadas localidades que não possuem acordos de colaboração internacional contra crimes financeiros, há a possibilidade de se resguardar também a identidade de sócios e beneficiários, como ocorreu com Eduardo Cunha.

Macri ao assumir a presidência fez três promessas: pobreza zero, que em 2015 atingia 28% da população; a inflação de um dígito; atração de investimentos externos. Em 2019 Macri entrega o país com uma pobreza atingindo 35% dos argentinos; uma disparada na inflação para 50%; o juro de 74% ao ano.

Coincidentemente, neste domingo, 11 de agosto, Fernando Henrique (FHC), postou um artigo enfatizando que no Brasil “o pesadelo da inflação e da dívida externa ficou no passado”. Mas faltou-lhe, como de praxe, a sensibilidade intelectual de nominar quem foi o responsável pela liquidação da Dívida Externa Brasileira, expulsando de nosso País a nefasta onipresença do cobrador Fundo Monetário Internacional (FMI). Justamente FHC que em seus governos recorreu por 03 (três) vezes ao Fundo.

O Plano Real foi o grande propulsor da eleição de FHC. Graças ao início deste plano, em 31 de dezembro de 1994 a taxa cambial registrava um dólar norte-americano custando apenas R$0,85 (oitenta e cinco centavos de real) e o salário mínimo valendo naquela mesma data R$70,00 (cerca de US$ 82,35). Mas, reeleito presidente em 1998, FHC realizou o maior desmonte do patrimônio do Estado brasileiro mediante o programa de privatização de empresas estatais, sendo incapaz de reformar o modelo econômico com vistas a reduzir a vulnerabilidade externa do Brasil e gerar crescimento. O predomínio fiscalista que se expandiu para o BNDES tornou-se um obstáculo para todas as tentativas de política industrial e de auxílio à exportação. Concomitantemente, além da duplicação da Dívida Interna, houve um AUMENTO SUBSTANCIAL DO DESEMPREGO, arrasando a vida de milhões de famílias brasileiras, além de colocar em xeque o Brasil devido à vulnerabilidade externa de sua política econômica.

Após dois mandatos consecutivos do governo neoliberal do PSDB, em 31 de dezembro de 2002, FHC entregava o Brasil a LULA com o dólar custando R$3,63 (ou seja, com uma desvalorização cambial da ordem de 327%), o salário mínimo valendo R$200,00 (apenas US$ 55,09), significando uma perda mínima de 37% do valor de compra. O cenário social e econômico sob o governo peessedebista se agravou em função da alta taxa de desemprego, com as reservas internacionais tendo chegado ao fundo do poço de US$27,5 bilhões, forçando o Brasil a recorrer a mais um empréstimo ao FMI da ordem de US$ 30 bilhões, para não quebrar. Esta a herança deixada pelo governo FHC a Lula.

O desafio do primeiro governo Lula foi o de implantar transformações capazes de reverter o quadro de instabilidade, alterando-o para um ambiente produtivo. Era preciso reduzir substancialmente a vulnerabilidade brasileira a choques advindos de fluxos de capitais estrangeiros e variação de preços; consolidar a estabilização da moeda que se encontrava sob a ameaça real; acumular reservas internacionais e poupança interna, recuperar a credibilidade do país externamente, para somente assim pensar em crescimento. Esta foi tarefa do PLANO PLURIANUAL – PPA 2004-2007 – orientado por uma estratégia de longo prazo, com premissas tais como inclusão social e desconcentração de renda, com crescimento econômico e ambientalmente sustentável, buscando reduzir disparidades regionais, dinamizado pelo mercado de consumo de massas e fortalecimento da cidadania e da democracia participativa.

Fato histórico ocorreu em dezembro de 2005 quando o Presidente LULA decidiu ANTECIPAR O PAGAMENTO (em dois anos) de TODA A DÍVIDA BRASILEIRA com o Fundo Monetário Internacional: pela primeira vez o Brasil ficou livre de obrigações com o FMI. Sobre esta quitação antecipada, Henrique Meirelles, presidente do Banco Central de então, classificou a liquidação da dívida como “um momento histórico para o país: a medida reflete a solidez dos fundamentos macroeconômicos no período recente, como consequência das decisões de política econômica do governo do presidente Lula”.

Comparados com os números de FHC em 2002, tem-se que em 31/12/2008 as reservas internacionais saltaram dos pífios US$27,5 para US$ 206,8 bilhões; o salário mínimo subiu para R$465,00, que representam cerca de US$270,00, cinco vezes maior do que os US$55 do legado dos governos FHC. Com o desemprego caindo fortemente.

Eis um dos porquês de se armar o Golpe contra Lula: o Presidente colocou o Brasil numa posição altiva, de independência e autonomia internacional. Transformando o Brasil de devedor em credor do FMI. Isso eles não perdoam!

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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2 comentários

  1. Osvaldo Euclides

    Osvaldo Euclides

    A Argentina é uma experiência completamente negativa do choque neoliberal. O Brasil, desde Temer, segue completando o que FHC começou (Collor só ensaiou). E o resultado é péssimo. E isso já se sabia quando FHC deixou o poder em dezembro de 2002, após oito anos.

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