Covardia castrense

“Não é a fase em que os generais agem à luz do dia a mais difícil de se investigar, mas aquela em que atuam no submundo das sombras: covardemente apagam as marcas de suas ações”. (Le Monde Diplomatique Brasil)

     “Não existe dentro do Exército nenhuma animosidade contra Bolsonaro, muito pelo contrário”.  (Hamilton Mourão)

 

No final de outubro de 2015, na cidade de Santa Maria – RS, uma homenagem póstuma foi determinada pelo então comandante militar do sul gen. Hamilton Mourão ao primeiro militar condenado oficialmente pela Justiça Brasileira como torturador na ditadura (1964-1985), chefe do órgão repressor DOI-CODI paulista, comandando ações de tortura contra cidadãos que estavam sob sua custódia. Meses depois, em 17 de abril de 2016, num exemplo emblemático da estratégia golpista do Partido Militar, encontra-se o voto do ex-capitão Bolsonaro, quando do momento do aceite do impeachment de Dilma Rousseff pela Câmara Federal, dedicado ao mais bárbaro criminoso torturador da ditadura militar: coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra.

E por que o capitão ao agir assim não sofreu penalidade alguma por parte do Estado brasileiro? Calados ficaram o Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal (STF), a Procuradoria Geral da República.

Porque até hoje nós brasileiros e brasileiras não conseguimos construir uma memória socialmente compartilhada de repúdio nacional às atrocidades da Ditadura de 1964-1985. Caso esta memória fosse consolidada em nosso processo histórico-político-jurídico, Bolsonaro, com toda certeza, teria saído daquele evento preso e proscrito da cena pública. Mas o que aconteceu foi completamente o oposto: ele saiu da Câmara Federal autorizado a desenvolver uma plataforma neofascista para candidatar-se e ser eleito presidente da República. Registre-se que no dia de sua eleição, em 2018, na frente da sua casa na Barra da Tijuca, havia um bandeirão celebrando o torturador-mor como um herói, com o dizer: Ustra vive!

Nunca é demais recordar que a função da ditadura militar de 1964, com amplo apoio dos órgãos de Estado estadunidenses, foi a de impedir o avanço das pautas populares colocadas em movimento no início dos anos 1960. Como documenta o valioso e vasto estudo intitulado “A ILUSÃO ARMADA” (Cia. das Letras), do jornalista ítalo-brasileiro Elio Gaspari, os generais brasileiros de então adotaram a tortura como política de Estado, contra todos os oponentes ao regime ditatorial, com a adoção em 13 de dezembro de 1968 do Ato Institucional Número 5 (AI-5). Foram os anos de chumbo: da censura à imprensa; do fechamento do Congresso; das prisões, torturas e assassinatos; do arrocho salarial. O bolo do milagre econômico concentrou-se nas mãos da elite capitalista nacional e nunca foi repartido até o fim do regime ditatorial.

Em 17 de março de 2014, no jornal O Globo, os repórteres Chico Otávio e Marcelo Remigio revelaram que Cyro Guedes Etchegoyen era o militar de mais alta patente no comando da Casa da Morte de Petrópolis – RJ durante os anos de chumbo da ditadura de 1964, cujo codinome no submundo das sombras tortuosas era Doutor Bruno, o que foi reafirmado no depoimento do coronel Paulo Magalhães à Comissão Nacional da Verdade (CNV). A reportagem ainda noticiou que o coronel Cyro Etchegoyen não foi promovido a general como castigo por haver permitido que a militante Inês Ettiene Romeu, única sobrevivente da Casa da Morte, fosse libertada, numa avaliação equivocada de achar que ela, em virtude das torturas sofridas, havia mudado de lado e se tornado uma informante da ditadura infiltrada nos grupos de resistência.

Na terça-feira, 17.jan.2023, em entrevista ao Canal Pampa TV, o sobrinho do Doutor Bruno, Sérgio Etchegoyen, fiel à sua tradição golpista e ditatorial, declarou que o Presidente Lula era um covarde, pelo fato de dizer o óbvio: que após a tentativa de golpe de Estado perpetrada no dia 8 de janeiro, não confiar em suas Forças Armadas. De fato, o Exército  abrigou e se recusou a desfazer os acampamentos golpistas, espalhados pelas capitais dos estados, dentro de sua jurisdição territorial, por mais de 70 dias, emitindo inclusive uma Nota Conjunta, datada do dia 11 de novembro de 2022,  considerando os acampamentos (“verdadeiras incubadoras de terrorismo”, como afirmou Flávio Dino) como sendo manifestações democráticas (sic!); impediram de a Polícia Militar do DF realizar a detenção dos golpistas na noite do dia 08 de janeiro, colocando blindados para impedir a ação; não atuaram na defesa do Palácio do Planalto, sede do Comandante Supremo das Forças Armadas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O cinismo de Etchegoyen não vem de hoje. Como Zero Dois do Exército, à época de Eduardo Villa Bôas, ele conspirou ativamente, às escondidas, para o golpe contra a presidente Dilma Rousseff. Em maio de 2015, um ano antes do afastamento de Dilma Rousseff, esses dois oficiais pediram que o professor Dennis Rosenfeld intermediasse um encontro secreto entre eles e o vice-presidente Michel Temer. O objetivo era sondá-lo sobre um eventual impeachment daquela que havia nomeado Sérgio Etchegoyen chefe do Estado-Maior do Exército, apenas dois meses antes. Após o Golpe contra Dilma, Sérgio Etchegoyen assumiu em 2016 o Gabinete de Segurança Institucional (GSI), no governo de Michel Temer, com plenos poderes de reorganizar e controlar a inteligência de Estado, preparando o terreno para a chegada de um sem-fim de generais e oficiais aos postos no Executivo federal, conforme o roteiro político previamente concertado, tornado explícito com a eleição em 2018 do capitão Bolsonaro.

Como se vê e se demonstra, de covardia ele sim é um grande entendido.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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