Com os pés no chão

EM NOSSO ARTIGO PASSADO recorremos à breve trajetória  de Mahatma Gandhi como um dos modelos históricos de subjetividade comprometida com o bem da humanidade, tendo focado todas as suas energias pessoais no agir contracorrente e desafiador ao poder dominador baseado na concepção política da não-violênciaativa. Na quadra fascista à qual o Brasil foi submetido pelas forças do Capital e das Armas, inaugurada com o Golpe de 2016, por meio da simbiose ideológica do bolsonarismo, pauloguedismo e lavajatismo, a religião tem sido utilizada amplamente como ferramenta estratégica eficaz para adentrar o imaginário popular brasileiro, fortemente construído sob as bases da religiosidade e moralidade cristã, centralizando-a no discurso político-midiático conservador e maniqueísta, redutor da complexidade humana a binômios antagonistas e condenatórios das adversidades ao status quo autoritário vigente, materializando a máxima: “quem não é por nós, é contra nós”. Em outras palavras, brancos ricos que não aceitam as expressões da vida preta, nem dos diversos tons de cinza, sequer outras cores da aquarela do pensamento e da vida social brasileira.

Hoje me ocorreu revisitar também uma breve passagem do pensamento de uma grande personalidade cristã do século XX, em um episódio particular referente a um encontro mantido por ela em 1998 com um grupo de pessoas que não professam uma fé religiosa tradicional e metafísica, mas possuem convicções amplamente humanísticas. Em função do reduzido espaço de produção editorial, vou deter-me apenas em duas breves citações de Chiara Lubichneste evento.

Jesus é homem-Deus; portanto valoriza não apenas o que é divino, mas também o que é humano. Não somos cristãos se não somos humanos. A presença de vocês em nosso Movimento é positiva e corretiva para quem se sente tentado a limitar sua vida às coisas espirituais. Vocês têm os pés no chão”. (Ideal e Luz, p. 409, Ed. Cidade Nova, 2004).

Essa passagem vem reforçar a uma minha interpretação.Ter os pés no chão, e não em cima do muro, como tratamos em nosso artigo passado, https://segundaopiniao.jor.br/agua-para-todos-ou-coca-cola/), é o traço típico daqueles e daquelas que têm compromisso verdadeiro com a humanidade. É preciso saber do chão onde pisamos. Ter a compreensão histórica de como ele foi formado, sob que bases de exploração einjustiças de distribuição ele germinou. O chão da favela não é o mesmo chão de Copacabana ou dos Jardins; o chão dos cortadores de cana-de-açúcar pernambucanos está longe de ser o chão dos especuladores do Capital financeiro; o chão dos homens e mulheres pretos desse país, escravizados por séculos e séculos, sob o consentimento da fé cristã, é o oposto do chão dos senhores e senhoras brancos da Casa Grande, como tão bem relatam nossos pensadores mestres. Portanto, não pode haver cristianismo de verdade sem o conhecimentodo chão onde se vive; torna-se mero espiritualismo infantilou até mesmo uma fé opressora, como se viu no passado. Logicamente, para a obtenção de tal consciência é preciso adotar uma postura de escuta, de diálogo e de estudo a partir das diversas perspectivas concretas dos sujeitos pertencentes a estes chãos; conhecer suas verdades, para juntos, no espaço público, encontrar respostas para os clamores tornados escondidos pela manipulação dos grupos no Poder.

“O proselitismo é anticristão, porque não é amor: é amor a si mesmo, ao seu grupo, a sua igreja. É preciso cancelar o proselitismo. Nós devemos ter o amor pelo outro. Mesmo porque você não sabe o que as pessoas podem lhe trazer com os valores que possuem, valores em que acreditam, e com os quais talvez você se enriqueça. Talvez você não saiba bem o que é a justiça, não saiba o que significa equidade, não saiba o que significa uma economia sadia em benefício sobretudo dos mais pobres. (Idem, p. 410).

Diante deste trecho, uma pergunta emerge naturalmente, no contexto contraditório que estamos vivendo: como pode o amor cristão não buscar a justa distribuição de bens, uma justa equidade, uma vida material mais sadia para todos, a partir dos mais empobrecidos e injustiçados, e continuar dizendo-se cristão? Outra questão bastante atual: o que finalmente significa ser cristão, como afirma pelos quatro cantos, em alto e bom som, o presidente Bolsonaro e sua família? É possível ter Bolsonaro como referência de cristianismo por ele anunciado? A sua doutrina política, expressa ao longo desses anos, principalmente na campanha de 2018, é um modelo de cristianismo aplicado à política? O que finalmente é o chão da doutrina política bolsonarista?

Como anota o pensador italiano Nicolau Maquiavel (1469-1527), o organismo político, ao utilizar-se da religião como forma dominação popular, torna-se capaz de levar o povo a temer a desobediência do Estado como se fosse uma ofensa a Deus, uma vez que o mandamento divino contém uma eficácia maior para submeter os humanos.Com o uso da religião a minoria dominante consegue a obediência necessária, garantido à comunidade política coesão e duração, porque a religião fundamenta-se no temor de Deus. Portanto, enquanto para a minoria dominante a religião é um instrumento político, meio eficiente para submeter os dominados à obediência, para a maioria dos crentes ela representa e contém o TEMOR SAGRADO que os fazem respeitar os preceitos legais – reforma da previdência, reforma trabalhista, trabalho infantil, continência à bandeira estadunidense, liberação da violência armada, excludentes de ilicitude, omissão dos dados da covid-19 etc. – como se fossem mandamentos divinos.

Para Maquiavel, a religião é a paixão útil que existe para alimentar o amor civil pelo Estado, mas apresenta umaverdade fraturada: entre a verdade e a religião não há uma medida comum. Dominadores e dominados conhecem a religião de modo diferente: para o Príncipe ela é apenas útil; para o Povo ela significa a exteriorização de um mandamento divino.

Como essa equação pode ser solucionada? Fica aqui a questão.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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