Água para todos ou coca-cola?

NO INÍCIO DOS ANOS 1980, um dos filmes de curta-metragem mais vistos pelas salas de exibição dos centros universitários do país foi a produção de Marcos Magalhães –  Meow! (1981) – que apresenta um gatinho em cima do muro, numa metrópole contemporânea, indiferente aos problemas ao seu entorno, preocupado apenas com sua ração de leite diária. “Meow!” recebeu o Prêmio Especial do Júri no Festival Internacional de Cannes (1982,França); 3º lugar no Festival de Animação de Havana (1982, Cuba); Melhor Filme no Festival de Brasília (1981, Brasil).

O enredo do filme trata do cotidiano do Poder local ao entregar a Meow sua ração alimentar, até uma invasão internacional se apossar do governo e começar a dar as ordens explicitamente. A primeira mudança ocorre no regime alimentar do gatinho, que continua no seu muro, passando a receber como ração diária um refrigerante de soda-cola no lugar do leite. O gato esperneia, recusa-se à nova alimentação. O poder internacional desenvolve forte manipulação cultural propagandística de divulgação da soda-cola junto aos meios de comunicação, concomitantemente com ameaças de violência física ao gato, até que este cede e começa a ingerir a soda-cola no lugar do leite. Passado algum tempo, eis que o poder local retorna à gerência da vida daquela metrópole, retomando a ração do leite para Meow, que o recusa, preferindo, aos fortes miados, a soda-cola.

Entre os muitos exemplos daqueles que não ficaram em cima do muro ao longo da história está o de Mahatma Gandhi, advogado, defensor por mais de 20 anos dos direitos dos imigrantes indianos na África do Sul, vítimas de segregação racial. Exatamente neste período, no início do século XX, entrou em contato com as ideias do escritor russo Leon Tolstoi. Do autor, Gandhi colheu a mensagem da recusa a toda violência, desenvolvendo os conceitos de não-violência ativa” e “ação política como amor ao povo”. Ao retornar à Índia, dedicou-se a organizar seus conterrâneos contra a dominação inglesa. O primeiro ato, de forte teor simbólico, foi o de conscientizar os indianos a retornar a tecer suas próprias vestimentas, em teares manuais e domiciliares, boicotando os tecidos ingleses. Não-violência ativa implica não cruzar os braços, sair do muro, usar de todos os meios não-violentos para alcançar os objetivos almejados. Para Gandhi importa que os fins e os meios tenham a mesma natureza: sejam bons e não-violentos.

Uma das ferramentas de ação de libertação do seu povo do jugo britânico foi desacatar as ordens da Metrópole colonizadora, por meio da desobediência civil, articulada inteligentemente, tão bem teorizada pelo filósofo liberal inglês John Locke. Por isso, convocou por várias vezes seu povo para diversas ações nesse sentido. Famosa foi a sua Marcha para o Mar, mobilizando milhares de indianos a caminharem em direção ao mar para extrair dele o sal de que precisavam para o seu alimento, num amplo e aberto boicote ao sal industrializado monopolizado pelos opressores ingleses. Por este ato, sofreu longo tempo na prisão, mas conseguiu a liberação completa do sal. No dia 15 de agosto de 1947, a Índia conquistou sua independência do domínio político britânico.

De 1979 a 1985, a Região Nordeste do Brasil viveu uma das secas mais prolongadas de sua história. O auge da calamidade deu-se no ano de 1981. A iniciativa política do general presidente de então, João Batista Figueiredo, foi a de permanecer no muro e declarar: “só nos resta rezar para chover”. Os sete anos de Seca deixaram um rastro de miséria e fome: lavouras perdidas, animais mortos, uma população faminta. Calcula-se que milhões de brasileiros e brasileiras morreram, a maioria crianças sofrendo pela desnutrição. De 1997 a 1999 houve mais um período de seca terrível. A seca foi tão grave que Recife, a capital de Pernambuco, passou a receber água encanada apenas uma vez por semana. O presidente da época, Fernando Henrique Cardoso (PSDB–SP), conhecido como o presidente do “apagão”, também ficou no muro. Disse: “Quem sabe, algum dia, nós possamos resolver a famosa questão da transposição do Rio São Francisco”.

Em 2003, recém-eleito, o presidente LULA (PT), em visita ao retiro dos Bispos católicos em Itaici (Indaiatuba, SP), no dia 1º de maio, falou aos clérigos: “Eu sempre me recusei a discutir a transposição das águas do jeito que muita gente queria, sem antes saber como recuperar o Rio São Francisco. Mas serei eu quem vai fazer a transposição das águas para o Nordeste brasileiro”. Lula não ficou no muro. Em 2007, numa Mensagem ao Congresso nacional, anunciou que a primeira etapa de transposição teria início naquele ano, com as obras do Eixo Leste. Em março de 2017, Lula e Dilma (PT), junto com o governador Ricardo Coutinho (PSB-PB), inauguraram no município de Monteiro (PB), a fase de transposição das águas naquele estado. O governador em seu discurso afirmou: “Poucas pessoas no Brasil têm a noção do que essa obra representa. É a obra do século. Um milhão de paraibanos estarão bebendo dessa água. É uma obra que vai dar a capacidade de desenvolver a economia do semiárido nordestino e desbancar o coronelismo”. Uma obra realizada pelo Estado brasileiro, pensada desde o tempo do imperador Pedro II, porque alguém saiu do muro. Tomou uma posição.

Em paralelo à transposição, no ano de 2004, já no primeiro governo Lula, o Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), instituiu a construção de cisternas para armazenamento de água. Por meio da parceria com a ASA (Articulação do Semiárido Brasileiro) e convênios com governos estaduais, iniciou a construção de cisternas familiares, mobilização e capacitação de famílias rurais do Semiárido para a gestão de recursos hídricos. Até 2009 já haviam sido construídas cerca de 300 mil cisternas pelo Programa Cisternas na Região Nordeste. Ainda em 2009, iniciou um projeto-piloto Cisternas nas Escolas, protagonizada pela ASA Bahia, com o apoio do MDS e do Governo da Bahia, através da Secretaria de Desenvolvimento Social e Combate à Pobreza (Sedes). A iniciativa foi ampliada em 2010, e deste modo, entre 2009 e 2011, foram construídas 875 cisternas escolares, em 143 municípios do Semiárido. O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), dos governos LULA, permitiu a execução de obras de infraestrutura, com repercussões altamente positivas para o conjunto da sociedade brasileira, principalmente no campo econômico e social, gerando uma enormidade de empregos e o aumento da circulação da renda.

No dia 26 de junho de 2020, a cobertura do Jornal Nacional, politizando como de praxe o seu noticiário, não deu o devido valor ao acontecimento; registrou rapidamente a inauguração da etapa da transposição no estado do Ceará. Logicamente, por ter sido uma obra concebida e colocada em ação no Governo Lula, a Rede Globo silenciou: como Meow, preferiu a soda-cola.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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