Calçadas aqui e ali, por HELIANA QUERINO

Eu estava lendo por aí que mais de 70,% das calçadas brasileiras são irregulares. Grande parte falta rampa de acessibilidade, outras têm buracos nas próprias vias ou até mesmo a inexistência de calçada.

Justo a calçada, que figura a coisa mais evidente do mundo: separa os pedestres e os veículos. Às vezes lembra uma coisa “certinha”, com cadência, degrau e pegada. Métrica, concisa, enxuta, falando assim parece sem graça. Como tudo na vida, ela tem uma história. Nas ruínas de Pompeia estão os antigos sinais das construções feitas pelos romanos. E claro, a principal função era poder caminhar sem sujar os pés na lama, em caso de inundação.

Depois, a calçada desapareceu na Europa. Os pedestres, as carroças, os coches e os animais compartilhavam a mesma rua. A maioria delas, sem pavimentação. Quando chovia, tudo se misturava – a lama dos pneus, os estrumes dos bichos, o lixo. No meio da rua, os bueiros, destino para a água suja.

Logo adiante, no século XVIII foram construídas as primeiras calçadas em Londres e em Paris. E se espalharam nas demais cidades, no século XIX.

O estatuto da bicicleta é incerto, assim como a nova onda dos patinetes motorizados. Deveria ser uma proteção a mais para os pedestres, mas representa também um confinamento dos mesmos: enquanto passantes, devemos nos contentar com uma pequena parte da rua, porque as calçadas são sempre mais estreitas que a parte reservada aos veículos com rodas. Na nossa Fortaleza, por exemplo, se por um lado temos o calçadão da Beira Mar, as calçadas da Aldeota e Meireles, é preciso lembrar as do Ancuri, Bom Jardim, Jangurussu… Imagine também as calçadas das vias escondidas, aquelas que o turista não vê. As que estão espremidas entre a avenida principal e as ruelas com esgoto a céu aberto.

Tem calçada tão roída que nem ratos arriscam atravessar. E crianças brincam descalças! Com vestes rasgadas, sambam nas piscinas formadas por lama de esgoto misturadas com água de chuva e cocô de animais abandonados. Sim, em 2019, século XXI.

Por vezes, são minúsculas, quase insuficientes para caminhar.

Imagine se esparramar em uma cadeira preguiçosa no fim de tarde olhando a vida passar. Nem pensar!

A pesquisadora Clarissa C. Linke, uma das organizadoras do livro “Cidades de Pedestres”, em entrevista ao Nexo Jornal (2017) disse que“caminhamos por necessidade, e não porque seja agradável. Cada vez mais no Brasil se repensa e se reconstrói a cidade para acomodar o carro. Isso quer dizer então quadras mais longas e com menos cruzamentos, a permissão para velocidades mais altas, um tempo menor de semáforos abertos para o pedestre. Muito pouco é pensado para se propiciar uma mobilidade urbana voltada para o caminhar”.

Então, se a circulação aumenta, alguns urbanistas restringem as calçadas e alargam as ruas para os carros. Jamais o contrário. Observando a distribuição do espaço, por esta perspectiva, é fácil compreender o que é mais importante, os pedestres ou os carros. Se o pedestre invade a rua, é culpa dele se for atropelado. Se for o contrário, e o carro não respeita a ordem espacial e invade a calçada, é sempre o pedestre que vai sofrer as consequências. Isto se chama “compartilhar a rua”!

Estar privado do uso da calçada é uma forma extrema de marginalização de grupos humanos. Nos tempos de segregação racial no Sul dos Estados Unidos, quase sempre os negros eram proibidos de caminhar por elas. Eram obrigados a andar pelas ruas.

Porém, estar na calçada nem sempre é um signo de evolução: em francês, “faire le trottoir”, fazer a calçada, ou no brasileiro mesmo “rodar a bolsinha na calçada” significa se prostituir.

O comércio na calçada é o mais pobre e muitas vezes ilegal. Quem vive “na rua”, na verdade vive na calçada.

Mas a não existência da calçada pode ser ainda pior. Novamente cito os Estados Unidos, onde tem muitas ruas sem calçadas, pelo menos nos bairros residenciais. Por que? Porque para tudo se usa o carro, nunca se anda a pé, nem mesmo cem metros. A presença de calçadas poderia atrair mendigos e “homeless people”. Então, a difusão do carro generalizou a calçada, e depois a aboliu, com o triunfo total do automóvel.

Se não existe espaço público, a calçada se torna supérflua. E em muitas cidades brasileiras, a rua é considerada o lugar de todos os perigos. Quem pode, sai na rua somente de carro, da garagem de casa até a garagem de outra casa, do escritório, do shopping, de um supermercado, ou para qualquer outro lugar vigiado.

Ir a pé ou andar à pé ou NÃO ter carro, é sinônimo de pobreza do Brasil.

E o pobre é considerado como um perigo, um criminoso em potencial.

Neste contexto, ser pedestre é suspeito. Ao mesmo tempo, ser pedestre expõe-nos a todos os perigos que o carro pode evitar. Assim, todos têm acesso à rua para se locomover. Mas grande parte da população usa somente uma parte da rua, a calçada.

Pois sim, ela, a calçada se torna símbolo da parte indesejável da cidade, e de uma parte da população.

Eventualmente, as administrações municipais desejariam simplesmente abolir as calçadas para arredar a parte indesejável da população que lotam estes espaços: em parte porque é ali onde vivem, em parte porque transitar por estas calçadas representa uma ameaça para os outros. Para os que andam ao volante, quase todo pedestre é suspeito. Se ruas sem calçadas acabariam este risco, por outro lado, seria o fim de mais um espaço público. E no final nos perguntaríamos, para que serve a vida em sociedade…

O urbanista Victor Andrade, no mesmo livro Cidades de Pedestres, conceitua a “Caminhabilidade” – o que é atraente e acessível ao pedestre: a calçada em si – suas condições de manutenção e o material usado; atratividade – os locais que o espaço conecta, determinando o volume de seu fluxo, o visual, segurança viária – a velocidade permitida na via adjacente; ambiente – importante considerar se o trecho é arborizado, barulhento, tem sombra ou não; mobilidade, segurança pública – condição fundamental para o uso de qualquer espaço público. “Aqui, a lente do gênero é muito importante, pensar nas mulheres e o impacto que esse aspecto exerce sobre elas”.

Os não urbanistas, os poetas, os mendigos, os cães, os bandidos e os heróis, as mulheres sem véus, os cantores da noite, as mariposas e os vagalumes, como sonham as calçadas?

Sonham com a calçada certa – aquela que valoriza o pedestre. Qualifique a calçada, permita-nos andar a pé.

Infame? Calçada sem fama – feita para aventureiros atravessarem territórios.

Nome feminino – Calçada -, Calçada da Fama combina com Marta, primeira mulher a eternizar sua marca.

Reta, acadêmica? – Calçada pouco autêntica, se sabe até o fim do caminho.

Deserta ou poética – a calçada da rua da praça, lá encontrei o meu amor.

Desenquadrada, primitiva, superior – um contraste de calçada.

Incompleta, de rude beleza- calçada imperfeita, onde deitei e fiz amor.

Heliana Querino

Heliana Querino

Heliana Querino - canivete suíço, jornalista, pesquisadora, educomunicadora, coordenadora de Cultura e colunista no SegundaOpinião.jor

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6 comentários

  1. Avatar

    Paulo Eduardo de Souza Santiago

    Incrível como Heliana Querino descreve o retrato das calçadas como uma pintura escrita. Bem que o Srs. Prefeitos poderiam ler este artigo e se inspirar na autora para dar vida às calçadas das cidades.

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