BLOW UP, por Heliana Querino

Na tarde de domingo 17 de março, quando eu estava prestes a conhecer uma das exposições de artes do Centro Cultural Dragão do Mar, talvez até mesmo pelo estilo da arte, eu estava nervosa. Entre mim e o artista Eduardo O., uma ursa branca com tetas que pareciam infinitas, amamentava os filhotes em meio a uma das telas.

Mas que imaginação, eu tinha visto a tela apenas por foto. E o autor queria me mostrar de perto a ursa branca que ele não pintou, mas estava lá.

Na verdade, vi um pedacinho da arte, parecia uma floresta colorida com a mamãe ursa na maior calmaria. O criador da obra já tinha dado boas risadas, eu queria me explicar, mas ele disse que não tinha regras.

– Blow Up.

Foi a inspiração para as telas de Dudu.

– Venha, vou te explicar uns detalhes.

Concordei, já me sentindo parte do enredo num estranho mundo imaginário.

Eduardo, o artista plástico e publicitário, um ser curioso como a arte exige, mas ansioso e ligado em altos volts.

O Dragão. CDMAC

Dragão, nome que falamos com firmeza na voz, indisfarçável orgulho cearense. Porque é centro cultural, um dos maiores do Brasil, tantos mil metros quadrados de área ostentando arte e cultura de artistas mundialmente relevantes. – o Planetário, o Museu da Cultura Cearense, Anfiteatro, Praça Verde, Multigaleria etc.

Imagino tudo funcionando, sem riscos, sem goteiras e sem bibliotecas desativadas.

A promessa de visitar à exposição, eu fiz ainda no feriado de carnaval, nos botecos do Cariri.

O Dragão do Mar foi, talvez, um dos primeiros lugares que visitei quando vim morar em Fortaleza. Paixão, desde sempre.

A Inspiração

Eduardo O., como assina, desenvolveu seu próprio estilo a partir da troca de ideias com o artista neo-expressionista americano Russ Potak. A Blow Up de Dudu mostra telas grandes dividindo espaço com pequenas telas em técnicas auto referenciais do blow up, “descobrindo possibilidades pictóricas em novas telas”. Quem sabe foi daí que vi a ursa branca com “divinas tetas”.

É claro, ela não está presente no filme de Michelangelo Antonioni, nem mesmo nas telas de Dudu.

É pura imaginação.

Ah, como eu gosto das “viagens” das artes.

Os filmes de Michelangelo Antonioni são conhecidos como ‘cinema existencialista’: o tema principal é a falta de comunicação entre os homens. As pessoas não se compreendem, todos falam, um ao lado do outro, mas alguém escuta?

Os mistérios nunca se resolvem, o enigma permanece em toda sua existência. No longa metragem “A Aventura” (1960) não é possível compreender, nem mesmo no final do filme, porque a noiva do protagonista desapareceu em alto mar, se está morta, ou se se trata de um sumiço voluntário.

Ora, nesses tempos loucos, tantos desejam sumir, temporariamente, mesmo que seja para dentro de uma tela.

Outros personagens, o noivo e a amiga, passam todo o filme em busca da moça, procuram em vários lugares da Sicília, sem nunca a encontrar.

Até nasce uma atração entre esses dois personagens, mas é impossível saber se ela se concretizará.

Do mesmo modo, em “Blow up”não temos certeza se a fotografia do homicídio é real.

Nem com todas as ampliações da película – os “blow up”, – é possível decifrar o enigma.

Mas a imagem é grande!

Ok, mas é desfocada.

O fotógrafo viu de verdade um homem morto no parque ou apenas o imaginou?

São obras sem explicação final, assim como as telas de Eduardo O.

São filmes policiais sem soluções.

Deixei a sala das artes e sentei no café em frente a fachada da exposição Blow Up, tentando absorver o máximo daquele colorido, e voltei para a linguagem do cineasta: passados cinquenta anos, este existencialismo pode ser um pouco engraçado ou retórico. Apesar disso, Michelangelo Antonioni ainda é um dos maiores cineastas do século. Principalmente pela força das imagens e a utilização das paisagens.

Para as descrições de contextos históricos, ‘A aventura” retrata a Sicília da época e as suas obsessões com a mulher estrangeira — um exemplo é a famosa cena com Monica Vitti rodeada por homens. ‘Blow up’ é o retrato perfeito da ‘Swinging London’ dos anos 1960 e de toda uma geração que tão rapidamente passou – do conservadorismo à sociedade “liberta”. Neste filme encontramos a libertação dos costumes, a liberdade sexual, infelizmente, bem mais favorável aos homens que às mulheres (como notamos no famoso cartaz), o dandismo, a rock music,(no filme tem um concerto dos Yardbirds, o grupo que deu origem ao Led Zeppelin), e também a recuperação comercial das novas liberdades (o centro do filme é a fotografia de moda). O filme colhe a alegria e a superficialidade daquela época, as esperanças, as melancolias.

Heliana Querino

Heliana Querino

Heliana Querino - canivete suíço, jornalista, pesquisadora, educomunicadora, coordenadora de Cultura e colunista no SegundaOpinião.jor

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2 comentários

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    Paulo Eduardo de Souza Santiago

    Não conheço o artista, mas pela dissertação de Heliana Querino sobre o mesmo, é como se o conhecesse. Belo artigo.

  2. Avatar

    Ines

    Adorei ler as suas impressões sobre a Blow Up do Dudu. Você captou exatamente o espírito e a intenção do artista. Parabéns