Amaleque

“O Senhor disse a Moisés: Escreve isto num livro, como memorial, e declara a Josué que eliminarei completamente a memória de Amaleque debaixo dos céus. Moisés construiu um altar e declarou: Haverá guerra da parte do Senhor contra Amaleque, de geração a geração”. Êxodo, 17, 14

“Assim diz o Senhor dos Exércitos: Vai, pois, agora e fere a Amaleque e destrói totalmente a tudo o que tiver, e não lhe perdoes. Matarás desde o homem até à mulher, desde os meninos até aos de peito”. 1Samuel 15, 3.16.

 

No Princípio está o fratricídio fundador da cultura judaico-cristã – o assassinato de Abel pelas mãos do seu irmão Caim (Gênesis 4, 8). Seguindo a linha do Princípio, encontra-se nos textos bíblicos do Êxodo (atribuídos a Moisés, considerados lei divina), como no livro de Samuel, a determinação furiosa do Senhor Yahweh contra o povo amalequita (povo nômade, descendente de Esaú, irmão de Jacó), decidindo extirpar sua memória debaixo dos céus, destruindo tudo o que existir relativo àquele povo, matando homens, mulheres, crianças e recém-nascidos. O rei Saul cumpriu a vontade do Senhor, aniquilando todo o povo ao fio da espada. Verdadeiro genocídio. Diversos exegetas destacam que estes episódios vêm demonstrar a concepção do quanto é universal o poder de Yahweh para lutar contra os inimigos de Israel. De uma perspectiva materialista, a contenda com Amaleque muito provavelmente envolveu a disputa pelo controle da água na região (Abdalla, Tiago. Análise Exegética do Êxodo, 2009).

Os temas centrais do livro escrito por Moisés são “a libertação” da nação do jugo da escravidão do Egito por meio da ação redentora divina, “a aliança” (os dez mandamentos) de Deus com Israel no Sinai e “a presença” definitiva de Deus no meio de seu povo mediante o tabernáculo. Libertação, aliança e presença caminham juntas, desde o momento em que Yahweh libertou seu povo e assumiu a condição de ser o seu único Senhor, a quem Israel deve suprema lealdade, requerendo adoração exclusiva (Êx 20.1-3, et al). A ação de Moisés juntamente com Josué representa a unidade do quadro dirigente da guerra na qual o general liderava o exército e o sacerdote suplicava a Deus pela vitória.

Mas um fato marcante na história religiosa do Ocidente ocorreu em 313 d.C. Levando-se em conta que ficava cada vez mais difícil erradicar a nova mentalidade cristã por meio da perseguição e pela força, o imperador romano Constantino, numa grande jogada política, promulgou o Edito de Milão concedendo aos cristãos a liberdade de culto. No ano de 325 d.C. ocorre o fato inédito: a realização do primeiro Concílio Ecumênico da história do cristianismo. Foram convidados pelo próprio Imperador Constantino que acolheu os bispos conciliares em sua residência de verão em Niceia, próximo a Constantinopla. Aqueles homens do povo foram tratados como senadores do Império romano, com direito a honras militares e protocolares. Nesse Concílio são formulados os primeiros dogmas da Igreja. Niceia fala palavras definidoras e grandiloquentes sobre o carpinteiro Jesus de Nazaré: Deus-todo-poderoso; Deus de Deus; Luz da Luz; Deus verdadeiro de Deus verdadeiro. Mais tarde surgirão novos títulos: Santíssima Trindade; Maria Santíssima; Santíssimo Sacramento. A partir de então, a Igreja Católica se enche de santidades, eminências, excelências e dignidades, adotando o estilo pomposo, triunfal, superlativo e arrogante da linguagem oficial imperial romana.

Posteriormente com Teodósio I, no ano de 392 d.C., veio a cartada final pelo reconhecimento do Cristianismo como religião oficial do poderoso Império Romano, declarando ilegais os antigos deuses que outrora abençoavam e protegiam Roma. Começava a partir daí a romanização jurídica da mensagem jesuânica: a Igreja Católica como instituição dominante, o Papado como principal instituição garantidora da unidade harmoniosa social entre clero, nobreza e serviçais.

Como assinala o historiador católico Eduardo Hoonaert, não se trata só de linguagem, mas da totalidade de um novo modo de inserção da Igreja na sociedade e na vida das pessoas. Na arquitetura e na liturgia, nas vestes clericais e na formulação dos textos, na cotidianidade das paróquias, na iconografia e nas artes, na formação das lideranças, no ensino da moral, no acompanhamento diário da vida das pessoas e até na marcação de tempos e espaços transparece um Jesus que está nas mãos da instituição: “nós o definimos, nós falamos em seu nome, ditamos o que ele tem a dizer”. Jesus de Nazaré é modificado por um sistema de poder imperial.

Outro Concílio também apresenta-se com grande relevância para a compreensão do nosso tempo presente. Trata-se do Concílio de Clermont, realizado no ano de 1095, na França, tendo como personagem central o Papa Urbano II convocando cristãos para resistirem de forma armada frente aos avanços feitos por turcos e árabes no Oriente cristão bizantino, lançando o movimento das CRUZADAS como uma Guerra de Deus, na qual os combatentes passaram a levar a CRUZ como soldados de Cristo. Em troca, o Papa concedeu o perdão dos pecados para quem morresse na viagem ou na batalha contra os PAGÃOS (muçulmanos). Portanto tratava-se de uma guerra santa, pela primeira vez proclamada pelo Papa, em nome de Cristo, cujos participantes recebiam tratamento de peregrinos, se comprometiam mediante votos e disfrutavam de indulgências.

O fenômeno das Cruzadas é compreendido pela historiografia pelo menos em três perspectivas: dentro do processo de enfrentamento entre  Islam e Cristianismo, no qual Cruzada apresenta-se como uma resposta do mundo ocidental à conquista árabe; a Cruzada como um primeiro processo do colonialismo europeu, reafirmado nos processos que aconteceram nos séculos XIX e XX, relacionando assim a Cruzada ao Imperialismo; por último, há a ideia que vê as Cruzadas como um produto do tradicional confronto Leste-Oeste, que vem desde a Antiguidade e chega até a atualidade (García, José Manuel R. Historiografia das Cruzadas, 2000).

No dia 16, circulou pelas redes sociais um vídeo com um indivíduo, na cidade do Recife-PE, dizendo-se capitão e pastor, fardado e com microfone na mão, discursando: “Parabéns para vocês. Que Deus abençoe vocês. Na Bíblia, em 1Samuel, fala que Deus mandou que Samuel fosse a Saul e dissesse: ‘Ataquem os amalequitas, matem todos, inclusive as mulheres grávidas, transpasse a espada na barriga, porque o que está ali são filhos de Demônio’. Nós temos que entender que esse povo de PT, de Psol são filhos de Demônio. Eu sou armamentista. Eu vou pegar em armas e vou matar todos esses demônios”. E o público ouvinte o aplaudiu e disse “amém”.

Religiões não são neutras, nem tampouco santas. Além disso elas têm o poder de atravessar o espaço-tempo, atualizando-se em circunstâncias presentes. Por serem um constructo humano, estão carregadas intrinsecamente de joio e de trigo, do mal e do bem. O antropólogo búlgaro Tzvetan Todorov (1939-2017), em seu livro Barbárie e Civilização, assinala que acreditar em julgamentos absolutos, como fazem as religiões com suas sentenças morais, é desenvolver a enfermidade de um dogmatismo cego ao convencer-se de deter a exclusividade da verdade e da justiça, ao impor ao outro a mudez, a invisibilidade, negando-lhe a plena humanidade, impondo-lhe a exclusão da vida em civilização. Para conseguirem tal dominação, esses cegos-enfermos atuam como bárbaros recorrendo a diversas formas de violência para resolverem desacordos. Criam categorias para enquadrar os outros como menos humanos – demônios, terroristas, esquerdistas. Isto é uma típica forma de barbárie.

Como assinalado em nosso último artigo, não há barbárie que não se proteja com argumentos de “elevada nobreza”. Formulações elaboradas para permitir a liberação das rédeas do ódio, daquele sentimento de odiar com boas justificativas. Afinal, para a barbárie, imoral é sempre o outro. E assim desenvolvem-se processos de hipocrisia na defesa de privilégios antigos e novos. Clamar por ditadura para salvar a democracia. Em nome da moral e dos costumes, o ódio impera. Cabe na mesma cabeça do brasileiro cristão médio ou no militar de carreira, ambos ditos religiosos, como no exemplo acima, o comparecimento aos ritos religiosos semanais juntamente com o culto à ideologia armamentista, chegando ao aceite e à conivência com práticas de intolerância, de violência e de assassinato a minorias sociais, identificadas pelo fanatismo religioso e ideológico como “demônios”. Imputa-se ao outro a condição de “menos-humano” para justificar toda e qualquer maldade que queiram perpetrar contra ele.

Um dos grandes desafios do Estado de Direito brasileiro, recuperado recentemente com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para a Presidência da República, é o de dedicar-se de forma muito criteriosa e decidida para impedir o avanço do fascismo, colocado no governo no período de 2019-2022, tendo presente que uma de suas bases ideológicas centrais de mobilização das massas localiza-se na Religião centrada no emocionalismo acrítico, moralista, fundamentalista.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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2 comentários

  1. José Maria Ferreira da Silva

    Tempos difíceis meu nobre amigo! Precisei passar por esse momento, para acreditar que somos sim capazes de abdicar da nossa condição de seres pensantes, abdicar da nossa valorosa conquista da capacidade de raciocinar, pensar, analisar, examinar, verificar os fatos, as versões . Ou seja DESUMANIZAR-SE. Não gosto deste termo, mas realmente somos capazes de agir feito BOIADA.

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