A moral anarquista

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A decisão do ex-juiz Sérgio Moro e do ex-procurador chefe da chamada “Operação Lava-Jato”, Deltan Dallagnol, de entrar na política eleitoral despertou o udenismo moral brasileiro para uma retomada da campanha moralista contra Lula e o PT, iniciada pelos dois em Curitiba em março de 2014. Como reação, setores das esquerdas entraram na discussão sobre ética na política, acusando a “Lava-Jato” de farsa judicial e os seus chefes de reacionarismo político e hipocrisia ética. Aqui mesmo no Segunda Opinião está ocorrendo um animado debate a respeito da matéria. 

Esta coluna foi iniciada tratando do mesmo assunto. Nela fizemos uma distinção entre “ética na política” e “ética da política” para trazer ao conhecimento do público brasileiro uma famosa polêmica entre Leon Trotski, um dos principais dirigentes da revolução socialista russa de outubro de 1917, e o consagrado filósofo americano John Dewey em torno do conhecido livro do primeiro “Moral e Revolução”. Dedicamos ao tema, então, duas colunas. A primeira trouxe o ensaio “Moralidade liberal”, do também filósofo americano George Novack, defendendo a visão ética marxista do livro; a segunda, um artigo de Dewey sobre “Meios e fins”, contestando a solução apresentada por Trotski para a questão.

Na coluna de hoje, a proposta é mais modesta. Visa apenas apresentar o ponto de vista do anarcocomunismo sobre a moral, num texto escrito pelo mais famoso adepto dessa corrente filosófico-política do anarquismo: o russo Piotr Kropotkin (1842-1921). O texto foi traduzido da revista eletrônica El Viejo Topo de 9 de dezembro de 2020. Trata-se da primeira seção do seu livro “A moral comunista”, cuja edição portuguesa, publicada em 2006 pelas Edições Silabo, de Lisboa, tem 136 páginas. Não houve cotejo entre os dois textos, pois não dispomos, no momento, da obra em português. O livro foi escrito como um panfleto destinado ao grande público e tem feito muito sucesso entre os adeptos portugueses e espanhóis do anarquismo. Espero que possa ter alguma utilidade na discussão que se faz atualmente no Brasil. (Auto Filho, editor da coluna).

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  Piotr Kropotkin

A história do pensamento humano lembra as oscilações do pêndulo, que duram séculos. Depois de um longo período de sono, chega o despertar; e então ele se livra das correntes com as quais todos os envolvidos – governantes, magistrados, clérigos – o amarraram cuidadosamente. Isso os quebra. Ele submete a severas críticas tudo o que lhe foi ensinado; e põe a nu a vaidade dos preconceitos religiosos, políticos, jurídicos e sociais em que havia vegetado. No interesse do seu espírito de indagação, ele parte por caminhos desconhecidos, enriquece nosso conhecimento com descobertas imprevistas: ele cria novas ciências.

Mas o inveterado inimigo do pensamento – o governante, o curial, o religioso – é refeito imediatamente após a derrota. Aos poucos vai reunindo suas forças dispersas, modificando sua fé e seus códigos, adaptando-os às novas necessidades; e, valendo-se daquele servilismo de caráter e pensamento que cuidou bem de cultivar, aproveita a momentânea desorganização da sociedade, explorando a necessidade de descanso, a sede de riquezas daqueles, as decepções dos outros – de todos  as decepções -, eles recomeçam com calma o seu trabalho, apoderando-se da infância, claro, para a educação.

O espírito da criança é fraco e, portanto, fácil de subjugá-la no terror: a isso eles apelam. Intimidam-no e pintam-no com os tormentos do inferno, fazem-no ver os sofrimentos das almas em dor, a vingança de um Deus implacável; mais tarde, eles vão lhe contar sobre os horrores da Revolução, eles vão explorar todos os excessos dos revolucionários para fazer da criança “um amigo da ordem”. O religioso o habituará à ideia de lei para melhor fazê-lo obedecer ao que chama de lei divina: o advogado também lhe falará sobre a lei divina, para melhor sujeitá-lo aos textos do código. E o pensamento da próxima geração assumirá aquele matiz religioso, aquele matiz autoritário e servil ao mesmo tempo – a autoridade e o servilismo sempre andam de mãos dadas -, aquele hábito de submissão tão manifesto entre nossos contemporâneos.

Durante esses períodos dormentes, as questões morais raramente são discutidas. Práticas religiosas, hipocrisia judicial, entretêm-nos. Eles não discutem; são levados pelo hábito, pela indiferença. Eles não são apaixonados a favor ou contra a moralidade estabelecida; Eles fazem o que podem para acomodar externamente suas ações ao que dizem que professam; e o nível moral da sociedade desce cada vez mais. Você chega à moral dos romanos da decadência, do antigo regime, do fim do regime burguês.

Tudo o que era bom, grande, generoso, independente no homem, enferruja gradualmente, enferruja como uma faca sem uso. A mentira se torna uma virtude, um achatamento, um dever.

Enriquecer, curtir o momento, esgotar sua inteligência, seu ardor, sua energia, custe o que custar, passa a ser o  desiderato  das classes abastadas, assim como da multidão miserável, cujo ideal é parecer burguês. Então a depravação dos governantes – do juiz e das classes mais ou menos abastadas – torna-se tão repulsiva que o outro balanço do pêndulo se quebra.

A juventude vai se emancipando aos poucos, vai jogando fora seus preconceitos, a crítica volta. O pensamento desperta, é claro, em alguns; mas o despertar insensível ganha a maioria; dado o momento, a revolução surge.

E a cada momento a questão da moralidade é colocada na mesa. Por que devo seguir os princípios dessa moralidade hipócrita? pergunta o cérebro emancipado do terror religioso. Por que certos princípios morais são obrigatórios?

Procura, então, realizar aquele sentimento que o assalta a cada passo sem ainda o ter explicado; e ele não o compreenderá enquanto o criar um privilégio da natureza humana, enquanto ele não descer aos animais, às plantas, às raças, para compreendê-lo. No entanto, ele tenta explicá-lo de acordo com a ciência do dia.

E – é preciso dizê-lo? – quanto mais se solapam os fundamentos da moralidade instituída, ou melhor, da hipocrisia que a sustenta, tanto mais se eleva o nível moral da sociedade. Especialmente nesta época, precisamente quando é criticado e negado, o sentimento moral progride mais rápido; ele cresce, ele se eleva, ele se purifica.

Foi visto no século XVIII. Desde 1723, Mandeville, o autor anônimo que escandalizou a Inglaterra com sua  Fábula das Abelhas e os comentários que acrescentou, atacou frontalmente a hipocrisia da sociedade disfarçada de moralidade. Isso manifestou como os chamados costumes morais nada mais são do que uma máscara hipócrita; como as paixões que se acredita dominarem o atual código de moral tomam, ao contrário, uma direção tanto mais perniciosa quanto maiores são as restrições desse mesmo código. Como Fourier fez mais tarde, ele pediu liberdade para as paixões, sem com isso degenerar em vício; e homenageando com isso a falta de conhecimento zoológico de sua época, ou seja, esquecendo-se da moralidade dos animais, explicou a origem das idéias morais da humanidade pela adulação egoísta dos padres e dos governantes.

A vigorosa crítica das idéias morais feita posteriormente pelos filósofos e enciclopedistas escoceses é conhecida; os anarquistas de 1793 são conhecidos, e entre os quais se encontra o mais alto desenvolvimento do sentimento moral, entre os legisladores, os patriotas, os jacobinos, que cantavam o dever e a sanção moral para o Ser Supremo, ou entre os atentos hebertistas, que negavam, como fez Guyau recentemente, o dever imposto e a sanção moral.

– “Por que eu deveria ser moral?” Esta é a pergunta feita pelos racionalistas do século XII, os filósofos do século XVI, os filósofos e revolucionários do século XVIII. Mais tarde, esta questão foi repetida novamente entre os preutilitaristas ingleses (Bentham e Mill), entre os materialistas alemães. Como Büchner, entre os niilistas russos dos anos 1860 a 1870, entre o jovem fundador da ética  anarquista (A Ciência da Moral das Sociedades ),Guyau, que morreu, infelizmente, muito cedo, e entre os jovens anarquistas franceses, hoje.

Na verdade, por quê?

Há trinta anos, essa mesma questão fascinou os jovens russos.

– “Serei imoral”, acabava de dizer um jovem niilista a um amigo meu, traduzindo levianamente os pensamentos que o atormentavam.

– “Será imoral, por que não seria?”

-Porque a Bíblia não quer isso? Mas a Bíblia nada mais é do que uma coleção de tradições babilônicas e judaicas, tradições coletadas, como eram as canções de Homero ou as lendas da Mongólia. Devo, então, retornar ao estado de espírito dos povos semibárbaros do Oriente?

– Porque Kant me fala de um  imperativo categórico,  de uma ordem misteriosa que vem do fundo de mim e me ordena que seja moral? Mas por que esse “imperativo categórico” deveria ter mais direitos sobre minhas ações do que aquele outro imperativo que de vez em quando me incita à embriaguez? Palavras, nada mais que palavras, como a da Providência ou do Destino, inventadas para encobrir nossa ignorância!

Ou serei moral para agradar a Bentham, quem quer que eu acredite que serei mais feliz se me afogar para salvar um transeunte caído no rio, do que se o assistir se afogar?

Ou talvez, porque essa é a minha educação? Porque minha mãe me ensinou moral? Mas então, se eu me ajoelhar diante da pintura de um Cristo, ou de uma  Madona,  respeitar o rei ou o imperador, me curvar ao juiz que eu sei que é um canalha, só porque minha mãe, nossas mães – muito boas, mas ignorantes – ensinaram um monte de besteiras?

“Preconceitos, como tudo mais; vou trabalhar para me livrar deles. Se estou enojado por ser imoral, tentarei ser imoral como fiz quando era adolescente, para não temer a escuridão, o cemitério, os fantasmas e os mortos, pelos quais fui intimidado. Farei isso para quebrar uma arma explorada pelas religiões; farei isso, enfim, para protestar contra a hipocrisia que tentam me impor em nome de uma palavra que se chamou moralidade ”.

Tal foi o raciocínio que a juventude russa fez na época de romper com os preconceitos do velho mundo e hastear a bandeira do niilismo ou, melhor, da filosofia anarquista: «Não se incline diante de nenhuma autoridade por mais respeitada que seja; não aceite nenhum princípio, desde que não seja estabelecido pela razão.

Deve-se acrescentar que os jovens niilistas, depois de jogar o ensinamento moral de seus pais na cesta, queimando todos os sistemas que lidam com isso, desenvolveram dentro de si uma série de  costumes  morais infinitamente superiores a qualquer coisa que seus pais tenham praticado, sob a tutela do Evangelho, da  consciência, do imperativo categórico,  ou do  interesse bem compreendido  dos utilitaristas?

Mas antes de responder à pergunta “Por que sou moral?” vejamos primeiro se a pergunta está bem colocada: analisemos as causas dos atos humanos.

 

Fonte: Primeira seção do livro de Kropotkin A moral anarquista.

Auto Filho

AUTO FILHO é professor de Filosofia e Economia Política da Universidade Estadual do Ceará. Foi editor literário do jornal Gazeta de Notícias e Crítico de Arte do jornal Unitário.

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