ZELMA MADEIRA – determinação, criatividade e potência na trajetória de uma feminista negra



“Eu sou uma mulher humana e todo dia eu tento aprimorar essa minha humanidade, essa preocupação, principalmente, com os segmentos discriminados na nossa história, na nossa sociedade”


Filha de um casal negro, Gilberto Madeira, trabalhador da construção civil, e Rosária Firmino de Araújo, costureira, a caçula entre três filhos,  Zelma Madeira nasceu em meio às andanças dos seus pais pelo Piauí, na cidade de Aroazes.  

Em 1972,  Zelma, ainda criança, foi com os pais morar em Teresina. A família acreditava que lá teriam melhores condições de vida, poderiam ter no meio urbano mais possibilidade para trabalhar.

Zelma Madeira,  filha de uma terra castigada pela seca e pela pobreza, desde a infância aprendeu a ser uma guerreira, usou inteligência e força para enfrentar o racismo dentro da própria escola. 

Uma vida marcada por luta, dona Rosária sempre teve o convívio, a certeza e a consciência de que os três filhos só iam conseguir as coisas através de muito esforço, e os pais fizeram uma aposta de mudar a realidade,  pela via da escola. “Só que eu odiava a escola, sempre dei muito trabalho, eu não gostava de ir, eu chorava porque em casa eu tinha um tratamento e na escola eu tinha outro  – as pessoas chamam de bullying eu chamo de racismo”

“A escola exigia de mim muita violência, eu tinha que bater, eu apanhava e eu não queria ficar só apanhando, eu queria bater”

Estar na escola era uma guerra, a menina dava uma de durona para não apanhar dos outros meninos:

“Ei, nega feia, ei neguinha do pajeú, ei galinha suru”, eram expressões violentas que não a deixavam se apaixonar pela escola. 

Isso não dizia que eu não era uma criança inteligente, eu era uma criança inteligente, tão inteligente que eu não suportava aquele lugar asqueroso da violência, e nem sempre as professoras iam se ater àquilo ali como violência: “Ah, isso é coisa de criança mesmo” e tudo mais”



1. Em que outra época gostaria de ter vivido? Nesta época mesmo, eu sou muito prática e eu não queria viver um tempo anterior.  Teria coisas muito atrasadas, e eu não ia me adaptar, e eu não quero me ater também ao futuro, porque eu também posso me desgrudar. Eu sou uma mulher do tempo presente.

2. A palavra que eu mais (menos) gosto: Gosto sempre das palavras solidariedade e afetos, eu não gosto das palavras racismo e ódio.


3. Um filme para ver de novo: . O filme que eu já assisti umas três vezes foi o Pantera Negra, eu acho que ele desloca o olhar da gente, todo o filme. Você não pode estar no lugar de costume, em uma visão eurocêntrica ou centrada em uma determinada etnia, ele é todo tempo te convidando pra você sair do lugar. O que a gente tem costume de ver pra cima, é pra baixo, o que é costume de ver para um lado, pra eles é para o outro. É legal esse deslocamento. Eu estudo o projeto de colonialidade e da descolonialidade, ele é um convite para a descolonialidade, como é que nós vamos desconstruir, no caso brasileiro, 519 anos de um jeito, e a gente poder pensar de outro.  519 anos, eu não posso dizer que foi só massacre, eu não posso dizer que foi só desvantagem, tá tudo junto e misturado, só que a gente também tem que ter consciência de como foi feita essa dominação, de como essa dominação foi construída e da dificuldade de desconstruir.



4. Politicamente, eu sou de esquerda, mas, como a religião, eu estou sempre atrás de compreender o processo. Eu sou uma mulher de esquerda que combate o racismo, eu sou uma mulher feminista, sou uma mulher, vou estar sempre combatendo esse viés liberal de que todos nós somos iguais perante a lei, porque não somos, não temos essa igualdade no plano formal – e a gente precisa lutar. Eu diria que eu sou uma mulher de luta, uma mulher a favor da igualdade racial, a favor da equidade de gênero, a igualdade em termos sociais e econômicos, essa é uma pauta, é meu projeto de vida, disso eu não vou abrir mão nunca.



5. Quem você ressuscitaria ?  Luís Gama.



6. O livro que já li várias vezes: Gosto da Lilia Schwarcz, O Espetáculo das Raças, adoro o jeito dela lidar com as questões raciais — ela é judia, branca, professora. Estou lendo a “Biografia do Brasil” e estou lendo também “O que é o racismo estrutural” do Silvio Almeida, daquela coleção pequenininha que tem o livro “ o que é encarceramento em massa” da Juliana Borges.



7. Eu me acalmo é com esse contato com a natureza, caminhar na praia e olhar o mar, viajar sem estar dirigindo e ver as paisagens –  esse olhar para a natureza com calma. Também o potencial criativo me acalma,  sou filha de costureira, e quando eu me casei minha mãe me deu uma máquina,  posso criar coisas na costura.



8. Eu me irrito diante de injustiças , de intolerância e das práticas discriminatórias e racistas.



9. A emoção que me domina é a emoção dos afetos e da solidariedade.



10. Um dia ainda vou enxergar os caminhos de possibilidades da construção e edificação de uma outra nação. De uma nação mais igualitária, esse é meu norte, essa é a minha utopia, porque se eu não tiver isso eu nem consigo viver. Estamos vivendo de alienação e de tanta perseguição aos direitos humanos, eu preciso me agarrar a algo, e esse algo a que eu me agarro é o que estrutura o meu trabalho, é o que estrutura a minha vida, meus afetos, minhas relações, é acreditar que um outro mundo é possível, ele não vai nascer num estalar de dedos, ele é construção, eu preciso de alianças,  preciso estruturar meu trabalho, até no amor, eu considero que o amor é político, é o ethos político.



11. Existem heróis? Qual o seu? Eu tenho vários heróis. Dentro da discussão da negritude, Angela Davis,  uma guerreira. Dentro da História do Brasil, Luís Gama era um grande homem, não era formado em direito, mas fazia esse papel de advogado para quem queria comprar suas alforrias. Mandela, Abdias do Nascimento, Lélia Gonzalez, esses intelectuais, esses acadêmicos, esses militantes, esses lutadores, eu os tenho como heróis por que eles travaram lutas em tempos tão adversos. Luís Gama, no período da escravidão, os negros confiavam nele, davam o dinheiro pra ele comprar a alforria, porque eles tinha vergonha e medo de comprar a liberdade com o “senhor”.


12. Religião: Eu não sou religiosa, sou uma estudiosa da religião. Minha mãe foi cética, objetiva. Ela não era religiosa, o negócio dela era estudar, ter prosperidade, era pagã nesse sentido. Para ela, a ciência é que explica. Mas no meu doutorado eu estudei as mães, mas não era qualquer mãe, as mães-de-santo,  me aproximei das religiões, passei a conhecer e respeitar  as religiões de matriz africana, o candomblé e a umbanda.

É uma religião que mais se aproxima da condição humana —  você não é só o bem, não é só o mal, isso lhe habita. O panteão africano explica. É uma responsabilidade ter uma religião,  é para quem congrega, como eu não estou lá todo tempo, acho injusto eu dizer, por exemplo, que eu sou umbandista, candomblecista, porque eu não congrego, eu conheço, eu vou lá nas festas, eles me convidam e eu vou.

Entendo a religião como uma religação também com o cosmo, nesse sentido sou bastante religiosa, alguma orquestração criou esse mundo, as energias, e assim vou me aproximando de elementos da natureza, o divino está nas plantas, nas pedras, no mar, na água.

Deus para mim não é esse Deus que castiga, é esse Deus com quem você pode dialogar, agradecer.



13. Dinheiro: Nesse mundo capitalista não tem jeito, a gente precisa do dinheiro para a sobrevivência. A gente tem que ter cuidado nessa visão, nessa questão do ter, do consumir em excesso porque nos ensinam a vantagem de acumular, então a gente tem que ver a relação que vai ter com o dinheiro.

Historicamente, nós negros tivemos sempre dificuldade de lidar com o dinheiro. A gente não tem a noção de acúmulo, a noção é de solidariedade, é distribuir com todo mundo, então se a gente tem dinheiro diz logo: “vambora fazer comida pra todo mundo”.


14. A vida é cheia de surpresas , ruins e boas, e que passam.


15. Se você tivesse o poder, o que mudaria? A violência contra a vida humana, a ignorância , a prepotência…

16. Eu gostaria de ser mais paciente, do verbo esperançar.


17. Não perco uma oportunidade de denunciar desigualdades, claro que eu tenho muito cuidado para não ficar uma pessoa chata, embora hoje, também, todo mundo que vai pautar a defesa dos Direitos Humanos seja mi mi mi, vai ser essa coisa toda, mais eu tento sempre de uma forma consciente, lúcida, chamado as pessoas para a reflexão.


18. A solidão e o silêncio: Eu acho que a solidão ruim é se ela for entendida como abandono, você não pode estar todo tempo preso a um cordão umbilical. Até para você se libertar você tem que ter momentos de silêncio e de solidão que é pra você poder se achar, pra você poder saber quem você é, e você não se perturbar com o desejo dos outros sobre você. As vezes você só pode saber o que é que eu quero, o que é que eu busco, as vezes é na solidão, quando você está sozinha: o que é que eu quero da minha vida, que escolha eu vou fazer, então eu não vejo algo negativo na solidão. Pode ficar sozinho, você pode ficar triste, pode chorar, por que isso é o humano. Então a gente tem que se deparar com essa humanidade até para poder construí-la.



19. O Brasil: O Brasil tem uma grande riqueza, ele é plural em termos culturais, em termos étnicos. Temos potencial de riqueza, mas, ao mesmo tempo em que eu tenho esse potencial da diversidade,  há um ataque a essa diversidade. Campeão em desigualdade, extremamente autoritário, não é à toa que há uma aposta de perseguição aos Direitos Humanos. A nação tem uma cultura racista, sexista, LGBTfóbica.  Um país que nega tudo o que ele é, nega que tem as diferenças e acha que diferença é uma coisa ruim, diferença não é ruim.

Diferença só é ruim quando você diz o diferente que pode, o que não pode, o que tá em cima, o que tá embaixo, se você escalonar a diferença é ruim, se você colocar a diferença num círculo, numa roda que cada lugar da roda seja uma potência, a diversidade é a potência, então no dia que a gente descobrir que nós temos todos os elementos propícios á potência nós vamos superar esse campeão em desigualdade, no dia em que a gente parar de esperar pelo salvador da pátria, de que uma pessoa vai nos salvar… temos que aprender a dimensão do coletivo, aprender que ninguém nasce civilizado, ninguém nasce humano, nós vamos construir a civilização e nós vamos aprender a construir a humanidade.

20. O ser humano vai… Não sei dizer … vai ter que aprender que a humanidade se constrói , não vem pronta.

21. Eu sou uma mulher negra, sou uma mãe diferente, mas nem por isso, ruim. Sou mãe apaixonada pela minha filha Letícia, minha alegria. Também me considero mãe dos meus sobrinhos e de algumas pessoas da universidade. Sou uma mulher humana e todo dia eu tento aprimorar essa minha humanidade. Eu me considero uma pessoa afetuosa, amiga, solidária, eu acho que essa frase me representa muito,  nesse tempo de disseminação do ódio, como nós estamos vivendo, vale muito: “as amizades são bênçãos que nos ajudam a curar a alma”. O que nos tem ajudado a fazer essa travessia tão difícil são as amizades, então é por isso que eu não abro mão de tomar café com as minhas amigas, essa coisa de brincar, de sorrir, de falar de outras coisas e de saber sentir quando aquele amigo não está bem pra gente poder acolher, por que é nesse momento dessas acolhidas que a gente tá sobrevivendo.

Se por um lado, a menina Zelma enfrentou o bullying na escola, por outro lado, em meio àquelas pessoas que não prestavam atenção nela, e achavam que era uma pobre criança que passava fome,  havia pessoas boas, do bem: “Eu acredito que sempre, em todos os meios, tá tudo junto e misturado, existem pessoas legais, existia pessoas  naquela época que eram anti-racistas, eu lembro as professoras brancas que a empoderavam, que diziam que ela podia, que ela era inteligente”,  além, claro, de seus pais que, nunca deixaram faltar nada para os filhos e apostaram no processo de educação de tal modo, que hoje os três filhos são doutores, como sonhou dona Rosária. 

A menininha que nunca foi “comportadinha”, que nunca foi aquela criança que ficou no lugar onde os adultos ou os racistas a queriam colocar, sempre estava questionando. Na juventude, mudou a realidade quando passou de primeira em uma universidade pública para Serviço Social. Veio embora para o Ceará depois que casou, é Especialista em Ciência Política, pela UFC, Mestra e Doutora em Sociologia. A professora da UECE está na SEPI  desde 2015 como Gestora da Igualdade Racial. Foi reconduzida e é motivo de orgulho para o pai, para a mãe e para quem conhece Zelma Madeira e a força de sua trajetória. 



Nós mulheres já nascemos para estar na luta, e nós mulheres negras estamos no espaço público desde o tempo colonial. Sou uma feminista do feminismo das mulheres negras, eu não posso entender as relações sociais se não entender as relações entre classe, raça e gênero. E dentro desses segmentos, as mulheres negras têm sofrido demais, mas à medida que sofremos demais, desde o período da escravidão, que as saídas são apontadas por nós mulheres negras. Quem segura a onda somos nós mulheres negras e todas as vezes que nós mulheres negras mexemos nessa estrutura, ela muda. As fagulhas criativas vem das mulheres negras, estamos na militância em vários lugares, dando o recado e alterando essa estrutura, pagando o preço às vezes com a própria vida, como no caso Marielle, por denunciar uma sociedade racista, machista e patriarcal.


 

Heliana Querino

Heliana Querino

Heliana Querino - canivete suíço, jornalista, pesquisadora, educomunicadora, coordenadora de Cultura e colunista no SegundaOpinião.jor

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