Voltaire e Ernesto – FILOMENO MORAES

“Isso não se faiz, Arnesto”.

Adoniran Barbosa, “Samba do Arnesto”

Voltaire é o François-Marie Arouet, o intelectual-público francês do século XVIII; Ernesto é o Ernesto Araújo, atual ministro das Relações Exteriores do Brasil. Por que a ligação de pessoas tão separadas temporalmente e de visões de mundo tão diferentes? Perdoarão as deusas e deuses a mistura entre Voltaire e Araújo?

O fato é que, por estes dias, em São Paulo, durante reunião do CPAC (Conservative Political Action Conference) Brasil, evento ultraconservador realizado pelo deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), Araújo deitou longa e abrangedora falação. Entre outras tantas coisas, afirmou que o Brasil é vítima de ação ideológica mundial, a qual se manifesta, entre outros aspectos pelo climatismo, uma deturpação da discussão sobre o aquecimento global, no seu entendimento. Assim, “o climatismo está para a mudança climática como o globalismo está para a globalização”. Sentenciou também que, no arco ideológico contra o Brasil, além do climatismo, se acresceriam o globalismo, o politicamente correto e até autores neomaoístas. Criticou ainda a ativista sueca Greta Thunberg, de dezesseis anos de idade, em que o chanceler vê uma garota bem alimentada e com sobrepeso. Descompôs a Organização das Nações Unidas por dar voz a Thunberg na Cúpula do Clima etc. etc. etc. (informações retiradas dos jornais “O Globo”, “El País” e “Folha de São Paulo”, edições do dia 12 último).

 

Além do mais, o chanceler fez revelações íntimas sobre a própria descoberta, tardia, de ser um conservador. Na sua longa explanação sobre a ideologia conservadora, Araújo ressaltou que “o conservador é o sujeito menos preconceituoso que existe” e que os adversários é que “gostam de pensar por rótulos, palavras de ordem. Para eles existe o gay, a mulher, o operário, o camponês”. Ainda repetiu o bordão de que o esquerdismo é totalitário e “quer totalizar o indivíduo por uma de suas características”.
O ponto forte da algaravia de Araújo, entretanto, está na crítica que endereçou ao Iluminismo e à Revolução Francesa, com os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Segundo o ministro, “Voltaire começou a querer lacrar” (sic), e “pegou as instituições de seu povo, milenares, disse que isso não servia para nada, desrespeitando a fé e a monarquia”. Voltaire e seus seguidores “pediam liberdade, igualdade e fraternidade: liberdade para obedecer o poder, fraternidade para eu tomar o que é seu e igualdade para ter medo de guilhotina”, concluiu.
​Mas por que Voltaire foi o objeto da verdadeira ira de convertidos do chanceler? Voltaire, nome pelo qual François-Marie Arouet ficou conhecido, viveu entre em 1694 e 1778. Autor de vasta obra literária e filosófica e ativo partícipe da cena intelectual e política do seu tempo, foi vítima da intolerância do Trono e do Altar, por conta da sua luta contra o absolutismo. Por isso, foi levado algumas vezes à Bastilha, e, entre outros castigos, talvez o que mais afetou, foi condenado a ficar exilado de Paris por vários anos.

 

Como se viu em síntese, a fala do ministro caracterizou-se pelo ressentimento explícito ou implícito contra o Iluminismo, a Revolução Francesa, o constitucionalismo, o multilateralismo, a democracia, o pluralismo, enfim, a modernidade. Evidentemente, que a Araújo deve ser assegurado o direito de expressar-se. Nada mais concorde com Voltaire, que foi um defensor radical da liberdade de expressão, destacando-se na sua volumosa e preciosa obra filosófica e literária, o “Tratado sobre a tolerância”.
Mas, também, o filósofo tinha na ironia e no sarcasmo a arma destruidora de preconceitos, juízos ultramontanos e manifestações de absolutismo político, religioso ou simplesmente de imbecilidade. Assim é que, em carta datada de 30 de agosto de 1755 e dirigida a Rousseau, Voltaire acusa o recebimento de “novo livro contra o gênero humano”, afirmando que ninguém jamais empregou tanta vivacidade em tornar os seres humanos novamente animais e que com a leitura de tal obra “pode-se querer andar com quatro patas”. Pode-se imaginar o juízo que Voltaire – se se desse ao trabalho de lê-lo – vocalizaria em referência ao chanceler Ernesto Araújo.

Filomeno Moraes

Filomeno Moraes

Filomeno Moraes Cientista Político. Professor da UNIFOR. Doutor em Direito e livre-docente em Ciência Política.

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