Viagem a Licânia – CLAUDER ARCANJO

Com a peste a se alastrar pelas terras de Licânia, Companheiro Acácio percebeu que eu me afundava numa tristeza perigosa. Tentava me alegrar com suas picardias, relembrando situações em que fiz troça de seus modos e manias de solteirão rabugento; mas, nem um muxoxo de riso me escapava por entre os lábios murchos e tristonhos.

No outro dia, retornou cedo ao meu hotel a me instigar:

— Esperar é morrer!

— …

— Não me venha com reticências, senhor Arcanjo! Você há de convir que se você ficar mais uma semana com essa cara de égua que perdeu a cria (você feliz já é feio tal qual dor ciática, imagine macambúzio!) sua saúde irá para o ralo. Sua melancolia, amigo, é a pior das pandemias.

— Ô riminha fajuta! — devolvi-lhe.

— Isso, muito bem! Reaja, Clauder Arcanjo! Como eu ia falando, esperar aqui é assinar a nossa carta de adesão (e entrada) à Mansão dos Mortos. Vamos, é hora de nos mexermos! — conclamou Companheiro Acácio.

— Nos mexermos?! Não está vendo que a crise está se alastrando, os hospitais lotados, o povo caindo doente e morrendo como se fossem moscas? — argumentei, com os olhos marejados.

— Não me venha com o seu pessimismo! Atacar é sempre a melhor defesa, bem nos ensinou Napoleão. Logo, como amigo seu e sempre mais ponderado nas questões práticas, arrumemos as malas e vamos a Licânia! — anunciou Acácio, em tom de general de brigada.

Certas palavras têm o condão de operar milagre em minhas carnes. “Licânia” é uma delas. Quando a ouvi, o sangue assomou à face tristonha e o otimismo retornou aos meus músculos.

— Viajar para Licânia?! Ouvi bem? — exigi uma confirmação.

— Sim, o que abate você (e eu o conheço profundamente) é a sua preocupação com a saúde dos licanienses. Desde que você recebeu aquela bendita carta, relatando a chegada da Covid à ribeira de Licânia, você não dorme, não ri, não lê, nem repara mais na beleza das raparigas que…

— Você se dê ao respeito, Companheiro Acácio! Bem sabe que eu só tenho olhos para a minha amada. Meu coração é terra habitada, melhor, pertencente a uma única mulher — afrontei-o, a gesticular com a mão direita, tal qual um orador da Antiga Grécia.

Ia respondendo ao Companheiro, mas arrumando as malas.

Em questão de horas, já estávamos retornando ao Ceará.

Não vou aqui tecer maiores detalhes acerca do voo para Fortaleza; apenas um fato digno de relato: Acácio sentou à janela, mas, mal abriu seu Anticristo, de Nietzsche, uma gorda senhora, ao lado, começou a tecer comentários elogiosos sobre a prosa do filósofo alemão. Ela empolgava-se tanto com as palavras que se engasgava, assomando-lhe uma tosse seca e renitente. Isso depressa fez com que o Companheiro se livrasse de Nietzsche, mudasse para os fundos da aeronave, e passasse a usar uma dupla máscara.

Descemos em Fortaleza. No aeroporto já nos aguardavam Carlos Meireles e Nabuco, o bichano de estimação do Companheiro Acácio. Cumprimentamo-nos com o olhar e o gestual; os abraços haviam sido proscritos, recomendação para manutenção da boa saúde em tempos de peste. No entanto, Acácio não respeitou tal regramento com Nabuco, abraçou-o detida e afetuosamente. Até que o gato miou protesto pelos exageros dos afagos acacianos.

— Seu ingrato! Eu roído de saudade e…

— Miau — Nabuco respondeu-lhe, encerrando peremptoriamente tal protesto.

Mal saímos do estacionamento, fomos abordados por uma blitz:

— Quem são e para onde vão?

— Isto não lhes interessa, meus senhores. Manter-me-ei calado, lastreado na Constituição Federal, bem como seguirei o meu caminho, silente, montado no meu sagrado (e inegociável) direito de ir e vir! — respondeu-lhes Companheiro.

Quando tentei serenar os ânimos dos policiais, advogando que tudo se tratava de uma simples brincadeira acaciana, na qual o Companheiro simulava sua condição de desobediente civil, tal qual um cômico Thoreau dos tempos modernos, os dois soldados já haviam nos enfiado no interior de um fétido camburão.

— Você, seu filho de uma égua, não perde a ocasião de nos meter em confusão. Não sabia que Fortaleza decretou o lockdown? Os homens estão tão somente cumprindo com as recomendações das autoridades públicas — protestei.

Companheiro Acácio, impávido e insolente, assacou-me:

— Você é um retrógrado, Clauder Arcanjo. Um covarde, um filhote da ditadura, um…

A minha vista escureceu, e o pau comeu dentro da viatura.

Só ouvia os protestos de Carlos Meireles e o miado do Nabuco, que, de besta, quis se meter, a tomar partido, na nossa briga.

— Miau… zzz… sss… miau… *…=…#… miau… fsiu…zzz…

E a nossa viagem a Licânia fez uma escala, prolongada, na delegacia de plantão.

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Autor das obras Licânia, Novenário de espinhos, Uma garça no asfalto, Cambono, O Fantasma de Licânia, entre outras.

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