Uma rua na minha existência – JESSIKA SAMPAIO

Quando eu tinha lá para os meus 14 anos e precisava voltar para casa das aulas de teatro, tarde da noite, minha mãe dizia para não descer perto do Posto de Gasolina, que fica a um quarteirão de onde eu morava, mas ir para outro terminal e pegar o ônibus que passava na porta de casa. Nesse outro lugar eu tinha duas opções: pegar o Bela Vista Lagoa ou o Lineu Machado. O Bela vista vinha 3 min mais cedo e ia direto para casa, o Lineu dava uma volta pelo bairro, e só então eu descia. A questão é que eu sempre esperava o Lineu Machado.

Eu amava contornar o muro do então Jóquei Clube Cearense e ver as árvores durante a noite. Eu tinha um carinho pelo ônibus também porque ele passava por toda a Avenida Lineu Machado e eu amava ter um ônibus com o nome da avenida que eu morava. Só depois de um tempo eu descobri que o nome da Avenida era em homenagem ao Lineu de Paula Machado, empresário brasileiro e presidente do Jóquei Clube, não o cearense. Na verdade, eu achava bem chique morar justo nesse “cruzamento” histórico: aos fins de semana, quando criança, no final dos anos de 1990, via a Lineu Machado lotada de carros. Ficávamos eu e meu irmão pendurados na varanda vendo aquelas pessoas tão arrumadas indo apostar nos cavalos e contando os carros que estacionavam.

Eu nunca entrei no Jóquei quando ainda estava ativo, meu irmão e minha mãe, sim. Não fui, provavelmente, por conta do diabo da adolescência que me fazia querer ser do contra e odiar tudo que era proposto em família. Mas amava a Lineu Machado, e lembro das tantas vezes que comecei a caminhar nela para ser saudável, das quedas de bicicletas, dos namoricos nas paradas de ônibus e das gulas cometidas nas padarias e lanchonetes. Eu falo o nome dessa rua que, na verdade é uma avenida, e me vem a memória de casa. Hoje toda reformada e com a energia de movimento, aquela energia que nos faz andar.

O canteiro central com os pés de azeitonas pretas ainda abriga os corredores e caminhantes, inclusive, até ano passado, um senhor caminhava todo santo dia às 5h da matina, espero que ele ainda esteja caminhando, via nele o morador joqueiclubense, o cara que não para, não desiste. Tirando todo esse saudosismo que habita em mim, a Lineu, como chamo intimamente, hoje tem problemas de avenida grande, engarrafamento, assaltos e desordem, mas só perto do shopping, essas coisas que os shoppings trazem, mas em todo o resto ela ainda mantém o ar dos domingos de corrida de cavalo, pelo menos para mim.

 

Jessika Sampaio

Curiosa, tagarela, viajante, feminista, caótica e contraditória. Ignorante sobre quase tudo e em constante aprendizado sobre o vazio da existência. Além de ser bicho humano, já atuei como jornalista, radialista, assessora de imprensa e de comunicação, coordenadora de comunicação e em lutas ambientais e LGBTQIA+. Em processo de aceitação da escritora que grita aqui dentro.

Mais do autor

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.